{"id":9355,"date":"2020-03-05T19:55:07","date_gmt":"2020-03-05T22:55:07","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9355"},"modified":"2020-03-06T11:13:20","modified_gmt":"2020-03-06T14:13:20","slug":"entrevista-performatica-com-joao-fiadeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entrevista-performatica-com-joao-fiadeiro\/","title":{"rendered":"Entrevista Perform\u00e1tica com Jo\u00e3o Fiadeiro"},"content":{"rendered":"<h6>Pedagogo em jogo<\/h6>\n<h5><i><span style=\"font-weight: 400;\">por Jo\u00e3o Fiadeiro e Maria Fernanda Vomero<\/span><\/i><\/h5>\n<p><img class=\"size-fusion-400 wp-image-6234 alignright\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-400x266.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Fiadeiro \u00a9Ana Viotti\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-200x133.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-300x200.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-400x266.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-600x400.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-768x511.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti-800x533.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/JoaoFiadeiro_cred_Ana-Viotti.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esta conversa, descrita abaixo, tem in\u00edcio em um encontro. Uma colis\u00e3o, como Jo\u00e3o costuma dizer \u2013 e eu gosto muito desse termo. Um encontro virtual, na verdade, mas n\u00e3o menos caloroso. Algu\u00e9m j\u00e1 lhe havia comentado: &#8220;Ela \u00e9 curadora das A\u00e7\u00f5es Pedag\u00f3gicas da MITsp&#8221;. Ent\u00e3o, quando me apresentei, pude dizer-lhe apenas: &#8220;Oi, sou a Maria Fernanda&#8221;. Agora, sou eu quem lhe fa\u00e7o as vezes:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Este aqui \u00e9 o Jo\u00e3o. Jo\u00e3o Fiadeiro, portugu\u00eas, nascido em Paris (durante o ex\u00edlio dos pais, ativistas pol\u00edticos), core\u00f3grafo e pesquisador atrav\u00e9s da arte. Sim, atrav\u00e9s da arte. O Jo\u00e3o costuma dizer que tudo o que faz como artista serve para investigar o &#8220;estar vivo&#8221; e reconhecer as propriedades e as possibilidades que existem a cada momento de colis\u00e3o com o mundo. Notem bem: de novo, o termo recorrente &#8220;colis\u00e3o&#8221;. Pois o Jo\u00e3o \u00e9 o pedagogo em foco da edi\u00e7\u00e3o 2020 da MITsp.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Jo\u00e3o est\u00e1 \u00e0 beira do texto, no canto da p\u00e1gina. S\u00fabito me olha e diz:)<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> A pedagogia tem um lugar muito presente em meu trabalho art\u00edstico, porque considero a forma\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o como plataformas para pensar junto, ou seja, todas as quest\u00f5es que me ocupam como artista s\u00e3o quest\u00f5es que tenho que confrontar com os outros, c\u00e1 para fora. E s\u00f3 no ato do encontro, da colis\u00e3o com outras pessoas e com colaboradores, \u00e9 que consigo realmente considerar o que estou a sentir, a pensar. Vejo o gesto de transmiss\u00e3o como um gesto de partilha e amplifica\u00e7\u00e3o de um conjunto de afetos, inquieta\u00e7\u00f5es e inclina\u00e7\u00f5es que me interessam. Essa postura mais pedag\u00f3gica passou a ser inevit\u00e1vel no instante em que percebi que, nas primeiras semanas de trabalho em est\u00fadio, no in\u00edcio de uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, eu era sempre confrontado com a expectativa natural dos bailarinos ou dos performers em querer saber qual a dire\u00e7\u00e3o, o tema, a pergunta que aquela pe\u00e7a traria. Me sentia muito incapaz de fornecer essa informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que estava exatamente ali para que eu pr\u00f3prio descobrisse e identificasse o que me afetava e me fazia criar. Para lidar com essa press\u00e3o, comecei a desenvolver um m\u00e9todo de trabalho que me permitisse estar com os demais, sem ter que explicar-lhes ou ilustrar o que faria. E isso come\u00e7ou a constituir-se como estrat\u00e9gia de encontro e transformou-se em modo de ensino ou de rela\u00e7\u00e3o com os conte\u00fados e as quest\u00f5es que me afetam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 No entanto, eu lhe pe\u00e7o que explique seu m\u00e9todo de Composi\u00e7\u00e3o em Tempo Real&#8230;<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Jo\u00e3o j\u00e1 mudou de lugar. Est\u00e1 nas entrelinhas, mas tamb\u00e9m nas aspas, nos pontos de exclama\u00e7\u00e3o que n\u00e3o querem aparecer no texto, nas retic\u00eancias.)<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: Composi\u00e7\u00e3o em Tempo Real (CTR) foi uma designa\u00e7\u00e3o que criei, uma estrat\u00e9gia de trabalho, um modo de me relacionar com o problema da composi\u00e7\u00e3o e da improvisa\u00e7\u00e3o. Esse termo \u2013 &#8220;composi\u00e7\u00e3o em tempo real&#8221; \u2013 traduz exatamente o que se prop\u00f5e a fazer: pin\u00e7ar a decis\u00e3o a partir de uma perspectiva organizada e composta, mas em confronto com o tempo real, o tempo presente \u2013 isto \u00e9, s\u00e3o dois princ\u00edpios que se anulam ou que se contrap\u00f5em. A composi\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e um olhar de fora, um suspender pr\u00e9vio, e o tempo real impede esse olhar de fora, esse saber pr\u00e9vio. Nessa tens\u00e3o que se cria entre essas duas for\u00e7as, d\u00e1-se o gesto \u2013 que chamo de Composi\u00e7\u00e3o em Tempo Real. \u00c9 um gesto que emerge como consequ\u00eancia, uma colis\u00e3o entre esses dois conceitos, e n\u00e3o um gesto feito \u00e0 medida de um desejo pr\u00e9vio. Ou seja, o acontecimento acaba por traduzir uma rela\u00e7\u00e3o entre a for\u00e7a do que tenho para oferecer e a for\u00e7a daquilo que o tempo concreto real me obriga, me restringe. Proponho, assim, uma mudan\u00e7a de paradigma. Tendemos a reagir \u00e0quilo que nos interpela de modo habitual, ou seja, recorrendo a nosso repert\u00f3rio de saber, sejam eles culturais, gen\u00e9ticos ou biol\u00f3gicos. A CTR prop\u00f5e uma suspens\u00e3o das certezas para que a d\u00favida se instale, e o espa\u00e7o de questionamento do desconhecido se transforme numa for\u00e7a de trabalho e num lugar de acolhimento. Esse movimento do &#8220;parar&#8221; (a fim de &#8220;re-parar&#8221;) \u00e9 muito dif\u00edcil porque nosso corpo est\u00e1 condicionado e desenhado para replicar modos de rea\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o pr\u00e9-definidos, que foram sendo acumulados por nossa experi\u00eancia de vida. Enquanto &#8220;compositores em tempo real&#8221;, n\u00e3o temos outra possibilidade a n\u00e3o ser aceitar que n\u00e3o sabemos, e essa aceita\u00e7\u00e3o cria um estado de disponibilidade. Passamos a identificar outras possibilidades que estavam anestesiadas ou camufladas por detr\u00e1s de nossos h\u00e1bitos. A pr\u00e1tica da CTR, por ocorrer em est\u00fadio, possibilita a repeti\u00e7\u00e3o, a insist\u00eancia e a persist\u00eancia e, por isso, uma descoberta lenta daqueles que s\u00e3o os limites das nossas rela\u00e7\u00f5es, das pot\u00eancias que nossas rela\u00e7\u00f5es podem gerar. Isso permite-nos testar corpos e presen\u00e7as que, de outra maneira, n\u00e3o seriam poss\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Jo\u00e3o agora dan\u00e7a entre as letras. Choca-se com elas. Fico no espa\u00e7o em branco. Sinto que vamos desaparecer. Ou esparramar-nos. Ou ainda invadir todo o espa\u00e7o de texto, virar texto, virar uma palavra gigante: colis\u00e3o.)<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Jo\u00e3o, me sinto em perigo, e a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa! Lembrei-me de que h\u00e1 outra express\u00e3o que voc\u00ea adora: &#8220;corpos em perigo&#8221;. O que voc\u00ea entende por &#8220;corpos em perigo&#8221;?<\/span><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Um corpo em perigo \u00e9 um corpo que n\u00e3o se acomoda e que se mant\u00e9m atento, e essa aten\u00e7\u00e3o permite desenvolver uma sensibilidade diante do presente, daquilo que de fato est\u00e1 a acontecer. Estar em perigo \u00e9 uma esp\u00e9cie de condi\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sine qua non<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de pensar o corpo na arte, como performer e como espectador. N\u00e3o concebo uma arte que n\u00e3o me ponha em perigo no sentido, que n\u00e3o questione minhas convic\u00e7\u00f5es e minhas conven\u00e7\u00f5es. \u00c9, assim, uma posi\u00e7\u00e3o art\u00edstica, c\u00edvica e \u00e9tica de n\u00e3o me deixar capturar por nenhum tipo de estrutura de poder (sobretudo aquelas que eu pr\u00f3prio carrego) que me impe\u00e7a de ser sens\u00edvel; essa parece-me ser uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para nos mantermos l\u00facidos e atentos e presentes. Ser sens\u00edvel. \u00c9 claro que isso \u00e9 dif\u00edcil fazer em ambientes que est\u00e3o domesticados ou protegidos como se fossem c\u00e1psulas higienizadas, mas nossa obriga\u00e7\u00e3o, como artistas e ativistas, \u00e9 de deslocar, mesmo que por mil\u00edmetros, nossas certezas. Pronto. E nesse sentido todo o trabalho que desenvolvo visa p\u00f4r-me em perigo, porque \u00e9 o perigo que me mant\u00e9m atento, presente e atual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse \u00e9 o maior desafio que temos: manter-nos atualizados. Essa atualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o que possibilita um reconhecimento do nosso entorno e do nosso &#8220;intorno&#8221; numa rela\u00e7\u00e3o de ir e voltar, de dar e receber e retribuir, que se processa no encontro entre n\u00f3s e n\u00f3s mesmos, o meio ambiente e os sistemas (ecol\u00f3gicos, sociais, pol\u00edticos) com que interagimos. O grande desafio \u00e9 como permanecemos atentos e como a avalanche de informa\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00f5es, de for\u00e7as que nos atravessam \u00e9 acolhida como mat\u00e9ria de trabalho, e n\u00e3o como formas de imposi\u00e7\u00e3o ou de rejei\u00e7\u00e3o. Sintetizando: como encontrar, na nossa presen\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o no mundo, uma qualidade que n\u00e3o seja <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">contra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, mas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">com<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de maneira que minhas posi\u00e7\u00f5es possam <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">com<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">-por com outras posi\u00e7\u00f5es em vez de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">contra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">-porem?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Voc\u00ea teve a experi\u00eancia de com-por com outra Fernanda, a antrop\u00f3loga Fernanda Eug\u00e9nio, com quem fundou em 2011 a plataforma AND_Lab. E um dos resultados da colis\u00e3o entre voc\u00eas foi o conceito &#8220;secalharidade&#8221; \u2013 a qualidade de acolher o &#8220;se calhar&#8230;&#8221; \u2013, que nomeia &#8220;o modo de operar e habitar paisagens comuns&#8221;, fonte de diversos projetos e textos*<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Sim. O conceito &#8220;secalharidade&#8221; \u2013 que tamb\u00e9m deu origem a uma confer\u00eancia perform\u00e1tica em Lisboa, no ano de 2012 (e que se desdobrou em uma enorme <a href=\"https:\/\/vimeo.com\/145412780\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">passeata p\u00fablica contra a austeridade e a crise em Portugal<\/a><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">) \u2013 propunha-se como pr\u00e1tica de conviv\u00eancia assente na substitui\u00e7\u00e3o do controlo e da manipula\u00e7\u00e3o por uma \u00e9tica do manuseamento suficiente, com o objetivo \u00faltimo de transferir o protagonismo do sujeito para o acontecimento. O conectivo AND (e) resultou do encontro entre duas inquieta\u00e7\u00f5es transversais \u2013 &#8220;como viver juntos?&#8221; e &#8220;como n\u00e3o ter uma ideia?&#8221; \u2013 e entre dois modos de pensar-fazer \u2013 a &#8220;minha&#8221; CTR e a &#8220;Etnografia como Performance Situada&#8221; da Fernanda Eug\u00e9nio. A for\u00e7a desse encontro assentou na descoberta rec\u00edproca de que ambos v\u00ednhamos, h\u00e1 anos e em nossas respectivas \u00e1reas, partilhando uma mesma paisagem de inquieta\u00e7\u00f5es acerca do problema da representa\u00e7\u00e3o e da interpreta\u00e7\u00e3o. Os conceitos-ferramenta que fui desenvolvendo com Fernanda, ao longo de nossa colabora\u00e7\u00e3o, est\u00e3o ainda muito presentes, tendo sido absorvidos como l\u00e9xico e vocabul\u00e1rio que enquadram a pr\u00e1tica da Composi\u00e7\u00e3o em Tempo Real atual, servindo como lugares de intermedia\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia \u00e0 escala-corpo (que sempre caracterizou a CTR) e \u00e0 escala infinitesimal das &#8220;pensa\u00e7\u00f5es&#8221; que desenvolvemos durante nossa colabora\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Neste momento, caminhamos sobre nossos nomes na abertura deste texto.)<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014\u00a0 E veio a pertinente reflex\u00e3o sobre a autoria.<\/span><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> A quest\u00e3o da autoria na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica passou a ter outro peso depois da experi\u00eancia com a Fernanda. Afinal, como posso assumir posi\u00e7\u00e3o de autor perante uma consequ\u00eancia que, na verdade, n\u00e3o me pertence \u2013 porque \u00e9 uma consequ\u00eancia de uma colis\u00e3o, de um encontro entre diferentes for\u00e7as e que n\u00e3o controlo? O modo com que estou a lidar com isso agora \u00e9 dizer que aquilo que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 a erradica\u00e7\u00e3o do autor mas a dilui\u00e7\u00e3o da sua influ\u00eancia no acontecimento. Aquilo que me apercebi \u00e9 que na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica a tradu\u00e7\u00e3o e a circunscri\u00e7\u00e3o de um afeto (uma inquieta\u00e7\u00e3o, um desassossego) \u00e9 sempre singular, \u00edntima e, de certa forma, intransmiss\u00edvel (no sentido que me ocupa de uma forma que n\u00e3o consigo nomear). Num processo de improvisa\u00e7\u00e3o (mais pr\u00f3ximo do que experimentamos na conviv\u00eancia quotidiana), \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel que diversos \u201cafetos\u201d e for\u00e7as ocupem um mesmo espa\u00e7o-tempo. Mas no processo de escrita (coreogr\u00e1fica ou outra) n\u00e3o posso esperar que o outro se afete com o que eu me afeto. O que posso \u00e9 encontrar modos de partilhar com o outro esse afeto (a CTR \u00e9 um deles) de forma que se torne um territ\u00f3rio comum, permitindo assim que um grupo de pessoas trabalhe junto sem que a figura do autor se transforme em figura de autoridade. Em arte penso ser poss\u00edvel conviver com essa contradi\u00e7\u00e3o entre tentativa de abdica\u00e7\u00e3o de controlo e assinatura de um trabalho. Esta \u00e9 uma formula\u00e7\u00e3o que fui desenvolvendo a partir de 2015 (momento em que retomei a pr\u00e1tica coreogr\u00e1fica depois de uma suspens\u00e3o de sete anos) com Carolina Campos e Daniel Pizamiglio, dois artistas-investigadores muito pr\u00f3ximos, com quem criei as pe\u00e7as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O que Fazer Daqui para Tr\u00e1s<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2015) e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c7a Va Exploser<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2020), que ser\u00e3o apresentadas no festival.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Essa combina\u00e7\u00e3o entre autoria e afeto partilhado me recordou o poeta Fernando Pessoa e seus heter\u00f4nimos. Uma pergunta mais \u00edntima, ent\u00e3o: como voc\u00ea se sente agora, Jo\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><b>Jo\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Inquieto. Ou desassossegado, como diria o Pessoa, com o problema da rela\u00e7\u00e3o que desenvolvo com o espectador: como posso, dentro daquilo que a arquitetura teatral me permite, colocar o espectador numa posi\u00e7\u00e3o de testemunha ou de c\u00famplice e n\u00e3o de voyeur. E, sobretudo, como dar ao espectador um espa\u00e7o-tempo menos impositivo e oferecer-lhe uma proposta que n\u00e3o o obrigue a uma interpreta\u00e7\u00e3o, mas que sugira rela\u00e7\u00f5es; uma proposta em que minha presen\u00e7a ou a presen\u00e7a dos performers com quem trabalho sirva, sobretudo, para o espectador imaginar, ativar seu imagin\u00e1rio. A arquitetura do teatro \u00e9 bastante castradora, pois as cadeiras j\u00e1 est\u00e3o \u00e0 espera de uma maneira pr\u00e9-definida de rela\u00e7\u00e3o e frui\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, condicionando muit\u00edssimo as possibilidades de di\u00e1logo entre a proposta e quem a observa e a recebe. Por isso, sempre que posso, tento jogar com a elasticidade e a plasticidade das expectativas do espectador. Em alguns trabalhos, funciono exatamente com a estrutura que me \u00e9 oferecida e olho para o teatro como se fosse um site-specific; noutros, preciso &#8220;destruir o teatro&#8221; e organizar o lugar do espectador. Inquieta\u00e7\u00e3o muito constante e presente. Gosto da ideia de considerar o espectador um visitante, que tenha a possibilidade de se deslocar (como acontece em um museu ou galeria) e ser respons\u00e1vel pelo modo com que utiliza seu tempo e sua aten\u00e7\u00e3o. Seria este meu sonho: que o espectador se dilua no meu corpo. E inversamente.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">(Colidimos, Jo\u00e3o e eu, com Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos que habitava Fernando Pessoa. E Caeiro nos diz: &#8220;O mist\u00e9rio das cousas? Sei l\u00e1 o que \u00e9 mist\u00e9rio!\/ O \u00fanico mist\u00e9rio \u00e9 haver quem pense no mist\u00e9rio.\/ Quem est\u00e1 ao sol e fecha os olhos,\/ Come\u00e7a a n\u00e3o saber o que \u00e9 o sol\/ E a pensar muitas cousas cheias de calor.\/ Mas abre os olhos e v\u00ea o sol,\/ E j\u00e1 n\u00e3o pode pensar em nada,\/ Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos\/ De todos os fil\u00f3sofos e de todos os poetas.&#8221;)<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<h6>*<span style=\"font-weight: 400;\">Eug\u00e9nio, F., &amp; Fiadeiro, J. (2016). AND_Lab \u2013 Centro de Investiga\u00e7\u00e3o Art\u00edstica e Criatividade Cient\u00edfica. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A.Dnz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, (1), p\u00e1g. 116-151. Dossi\u00ea com os textos: <\/span><b>Dos modos de re-exist\u00eancia: um outro mundo poss\u00edvel, a secalharidade (2011); O encontro \u00e9 uma ferida (2012) e O Jogo das Perguntas (2013)<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Em: https:\/\/adnz.uchile.cl\/index.php\/ADNZ\/article\/view\/38550<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedagogo em jogo por Jo\u00e3o Fiadeiro e Maria Fernanda Vomero Esta conversa, descrita abaixo, tem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6234,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[40],"tags":[164],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9355"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9355"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9355\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9355"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}