{"id":9357,"date":"2020-03-05T20:01:52","date_gmt":"2020-03-05T23:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9357"},"modified":"2020-03-06T11:12:32","modified_gmt":"2020-03-06T14:12:32","slug":"entrevista-andreia-pires","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entrevista-andreia-pires\/","title":{"rendered":"Entrevista com Andr\u00e9ia Pires"},"content":{"rendered":"<h6>Artista em foco<\/h6>\n<h5><i><span style=\"font-weight: 400;\">por Cl\u00f3vis Domingos e Francis Wilker<\/span><\/i><\/h5>\n<p><b><img class=\"size-fusion-400 wp-image-6450 alignright\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-400x266.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-200x133.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-300x200.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-400x266.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-600x400.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-768x511.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02-800x533.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/andreia-pires02.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Em <\/b><b><i>PRA FRENTE O PIOR<\/i><\/b><b> a Inquieta Cia cria no espa\u00e7o uma atmosfera dist\u00f3pica. Em outros trabalhos seus tamb\u00e9m podemos identificar esse \u201cfim de festa\u201d se inscrevendo em cena, como em <\/b><b><i>Vagabundos<\/i><\/b><b> ou <\/b><b><i>Fortaleza 2040<\/i><\/b><b>. Como voc\u00ea percebe o lugar da distopia no seu trabalho?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do que se passa pelas curvas desses trabalhos s\u00f3 se exibem na maioria das vezes os restos dos corpos, o que sobra do desgaste, o que se salva do acidente, o rascunho do plano ou a execu\u00e7\u00e3o imprecisa de uma engenharia importante. Os desejos desses projetos vivem a poucos metros \u00a0uns dos outros, partilham o mesmo\u00a0enunciado por diferentes gestos, andar de um lado para o outro de m\u00e3os dadas, lan\u00e7ar uma trouxa de roupas para o alto, lan\u00e7ar entulhos para o alto, saltar em grupo at\u00e9 acabarem-se as for\u00e7as, acelerar uma moto at\u00e9 acabar o tempo da cena, narrar um texto de palavras roubadas, narrar um texto de a\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias, correr nu. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">PRA FRENTE O PIOR<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00f3s performers seguimos em frente, apesar da trincheira, preferimos que nada dali saia, e o m\u00ednimo que consentimos que saia, um olhar disperso ou uma m\u00e3o solta, \u00e9 pela curva que sai. O desvio \u00e9 o lugar onde perdemos o ponto de refer\u00eancia, onde olhamos em frente e n\u00e3o achamos o fim, provavelmente, n\u00f3s, desviados do centro, passamos a narrar algumas distopias, acentuamos algumas palavras, desordenamos conjuntos hier\u00e1rquicos, reconfiguramos endere\u00e7os, acionamos alarmes. \u00c9 por esse motivo que esse movimento de trabalhos art\u00edsticos em que tenho me engajado permanece uma a\u00e7\u00e3o torta, mal-educada, perto de ser uma sinaliza\u00e7\u00e3o que aponta outras dire\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>A imagem de seis pessoas de m\u00e3os dadas em <\/b><b><i>Pra Frente o Pior<\/i><\/b><b> evoca diferentes modos de organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Se por um lado temos a atmosfera dist\u00f3pica, por outro, a ideia de um mundo que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se pensado coletivamente \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua nessa obra e tamb\u00e9m em outras cria\u00e7\u00f5es suas. Em <\/b><b><i>Vagabundos<\/i><\/b><b> ou em <\/b><b><i>Bando de P\u00e1ssaros Gordos<\/i><\/b><b>, a coralidade \u00e9 um importante procedimento po\u00e9tico. Quais os sentidos \u00e9ticos, pol\u00edticos e est\u00e9ticos que voc\u00ea atribui a coletividade no seu trabalho?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pronto, o bando que se inventa na cidade onde moro, em Fortaleza,\u00a0fica\u00a0entre a elite protagonista e os grupos miser\u00e1veis, esses que se interessam pelo reduto do acontecimento, mais do que seu an\u00fancio solista. Penso: Como embalar para o alto um grupo de pessoas vorazes por suas buscas, e torn\u00e1-las gigantes, n\u00e3o uma, mas todas em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es? Talvez nesse sentido seja impulsionada a\u00ed uma \u00e9tica diferente daquela escrita na constitui\u00e7\u00e3o brasileira, mas a da exist\u00eancia das coisas comuns, dos peda\u00e7os de a\u00e7\u00e3o que se tornam poss\u00edveis de apresentar na coletividade, na multiplica\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses do que pode acontecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No espet\u00e1culo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">PRA FRENTE O PIOR<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o h\u00e1 um protagonista. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Bando de P\u00e1ssaros Gordos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vagabundos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (trabalhos em que fiz a dire\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m n\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fortaleza 2040<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, apesar de um corpo grunhir sozinho no centro do palco, n\u00e3o h\u00e1, ainda assim. N\u00e3o h\u00e1 um, h\u00e1 v\u00e1rios.\u00a0 Essa dan\u00e7a de muitos embri\u00f5es de a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias fazem sentido onde, num desenho da hist\u00f3ria da arte, os diretores, atores principais, escritores, primeiros bailarinos e solistas protagonizam largos espa\u00e7os que acabam confundido alguma especificidade com diferen\u00e7a de n\u00edvel de poder.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Me interessa a reuni\u00e3o de diferen\u00e7as, o n\u00e3o se acostumar com aquilo que j\u00e1 se sabe, descobrir procedimentos de trabalho e aprender a inventar com o risco de n\u00e3o dar certo. Isso se d\u00e1 em grupos grandes de pessoas, que \u00e9 o formato esfuma\u00e7ado que eu desejo continuar trabalhando como po\u00e9tica no Teatro, na Dan\u00e7a e no Cinema.<\/span><\/p>\n<p><b>A Inquieta Cia mostra-se interessada em outros arranjos produtivos na sua forma de organiza\u00e7\u00e3o. Em <\/b><b><i>PRA FRENTE O PIOR<\/i><\/b><b> por exemplo, ningu\u00e9m assina uma dire\u00e7\u00e3o\/encena\u00e7\u00e3o do trabalho. Nesse sentido, como voc\u00ea compreende a no\u00e7\u00e3o de autoria nas suas cria\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Inquieta Cia. re\u00fane artistas engajados numa composi\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica cotidiana de assuntos ligados \u00e0 vida, \u00e0s imagens, aos diversos finais de mundos, aos procedimentos c\u00eanicos, \u00e0 performance e \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de planos estrat\u00e9gicos para aprender a dialogar. Esse grupo de pessoas n\u00e3o \u00e9 liderado por um dos membros, mas pela situa\u00e7\u00e3o a que cada trabalho nos leva; quase sempre nosso caminho \u00e9 constru\u00eddo de d\u00favida e observa\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o e pausa. N\u00e3o somos um grupo de teatro. N\u00e3o somos tamb\u00e9m, uma companhia de dan\u00e7a. Mas fazemos Teatro e Dan\u00e7a. Entendemos que os modos de operar da Inquieta v\u00e3o surgindo como se fossem um texto metaf\u00f3rico que imagina, compara, inventa e compartilha. Em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">PRA FRENTE O PIOR<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> assim como no grupo, n\u00e3o temos diretor e somos impulsionados a trabalhar num movimento constante de aten\u00e7\u00e3o, despreocupados com o criador ou proponente de cada coisa, \u00a0o trabalho vai seguindo com seu projeto contra \u00e0s conven\u00e7\u00f5es de respeitabilidade moral, exposto nas a\u00e7\u00f5es de insist\u00eancia que geram a sua dramaturgia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Penso que a autoria tem a ver com parir, v\u00e1rios elementos formam uma gesta\u00e7\u00e3o: interfer\u00eancias, mem\u00f3rias, conex\u00f5es biol\u00f3gicas, invas\u00f5es cognitivas, for\u00e7a, ajuntamento de pessoas; enquanto algu\u00e9m se disponibiliza para ligar tudo isso, e nesse caso essa pessoa pode ser chamada de autora, n\u00e3o dona, afinal muitas contribui\u00e7\u00f5es fazem parte dessa forma\u00e7\u00e3o. Tenho atuado bastante como diretora, at\u00e9 mesmo como professora na universidade, e venho me posicionado num contexto de orientar, direcionar projetos. Nessas experi\u00eancias, vou aprendendo a notar sinais que deformam os modelos de trabalho autorit\u00e1rio; formam-se outras texturas e vou me aproximando delas.<\/span><\/p>\n<p><b>Voc\u00eas iniciam o <\/b><b><i>PRA FRENTE O PIOR<\/i><\/b><b> dizendo: \u201cO que voc\u00ea vai ver \u00e9 exatamente o que voc\u00ea vai ver\u201d. A frase opera como um ant\u00eddoto a qualquer expectativa de uma narrativa linear ou f\u00e1bula para o trabalho. Essa opera\u00e7\u00e3o se mostra presente em praticamente todas as suas obras. O que interessa a voc\u00ea \u00e9 a presentifica\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o como eixo motriz de sua po\u00e9tica? Qual perspectiva ganha o corpo no seu fazer?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vivemos redundantemente o agora.\u00a0 N\u00e3o tenho me interessado pelo esquema futurista para o lugar onde desenvolvemos nossos planos. Desejo a cena que segue seus \u00edmpetos de urg\u00eancia, seus rasgos de onde escorrem as palavras. Pelo presente conversamos para esticar os argumentos, falar para notar que ainda estamos aprendendo, produzir a\u00e7\u00f5es que nos levantam dos nossos assentos, que nos fazem avan\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos projetos em que trabalho, os corpos vivos, subalternos,\u00a0com seus latidos esgani\u00e7ados e suas vozes sibilantes inarticuladas, gritam sob o controle de uma chefia ocidental, atuam com os ossos ressequidos mas enriquecidos de vitalidade numa \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o confronto em todos. Assim pulsa\u00a0a vida. A guerra se torna uma necessidade diante das diferen\u00e7as, ela brota da carne, do di\u00e1logo, dos pensamentos poss\u00edveis e imposs\u00edveis, assim como no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Poema Conjectural <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de J. Luis Borges: &#8220;O Doutor Francisco Laprida, assassinado no dia 22 de setembro de 1829 pelos montoneros de Aldao, pensa antes de morrer<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;. Aqui nessa pequena abertura de poema, na imagina\u00e7\u00e3o, na<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> inven\u00e7\u00e3o imbu\u00edda de desejo, pensar antes de morrer se torna uma possibilidade, uma alternativa, radicalizando tra\u00e7os de pura realidade do corpo para poss\u00edveis multiplicidades. O corpo esquematiza encontros, produz in\u00fameras formas de vida e, ent\u00e3o, trava batalha. Diferente da matan\u00e7a, ele regula contatos das pot\u00eancias heterog\u00eaneas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A concretude dos objetos e sua produ\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a tamb\u00e9m se mostram como tra\u00e7os que chamam a aten\u00e7\u00e3o nos seus projetos. Vemos colch\u00f5es, caixas de papel\u00e3o, cones de sinaliza\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito e at\u00e9 uma moto invadirem a cena de <\/b><b><i>Vagabundos<\/i><\/b><b>. Em <\/b><b><i>Bando de P\u00e1ssaros Gordos,<\/i><\/b><b> de maneira inusitada, um carro irrompe no palco. Em <\/b><b><i>Fortaleza 2040,<\/i><\/b><b> somos surpreendidos com uma fanfarra em dado momento. Como voc\u00ea trabalha essa \u201cinvas\u00e3o\u201d das coisas do mundo nas suas obras e seus poss\u00edveis efeitos e leituras?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A palavra invas\u00e3o \u00e9 muito precisa para encontrar uma reflex\u00e3o do caos ressoante nos projetos que tenho atuado e as leituras s\u00e3o geralmente associadas aos significados das coisas, do que a pr\u00f3pria \u00a0materialidade delas. N\u00e3o sei bem como falar disso, mas tem um tanto de imagina\u00e7\u00e3o cruzada com extrema absor\u00e7\u00e3o de tudo que vejo, dos lugares que vivo e isso vai me fazendo rapidamente uma artista enlouquecida de narrativas em que o tudo pode ser, se torna uma hip\u00f3tese. No espet\u00e1culo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vagabundos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, existe uma cena que ajuda a aproximar essa ideia, segue uma das narrativas:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">De uma das sa\u00eddas de emerg\u00eancia do teatro, uma atriz carrega um lustre achado no lixo dos fundos da casa do Senador Eun\u00edcio Oliveira, localizada na Rua Deputado Moreira da Rocha, 778. Abaixo do primeiro degrau da arquibancada, descem pneus girando sobre si mesmos, sendo carregados por Leonardo William e Milton Sobreira. Longos tapetes luminosos e duas cadeiras amarelas protegidos por pl\u00e1sticos transparentes, uma mesa de madeira pintada de branco, dois ventiladores com h\u00e9lices im\u00f3veis, mangueiras de inc\u00eandio descartadas, uma enorme \u00e1rvore de Natal, um cofre, uma cama, uma geladeira azul quebrada decorada por adesivos do Gr\u00eamio Estudantil de 1989, um botij\u00e3o de g\u00e1s, duas sacas de cimento, sete bicicletas, tr\u00eas caixas de sab\u00e3o Brilhante, um refletor de luz alaranjada, uma placa de tr\u00e2nsito roubada da Avenida Treze de Maio, uma moldura de comprimento equivalente a altura de S\u00e9rgio Cavalcante, o ator mais baixo. No mais fundo da cena, h\u00e1 uma mudan\u00e7a de casa, um tr\u00e2nsito de grandes e pequenos objetos, uma viagem de um estado para outro, uma esp\u00e9cie de rebeli\u00e3o de materiais que cruzam de cima para baixo, da direita para a esquerda. Uma cena do filme Rei Le\u00e3o interrompe esse cruzamento, piruetas nascem no centro do palco ao som de uma vinheta do programa do Silvio Santos. Todos aplaudem. Uma moto ilumina a cena com seus far\u00f3is acesos, sua buzina insistente expulsa todos os atores da cena. Explode mais uma bomba na cal\u00e7ada do teatro <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Blackout.<\/span><\/p>\n<p><b>A sua carreira evidencia permanentes tr\u00e2nsitos e contamina\u00e7\u00f5es, as cria\u00e7\u00f5es nascem desses deslizamentos entre as linguagens do teatro, da performance, da dan\u00e7a contempor\u00e2nea, e, mais recentemente, do audiovisual. Por outro, a sua atua\u00e7\u00e3o profissional tamb\u00e9m \u00e9 marcada por esse deslocar, temos a artista, a pesquisadora acad\u00eamica e a docente, uma vez que atua pedagogicamente em oficinas, cursos de gradua\u00e7\u00e3o e resid\u00eancias art\u00edsticas. Gostar\u00edamos que falasse um pouco sobre o que te move, como se move e o que faz mover nesses tr\u00e2nsitos.<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que me move \u00e9 a soma do desejo com a revolta. Isso se move numa rebeli\u00e3o que acontece do modo mais simples: o encontro. Reunir para trabalhar, propor, pesquisar, executar, depravar e compartilhar. Isso move o olhar, move o corpo, os \u00f3rg\u00e3os, as perspectivas do tempo e das ideias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu percurso nunca foi solit\u00e1rio e isso foi gerando trabalhos do mesmo modo, nada solit\u00e1rios, o que aos poucos foi me fazendo entender uma diversidade de produ\u00e7\u00e3o que \u00e9 atravessada pela amizade, pelas influ\u00eancias de pessoas pr\u00f3ximas que me apresentam outros mundos que se cruzam de modo org\u00e2nico com meus percursos.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entendo que o movimento da cria\u00e7\u00e3o, da composi\u00e7\u00e3o, se espalha por todos os jeitos de trabalhar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, mergulhar num processo pedag\u00f3gico de troca e inven\u00e7\u00e3o, sem que seja produzida uma dramaturgia a partir dos elementos que o constituem.<\/span><\/p>\n<p><b>Torna-se dif\u00edcil olhar para um t\u00edtulo como <\/b><b><i>PRA FRENTE O PIOR<\/i><\/b><b> e n\u00e3o criar alguma associa\u00e7\u00e3o com o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro dos \u00faltimos quatro anos. Voc\u00ea \u00e9 uma artista, mulher, nordestina e de ascend\u00eancia ind\u00edgena. Como tem percebido os horizontes e limites para um corpo com a sua hist\u00f3ria e lugar de fala nos nossos dias e como essas quest\u00f5es atravessam a sua cria\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma mulher chamada Andr\u00e9ia, assim como muitas outras, vive no Brasil. Ela olha para ele, e ele lhe escapa. Aos poucos, sua habita\u00e7\u00e3o se torna uma constru\u00e7\u00e3o desesperada. Ela sou eu. Um corpo que pode ser chamado de doente e suas interven\u00e7\u00f5es acontecem sem anestesia, basta notar o qu\u00e3o bruta \u00e9 a sua presen\u00e7a. Torna-se zona de fronteira, zona m\u00f3vel de perigo, zona ilegal, zona clandestina. Este corpo cearense\u00a0separa e une, une e separa sentidos, n\u00e3o como polaridades ou oposi\u00e7\u00f5es, mas como inven\u00e7\u00e3o cultural feita de poderes, espa\u00e7os, s\u00edmbolos, diferen\u00e7as. Obras art\u00edsticas coletivas. A subjetividade nordestina necessita mover interst\u00edcios e nesse movimento gerar outros fluxos num tempo de mudan\u00e7a cont\u00ednua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos aqui para escrever um tipo espec\u00edfico de relato, sem palavras. Algo que despiste os olhares fixos da nossa a\u00e7\u00e3o. O seu potencial de exist\u00eancia se d\u00e1, de alguma forma, no oferecimento desta presen\u00e7a, aos que pretendem pensar sobre o corpo enquanto bomba de propuls\u00e3o \u00e0s sociedades que estamos construindo ao viver.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Por e para aqueles que vivem aqui, agora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Voce\u0302 defendeu sua dissertac\u0327a\u0303o de Mestrado intitulada Performances e Poli\u0301ticas de um Corpo Criminoso no Programa de Po\u0301s-Graduac\u0327a\u0303o em Artes da Universidade Federal do Ceara\u0301. Nesta pesquisa voce\u0302 pensa a especificidade em que o corpo, como poli\u0301tica e materialidade do sensi\u0301vel, na\u0303o concorda com a norma ou com as imposic\u0327o\u0303es opressoras. Como voce\u0302 analisa essa possibilidade de desobedie\u0302ncia do corpo frente a\u0300s estruturas de poder? Como se da\u0301 a relac\u0327a\u0303o entre pesquisa acade\u0302mica e pra\u0301tica arti\u0301stica? E mais: quais seriam as estrate\u0301gias para que o corpo, no campo arti\u0301stico, na\u0303o perdesse sua condic\u0327a\u0303o de cometer delitos e infrac\u0327o\u0303es?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desobedecer esses formatos e\u0301 inventar relevos e descobrir outros modos de viver e se relacionar com as normatizac\u0327o\u0303es impostas pelo Estado. Hoje, e\u0301 difi\u0301cil pensar em crime sem pensar no projeto civilizacional da modernidade. Na\u0303o que o exerci\u0301cio da punic\u0327a\u0303o sobre indivi\u0301duos desviantes ja\u0301 na\u0303o tivesse existido, muito e de formas variadas, por\u00e9m, \u00e9 com a definic\u0327a\u0303o e refinac\u0327a\u0303o da jurisprude\u0302ncia no processo de instaurac\u0327a\u0303o de repu\u0301blicas por todo o mundo, incluindo a criac\u0327a\u0303o de um campo de direito internacional, que se dissemina tambe\u0301m a poli\u0301tica de regulac\u0327a\u0303o dos corpos e os valores pelos quais se medem e se julgam as suas conformac\u0327o\u0303es ou deformac\u0327o\u0303es em relac\u0327a\u0303o a\u0300 ordem autorita\u0301ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se crime e\u0301 ato, criminoso \u00e9 o corpo ao qual a a\u00e7\u00e3o \u00e9 imput\u00e1vel. Definir um corpo como criminoso e\u0301 defini-lo como puni\u0301vel, qual mate\u0301ria de privac\u0327a\u0303o, tortura ou pena capital, qual mat\u00e9ria da punic\u0327a\u0303o n\u00e3o \u00e9 outra, sena\u0303o os corpos e as condic\u0327o\u0303es a\u0300s quais estes sa\u0303o sujeitos. Na\u0303o ha\u0301 nesta definic\u0327a\u0303o outro desi\u0301gnio que na\u0303o o da instaurac\u0327a\u0303o e manutenc\u0327a\u0303o de uma ordem humanista, com toda a sua histo\u0301ria de patriarcado, capitalismo e colonialismo. Fazer do crime resiste\u0302ncia a\u0300 punic\u0327a\u0303o e\u0301 perturbar sem fuga nem antagonismo a autoridade destas forc\u0327as. E\u0301 desenvolver no seu seio a irregularidade que tanto menosprezam e, com isso, potenciar a existe\u0302ncia de vidas cujo modo esta\u0301 por dar. Crime pode potencializar a vida por vir, perturbac\u0327a\u0303o de uma humanidade que se pensa o centro de tudo. Ent\u00e3o , produzir arte no corpo e\u0301 produzir um corpo criminoso, desobediente ao que se espera dele.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">As pr\u00e1ticas art\u00edsticas produzem motivos para gerar pesquisas, fomentar curiosidades, reinventar o ensino, descentralizar a escrita e colaborar com outros processos de constru\u00e7\u00e3o cultural, social e hist\u00f3rico. Fico na torcida para que a academia e as artes passem a se compreender como vizinhas e que haja uma intimidade capaz de dissolver o que estiver endurecido de ambos os lados.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quanto \u00e0s estrat\u00e9gias para que o corpo, no campo art\u00edstico, n\u00e3o perca sua condi\u00e7\u00e3o criminosa, para mim est\u00e3o na continuidade dos trabalhos, no transbordamento das a\u00e7\u00f5es, no potencial da po\u00e9tica. A lei continua r\u00edgida, a constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil permanece no mesmo lugar, sendo assim, basta um sacolejo brusco, e j\u00e1 estaremos fora delas. \u00c9 assim que seguimos, depravados, desviados, destitu\u00eddos.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><b>Em v\u00e1rios trabalhos seus e com a Inquieta Cia h\u00e1 a busca permanente por experimenta\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-pol\u00edticas nos espa\u00e7os abertos da cidade. O que interessaria a voc\u00eas nessa rela\u00e7\u00e3o entre corpo, arte e territ\u00f3rios urbanos?\u00a0H\u00e1 um trecho de um texto seu em que consta a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: &#8220;As v\u00e9rtebras dessa Fortaleza est\u00e3o vis\u00edveis, embora cobertas por camadas de uma massa cinzenta, que endurece e \u00e9 capaz de permanecer ali por anos e anos&#8221;. O que poderia provocar a arte no concreto da cidade? Como a viv\u00eancia na cidade reverbera nas suas cria\u00e7\u00f5es?<\/b><b><br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A arte pode martelar o concreto, se aproveitar dos seus equipamentos para saltar, escalar, deslizar, se esconder. Artistas e engenheiros, cronistas sociais e turistas ficam com frequ\u00eancia curiosos sobre o excesso de cimento que banha as cidades, \u00a0com os viadutos e pr\u00e9dios cuja durabilidade \u00e9 assegurada por cinco gera\u00e7\u00f5es. O ch\u00e3o cinza, que se prop\u00f5e resistir, oferece sua\u00a0materialidade opaca ao corpo que simplesmente repousa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cresci em um bairro chamado Mondubim, na periferia da cidade, em frente \u00e0 uma lagoa polu\u00edda e misteriosa. Todos os dias eu caminhava nas suas redondezas para pegar o \u00f4nibus at\u00e9 a escola, depois de um tempo, para o trabalho, e logo para o ensaio e ent\u00e3o para as apresenta\u00e7\u00f5es, enfim, outros caminhos. Mudei de endere\u00e7o, mas esses percursos distantes pela cidade foram permanecendo nos projetos, nas obras, nas dan\u00e7as, nos contos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cena exp\u00f5e as incongru\u00eancias da rua. As regras s\u00e3o dificilmente estabelecidas. O que importa, no caso, \u00e9 que o acontecimento esteja \u00e0 vista, ou aquele programa que algu\u00e9m foi intimado a cometer. Todo um sistema de dramas, de natureza geralmente roubada da cidade. As inven\u00e7\u00f5es continuam, de modo que a representa\u00e7\u00e3o jamais acabar\u00e1.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artista em foco por Cl\u00f3vis Domingos e Francis Wilker Em PRA FRENTE O PIOR a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6450,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[40],"tags":[162],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9357"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9357\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9357"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}