{"id":9351,"date":"2020-03-05T19:38:31","date_gmt":"2020-03-05T22:38:31","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=9351"},"modified":"2020-03-08T15:42:45","modified_gmt":"2020-03-08T18:42:45","slug":"entrevista-com-thiago-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entrevista-com-thiago-rodrigues\/","title":{"rendered":"Entrevista com Tiago Rodrigues"},"content":{"rendered":"<h6>Artista em foco<\/h6>\n<h5><i><span style=\"font-weight: 400;\">por Daniele Avila Small, Luciana Eastwood Romagnolli e S\u00edlvia Fernandes<\/span><\/i><\/h5>\n<p><img class=\"size-fusion-400 wp-image-6402 alignright\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868-400x418.jpg\" alt=\"Entrevista p\u00fablica com Tiago Rodrigues\" width=\"400\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868-200x209.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868-287x300.jpg 287w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868-400x418.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868-600x627.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/entrevista-publica-tiago-rodriges-e1580811650868.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p><b>Em 2008, voc\u00ea estreou <\/b><b><i>Yesterday&#8217;s Men<\/i><\/b><b>, com Rabih Mrou\u00e9 e Tony Chakar. Mrou\u00e9 foi artista em foco na MITsp em 2017, como voc\u00ea, em 2020. Como \u00e9 essa parceria entre voc\u00eas, no trabalho sobre a linguagem do teatro?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas das minhas maiores influ\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o autores ou autoras que vi e ainda hoje s\u00e3o refer\u00eancias para mim, mas sobretudo artistas com quem trabalhei diretamente. E, da mesma forma que o coletivo belga tg STAN foi minha escola de teatro, o encontro com o Rabih Mrou\u00e9 foi muito determinante no meu percurso. Eu cruzei com ele em 2006 porque um programador, Mark Deputter, achou que seria um encontro interessante. Eu j\u00e1 conhecia o trabalho do Rabih, ele ainda n\u00e3o conhecia o meu; viu alguns espet\u00e1culos meus e muito rapidamente decidimos trabalhar juntos. Por um lado, o Rabih tem um trabalho bem assente numa escrita que parte do documental para efabular sobre suas ra\u00edzes, o territ\u00f3rio onde cresceu e viveu, o seu territ\u00f3rio pol\u00edtico mas tamb\u00e9m afetivo, que \u00e9 o L\u00edbano e Beirute. E eu sempre me vi muito mais como um n\u00f4made, como algu\u00e9m que viaja entre espa\u00e7os, que quer a cada vez aprender sobre uma realidade nova. Ent\u00e3o, esse encontro foi muito f\u00e1cil, porque encaixamos. Eu era um visitante daquele mundo do Rabih Mrou\u00e9, e o pr\u00f3prio espet\u00e1culo dava nota disso: era a hist\u00f3ria de um homem chamado Tiago Rodrigues que viajava para Beirute e encontrava v\u00e1rios Tiagos Rodrigues. E acho que foi com Rabih Mrou\u00e9 que aprendi muitas das ferramentas que ainda tenho hoje, de como fazer entrar a realidade nos espet\u00e1culos, de como escrever a partir do real, mas oferecendo a liberdade de ficcionar, de manipular e de, atrav\u00e9s das ferramentas do teatro, interpelar a realidade.<\/span><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea colaborou v\u00e1rias vezes com o coletivo belga tg STAN <\/b><b>na cria\u00e7\u00e3o de <\/b><b><i>B\u00e9renice<\/i><\/b><b>, de Racine, em 2005, e mais recentemente em <\/b><b><i>Como Ela Morre<\/i><\/b><b> (2017), coprodu\u00e7\u00e3o entre a companhia e o Teatro Nacional D. Maria II. Como foi essa cria\u00e7\u00e3o conjunta?<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu cruzei com o tg STAN quando ainda era aluno do primeiro ano do Conservat\u00f3rio de Teatro em Lisboa, em 1997. Fiz uma oficina que o grupo conduziu em Lisboa, e foi como uma revolu\u00e7\u00e3o para mim, foi uma epifania de que era poss\u00edvel um ator ser um criador de corpo inteiro das pe\u00e7as, e n\u00e3o apenas um servo opulente. E, ent\u00e3o, alguma infelicidade que eu sentia como aluno da escola de teatro desapareceu muito rapidamente. E foi com esse encontro com o tg STAN que tive a certeza de que queria continuar a fazer teatro. Isso tamb\u00e9m implicou abandonar a escola de teatro, que nunca cheguei a acabar, e come\u00e7ar a trabalhar muito rapidamente. Logo meu segundo espet\u00e1culo como ator profissional foi com o tg STAN, fiz sete ou oito cria\u00e7\u00f5es com eles. A mais recente foi em 2017 [<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Como Ela Morre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">], e foi uma pe\u00e7a muito especial, porque pela primeira vez escrevi para os atores do grupo. E ent\u00e3o foi como o completar de um ciclo, poder 20 anos mais tarde voltar a trabalhar com eles, confrontados com aquilo que eu vinha experimentando como dramaturgo e encenador. Foi como devolver \u00e0 companhia esse impulso inicial que me deram.<\/span><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea j\u00e1 esteve no Brasil apresentando trabalhos como <\/b><b><i>Se Uma Janela se Abrisse<\/i><\/b><b>. Em 2013, no Festival Dois Pontos, o Mundo Perfeito apresentou <\/b><b><i>Mundo Maravilha<\/i><\/b><b>, pe\u00e7a criada em parceria com o coletivo carioca Foguetes Maravilha. De que maneira esse interc\u00e2mbio se deu, na materialidade da cria\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais uma vez um diretor de teatro de Lisboa, o programador Mark Deputter, foi fundamental aqui. Est\u00e1vamos a colaborar com o Mark no teatro que ele dirigia \u00e0 \u00e9poca, o Maria Matos, que foi durante muitos anos a grande casa de cria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea em Lisboa. E Mark falou que eu deveria conhecer um artista brasileiro, o Felipe Rocha, que certamente teremos muitas afinidades. E eu o conheci quando apresentei <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Yesterday&#8217;s Man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> no Rio de Janeiro, e desse encontro nasceu a vontade de um projeto em conjunto que imediatamente propus ao Teatro Maria Matos. E a ideia foi, em 2009, fazer um laborat\u00f3rio em que v\u00e1rios artistas brasileiros e portugueses se juntaram, e durante um ver\u00e3o criaram diversos espet\u00e1culos. Foi um momento de grande vitalidade, de grande imagina\u00e7\u00e3o, com toda a imperfei\u00e7\u00e3o do trabalho feito de uma forma repentista. Todas as semanas estre\u00e1vamos um espet\u00e1culo novo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Mundo Maravilha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> surge mais tarde, entre 2012 e 2013, da vontade de criar uma pe\u00e7a com mais tempo, que herda parte do nome da companhia Foguetes Maravilha e parte do nome da companhia que eu tinha \u00e0 \u00e9poca, Mundo Perfeito. E foi muito interessante, nos processos de colabora\u00e7\u00e3o com o Brasil, esse reconhecimento de uma experi\u00eancia diversa, mas com muitos pontos de contato, que n\u00e3o t\u00eam s\u00f3 a ver s\u00f3 com a l\u00edngua ou um patrim\u00f4nio cultural partilhado, mas tamb\u00e9m com o desejo da descoberta, a curiosidade, inclusive a ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Isso \u00e9 uma das coisas que eu reconhe\u00e7o sempre que estou no Brasil: estamos t\u00e3o longe e, ao mesmo tempo, temos tantas coisas nos nossos bolsos que nos permitem dizer que estamos perto. Basta tir\u00e1-las dos bolsos, p\u00f4-las sobre a mesa e compreendermos que estamos mesmo muito bem pr\u00f3ximos.<\/span><\/p>\n<p><b>No espet\u00e1culo <\/b><b><i>By Heart<\/i><\/b><b>, o tema da resist\u00eancia por meio da mem\u00f3ria \u00e9 essencial e se atualiza na rela\u00e7\u00e3o com os espectadores, que aprendem de cor um soneto de Shakespeare. Como foi o processo de cria\u00e7\u00e3o da dramaturgia, que partiu da perda de vis\u00e3o de sua av\u00f3 para desdobrar-se em v\u00e1rias narrativas liter\u00e1rias?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">By Heart<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> parte de um epis\u00f3dio pessoal. A minha av\u00f3 foi cozinheira toda a vida numa pequena aldeia de Tr\u00e1s-os-Montes, no nordeste de Portugal, e tinha muito pouca educa\u00e7\u00e3o formal, mas desde menina adorava ler e promoveu essa paix\u00e3o nos seus filhos e netos. Um dia ela disse-me que ia ficar cega, tinha 93 anos, e gostaria que eu escolhesse um livro para ela aprender de cor. Ela sempre aprendeu passagens de livros de cor, tinha esse h\u00e1bito, e queria poder ter um livro na sua cabe\u00e7a para ler quando os olhos j\u00e1 n\u00e3o funcionassem. Compreendi que o labirinto liter\u00e1rio que me levou \u00e0 escolha desse livro era cheio de hist\u00f3rias sobre a import\u00e2ncia de aprender de cor tamb\u00e9m como gesto de resist\u00eancia. N\u00e3o apenas contra totalitarismos pol\u00edticos, mas at\u00e9 biol\u00f3gicos \u2013 a morte. Mas tamb\u00e9m uma prova de amor pela literatura, pelo poder das palavras. E falava da minha profiss\u00e3o de ator, de teatro, da literatura, da escrita, da raz\u00e3o de criarmos obras de arte com palavras. Descobri que isso poderia ser uma pe\u00e7a de teatro quando me recordei da hist\u00f3ria de Nadezhda Mandelstam, mulher do poeta russo Osip Mandelstam. Quando ele foi preso pelo regime de St\u00e1lin e todos os seus livros e poemas foram confiscados, Nadezhda resolveu ensinar poemas. Criava grupos de dez pessoas e todos os dias ensinava um poema diferente de Osip Mandelstam para que ele n\u00e3o desaparecesse. E essa imagem, com todo o seu poder de resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m de amor, pareceu-me muito forte. E \u00e9 por isso que convido dez pessoas a subirem ao palco para aprenderem um texto de cor enquanto levo o p\u00fablico pela m\u00e3o nesse labirinto liter\u00e1rio e autobiogr\u00e1fico que \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">By Heart<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u200b.<\/span><\/p>\n<p><b>A indistin\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e realidade \u00e9 uma das caracter\u00edsticas de seu trabalho. Em<\/b><b><i> Sopro<\/i><\/b><b> voc\u00ea desloca para o centro do palco a ponto Cristina Vidal, ainda em atividade no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Como surgiu a ideia de colocar em cena esse protagonista invis\u00edvel do teatro? Como foi o processo de trabalho com a autobiografia e a hist\u00f3ria dessa profiss\u00e3o tradicional? <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais uma vez esse espet\u00e1culo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Sopro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, nasce de um epis\u00f3dio pessoal. Eu estava a trabalhar como artista convidado no Teatro Nacional Dona Maria II, em 2010. Enquanto ensaiava na sala pequena dedicada aos artistas emergentes, espreitava nos intervalos os ensaios da sala grande, com os atores do Teatro Nacional. Pela primeira vez vi Cristina Vidal trabalhar, e era a primeira vez que via uma ponto trabalhar. Para mim, era como ver um f\u00f3ssil vivo, e portanto fiquei fixado na Cristina Vidal, j\u00e1 n\u00e3o me lembro quem eram os atores. Eu s\u00f3 via a ponto, soprando o texto, virando as p\u00e1ginas, seguindo as cenas, e estava ali cristalizado esse agente da mem\u00f3ria dos atores, que ajuda em caso de urg\u00eancia, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de advogado do texto, um guardi\u00e3o do autor. Sendo uma profiss\u00e3o em vias de extin\u00e7\u00e3o, carrega em si essa hist\u00f3ria do teatro, esses s\u00e9culos de transmiss\u00e3o de sabedoria teatral. E parecia-me que a ponto que est\u00e1 ali, entre os bastidores e o palco, na escurid\u00e3o, mas sempre \u00e0 beira dos atores e da luz, era um bom representante de tudo aquilo que \u00e9 invis\u00edvel no teatro e daquilo que s\u00e3o as profiss\u00f5es hist\u00f3ricas, um patrim\u00f4nio que, numa sociedade cada vez mais flex\u00edvel, r\u00e1pida e super capitalista, desbaratamos, como se j\u00e1 n\u00e3o nos servissem. Mas h\u00e1 of\u00edcios que carregam em si um conhecimento que n\u00e3o podemos desperdi\u00e7ar, em nome da civiliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E, portanto, quando vi Cristina Vidal h\u00e1 dez anos, no pr\u00f3prio dia fui ter com ela e disse: \u201cGostaria de trabalhar contigo, mas que estivesses no palco e que eu escrevesse um texto para ti\u201d. Cristina riu-se e achou que n\u00e3o era poss\u00edvel. Na \u00e9poca, tentei falar com o teatro e arrancar com esse projeto, mas a dire\u00e7\u00e3o mudou e a coisa caiu esquecida. Fui convidado, cinco anos depois, a dirigir o teatro Nacional Dona Maria II, e ent\u00e3o tinha ao meu lado, como ponto, a Cristina Vidal. E disse a ela: \u201cOlha, um dia destes, antes de me despedirem, ainda vamos fazer aquele espet\u00e1culo e vou te conseguir convencer\u201d. Dois anos mais tarde, quando o Festival d&#8217;Avignon nos desafiou a criar um espet\u00e1culo com o Teatro Nacional, achei que era a oportunidade de falar dessa quest\u00e3o da mem\u00f3ria do teatro, mas tamb\u00e9m da mem\u00f3ria na nossa sociedade, e passei algum tempo a convencer a Cristina Vidal, que finalmente aceitou.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O espet\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 biogr\u00e1fico de uma forma fiel, mas se alimenta de muitas das hist\u00f3rias que a Cristina nos contou, a maioria passadas com ela, hist\u00f3rias dos bastidores do teatro. E forma uma figura ficcional que, paradoxalmente, \u00e9 interpretada por uma verdadeira ponto. Portanto, quando a Cristina diz, no in\u00edcio do espet\u00e1culo, &#8220;esta \u00e9 a primeira vez que estou em palco&#8221;, efetivamente \u00e9 o primeiro espet\u00e1culo em que ela est\u00e1 \u00e0 vista do p\u00fablico e \u00e9 protagonista. Mas muitas das hist\u00f3rias misturam realidade e fic\u00e7\u00e3o, e esse jogo \u00e9 alimentado pelo passado para sublinhar a for\u00e7a do presente.<\/span><\/p>\n<p><b>H\u00e1, nas duas pe\u00e7as que voc\u00ea traz \u00e0 MITsp, um tr\u00e2nsito entre a palavra escrita da literatura no papel, a palavra falada da tradi\u00e7\u00e3o oral e a palavra encarnada do teatro. Qual a for\u00e7a da palavra para voc\u00ea, em uma sociedade com tamanha desinforma\u00e7\u00e3o, p\u00f3s-verdade e <\/b><b><i>fake news<\/i><\/b><b> que alteram rumos pol\u00edticos?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O teatro, precisamente por ser essa assembleia humana, tem um poder de reflex\u00e3o pol\u00edtica muito particular. N\u00e3o penso que o espet\u00e1culo seja necessariamente um gesto de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas acredito que a assembleia do p\u00fablico e dos atores na sala, essa, sim, \u00e9 eminentemente pol\u00edtica e pode ser uma antec\u00e2mara para a a\u00e7\u00e3o. Quando se juntam pessoas numa sala, h\u00e1 uma cumplicidade e uma empatia que se criam, um fen\u00f4meno de transmiss\u00e3o. \u00c9 verdade que a tecnologia nos permite um acesso muito imediato \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o, e permite-nos um acesso desumanizado, que n\u00e3o \u00e9 acompanhado desse fen\u00f4meno da civiliza\u00e7\u00e3o que \u00e9 a transmiss\u00e3o. A transmiss\u00e3o implica n\u00e3o apenas aquilo que recordamos e oferecemos, mas tamb\u00e9m o que esquecemos e adulteramos. A\u00ed, a verdade n\u00e3o \u00e9 um valor absoluto, mas o encontro e a partilha s\u00e3o. Eu acredito que o teatro pode ser profundamente pol\u00edtico e ao mesmo tempo \u00edntimo de transmiss\u00e3o, de encontro, de partilha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em Portugal, h\u00e1 um exemplo da ditadura que eu inclusive usei num espet\u00e1culo, que j\u00e1 apresentei em S\u00e3o Paulo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tr\u00eas Dedos Abaixo do Joelho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, baseado nos relat\u00f3rios da censura ao teatro durante a ditadura em Portugal. Um censor proibiu a pe\u00e7a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Desejo sobre os Olmeiros<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Eugene O&#8217;Neill, no entanto o mesmo censor permitiu que o filme passasse no cinema. Ele escreveu no relat\u00f3rio que o filme, com Anthony Quinn e Sofia Loren, podia ter cenas er\u00f3ticas, podia ser imoral, mas era uma hist\u00f3ria que j\u00e1 tinha acontecido longe e que agora estava ali a ser projetada, n\u00e3o estava realmente a acontecer. Ao passo que, se atores portugueses apresentassem aquela pe\u00e7a em Lisboa \u00e0 frente de espectadores portugueses, aquilo estaria mesmo a acontecer e todas as pessoas na sala seriam c\u00famplices. Se estivermos na mesma sala, somos todos c\u00famplices, e acho que esta \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o da for\u00e7a pol\u00edtica, humana e \u00edntima do teatro. Por isso, agrade\u00e7o hoje, em democracia, a esse censor que tentou oprimir o teatro, mas ao faz\u00ea-lo me ofereceu um bel\u00edssimo elogio.<\/span><\/p>\n<p><b>A preserva\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a cultural europeia representada pelo soneto de Shakespeare em <\/b><b><i>By Heart<\/i><\/b><b> faz pensar sobre o genoc\u00eddio epistemol\u00f3gico das culturas ind\u00edgenas e africanas no processo de coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil. Como voc\u00ea pensa esse deslocamento de contexto do seu trabalho quando circula por outros pa\u00edses e culturas?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma das alegrias que fui encontrando no espet\u00e1culo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">By Heart <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 essa capacidade que uma pe\u00e7a criada num determinado contexto hist\u00f3rico, cultural e lingu\u00edstico pode ter noutros contextos. Quando apresentei <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">By Heart<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> no Canad\u00e1, percebi a for\u00e7a com que falava do processo de apagamento da cultura, mas tamb\u00e9m da exist\u00eancia dos ind\u00edgenas do territ\u00f3rio norte-americano; quando apresentei na Austr\u00e1lia, percebi como podia falar de uma maneira t\u00e3o forte sobre a opress\u00e3o da cultura abor\u00edgene. Percebi que, embora seja um espet\u00e1culo profundamente enraizado na heran\u00e7a cultural europeia, apela a princ\u00edpios humanistas e ideias globais que podem ressoar no olhar e na escuta de outros povos. E isso interessa-me muit\u00edssimo, sobretudo porque nos permite pensar que uma pe\u00e7a t\u00e3o relacionada com a cultura europeia, a partir do momento que olha a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica como uma ferramenta de resist\u00eancia ao totalitarismo, pode ser uma ferramenta tamb\u00e9m noutras culturas e noutros contextos. E portanto acho muito interessante como as tradi\u00e7\u00f5es culturais podem ser reinterpretadas e estar em di\u00e1logo, obviamente sem apropria\u00e7\u00f5es indevidas, mas que possam existir tradu\u00e7\u00f5es. A forma como um branco do sub\u00farbio de Lisboa pode ter sido profundamente inspirado por Nelson Mandela ou Patrice Lumumba fala da tradu\u00e7\u00e3o, fala da escuta, da curiosidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E \u00e9 curioso pensar como a tradu\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o aqui podem n\u00e3o s\u00f3 ser foneticamente e graficamente pr\u00f3ximas, mas tamb\u00e9m criar uma confus\u00e3o progressista e libert\u00e1ria. Acho sempre interessante quando vejo populistas nacionalistas falarem da tradi\u00e7\u00e3o como um valor fundamental quando s\u00e3o os primeiros a tentar apagar todas as tradi\u00e7\u00f5es diversas, e portanto percebemos como o populismo nacionalista n\u00e3o est\u00e1 interessado na tradi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 interessado \u00e9 no pensamento \u00fanico monoglota, intraduz\u00edvel, em vez de permitir, com a tradu\u00e7\u00e3o, um pensamento de liberdade, fraternidade e solidariedade de uma sociedade progressista onde haja lugar para todas, todos, todes.<\/span><\/p>\n<p><b>Ao longo da sua carreira, voc\u00ea esteve em diferentes fun\u00e7\u00f5es curatoriais. Como a pr\u00e1tica da curadoria interfere no seu pensamento como criador e vice-versa?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 tive fun\u00e7\u00f5es curatoriais, mas talvez a experi\u00eancia mais avassaladora seja a que tenho vivido nos \u00faltimos cinco anos e meio como diretor art\u00edstico do Teatro Nacional Dona Maria II. E tem sido um enorme privil\u00e9gio porque me permite, por um lado, continuar a fazer o meu trabalho art\u00edstico e, por outro, construir a programa\u00e7\u00e3o deste Teatro Nacional. Estou permanentemente em di\u00e1logo com outros artistas a ver novos trabalhos e a descobrir e a desafiar os pr\u00f3prios limites do meu olhar sobre o teatro, e portanto n\u00e3o tenho d\u00favidas de que essa abertura, pluralidade e diversidade, que \u00e9 exigida de um curador do Teatro Nacional, ilumina e p\u00f5e em causa o meu trabalho art\u00edstico e permite-me criar o pr\u00f3ximo espet\u00e1culo como se ainda n\u00e3o soubesse fazer teatro, e este \u00e9 um dos meus grandes prazeres: come\u00e7ar de cada vez com a certeza de que ainda n\u00e3o sei.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artista em foco por Daniele Avila Small, Luciana Eastwood Romagnolli e S\u00edlvia Fernandes Em 2008, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6402,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[40],"tags":[165],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9351"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9351\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6402"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9351"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=9351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}