{"id":10319,"date":"2020-05-25T16:14:47","date_gmt":"2020-05-25T19:14:47","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=10319"},"modified":"2020-06-03T18:07:12","modified_gmt":"2020-06-03T21:07:12","slug":"teatro-ensino-e-aprendizagem-por-renan-ji","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/teatro-ensino-e-aprendizagem-por-renan-ji\/","title":{"rendered":"Teatro, ensino e aprendizagem  <h6>por Renan Ji<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Teatro, ensino e aprendizagem<\/h3>\n<h6>por Renan Ji<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9846\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1024x717.jpg\" alt=\"By Heart @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Artista em foco da edi\u00e7\u00e3o de 2020 da MITsp, o dramaturgo portugu\u00eas Tiago Rodrigues apresentaria dois espet\u00e1culos na mostra: <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart\/\"><i>By Heart<\/i><\/a> (2013) e <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/sopro\/\"><i>Sopro<\/i><\/a> (2017). Devido a san\u00e7\u00f5es decorrentes da expans\u00e3o da Covid-19, apenas o primeiro espet\u00e1culo chegou a ser apresentado, n\u00e3o permitindo a vis\u00e3o do trabalho do artista pensada originalmente pela curadoria do festival. No entanto, a estreia de <i>By Heart<\/i> reverberou muitas ideias por entre as diversas inst\u00e2ncias de debate possibilitadas pela MITsp \u2013 entrevista p\u00fablica com o artista, di\u00e1logo transversal e pr\u00e1tica da cr\u00edtica \u2013, trazendo \u00e0 tona elementos latentes na proposta c\u00eanica deste espet\u00e1culo. Quando confrontado com no\u00e7\u00f5es mais ou menos correntes no p\u00fablico cativo de um festival como a MITsp, <i>By Heart<\/i> foi analisado e questionado \u00e0 luz do pensamento feminista, negro e decolonial, o que promoveu tens\u00f5es e choques com a sua dramaturgia.<\/p>\n<p>Dentro desse contexto, gostaria de pin\u00e7ar um elemento espec\u00edfico de <i>By Heart<\/i>, que se d\u00e1 a partir da figura do encenador e dramaturgo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entrevista-com-thiago-rodrigues\/\">Tiago Rodrigues<\/a> como catalisador da cena. Ele se coloca como l\u00edder ou condutor de uma experi\u00eancia teatral com um objetivo definido: a memoriza\u00e7\u00e3o de um soneto pela plateia. A partir desse dado, o espectador pode reconhecer concretamente se alcan\u00e7ou um determinado resultado nessa intera\u00e7\u00e3o, o que implicaria dizer, no senso comum, que aprendeu alguma coisa nessa experi\u00eancia. Alguns desdobramentos interessantes surgem dessa possibilidade: h\u00e1 algo a aprender no teatro? O teatro pode estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica com o seu espectador? Al\u00e9m de <i>By Heart<\/i>, veremos que trabalhos como <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/orlando\/\"><i>ORLANDO<\/i><\/a>, <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\"><i>Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e<\/i><\/a> e <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/stabat-mater\/\"><i>Stabat Mater<\/i><\/a> poder\u00e3o ser exemplos de situa\u00e7\u00f5es em que podemos ensinar e aprender no teatro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Decorar ou recordar<\/b><\/p>\n<p>Um dos apelos de <i>By Heart<\/i> \u00e9 a brincadeira de decorar. Tiago Rodrigues convida dez pessoas ao palco e prop\u00f5e a elas o desafio de decorar o soneto <i>30<\/i> de Shakespeare, a ser recitado para a plateia no fim do espet\u00e1culo. Os acertos e erros de cada participante imprimem uma fei\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a cada apresenta\u00e7\u00e3o, sendo muito bem conduzidos cenicamente por Rodrigues, sempre com uma dose inequ\u00edvoca de humor. Dado que a pr\u00f3pria plateia acaba tentando reproduzir mentalmente a din\u00e2mica de memoriza\u00e7\u00e3o do soneto, forma-se um c\u00edrculo performativo entre ator e p\u00fablico, esp\u00e9cie de elo comunit\u00e1rio que une todas as pessoas do teatro num mesmo ritual c\u00eanico.<\/p>\n<p>Dado que encena essa pe\u00e7a desde 2013, podemos presumir a excel\u00eancia t\u00e9cnica de Rodrigues: ele \u00e9 r\u00e1pido, cada piada tem um timing preciso. Contudo, me parece que h\u00e1 algo previsto ou programado num processo que apenas aparenta ser espont\u00e2neo. O performer de <i>By Heart<\/i> sempre parece ter uma carta na manga, um repert\u00f3rio de procedimentos e ganchos ret\u00f3ricos que garantem um <i>modus operandi<\/i> da cena. \u00c9 como se, a cada apresenta\u00e7\u00e3o, um mesmo efeito fosse alcan\u00e7ado por vias ligeiramente diferentes, com diferentes chaves acionadas, tendo, apesar da ligeira varia\u00e7\u00e3o, sempre o mesmo resultado.<\/p>\n<p>Como vimos pelos textos de <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/entre-o-concerto-e-o-desconcerto-por-lais-machado\/\">La\u00eds Machado<\/a> e <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart-abracou-beleza-e-o-risco-da-memoria-por-rodrigo-nascimento\/\">Rodrigo Nascimento<\/a> na Pr\u00e1tica da Cr\u00edtica, foi poss\u00edvel ver na MITsp como esse mecanismo c\u00eanico pode emperrar diante de certas interven\u00e7\u00f5es do p\u00fablico. A impress\u00e3o que tenho \u00e9 a de que a pergunta de uma espectadora \u2013 sobre a aus\u00eancia de autoras mulheres no c\u00e2none abordado por Tiago Rodrigues \u2013 desmontou um roteiro pr\u00e9vio, como se uma esp\u00e9cie de plano de aula de literatura n\u00e3o pudesse mais ser seguido \u00e0 risca. Isso me motivou a repensar a dramaturgia do espet\u00e1culo, recuperando a integridade de sua proposta e seus resultados aplicados a mim como espectador.<\/p>\n<p>O procedimento central de <i>By Heart<\/i> \u00e9 uma estrat\u00e9gia de memoriza\u00e7\u00e3o que frequentemente nos reduz a balbuciar s\u00edlabas e versos, quase um b\u00ea-\u00e1-b\u00e1, buscando sistematizar a enuncia\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de um verso qualquer \u2013 que poderia ser de Shakespeare ou qualquer outro escritor. Rodrigues utiliza t\u00e9cnicas de mem\u00f3ria que se baseiam em est\u00edmulos visuais performados por ele, criando gatilhos mentais que auxiliam na recita\u00e7\u00e3o do soneto. Em vez de estabelecer um engajamento afetivo ou intelectual junto ao soneto <i>30<\/i>, criando uma motiva\u00e7\u00e3o interna ou um jogo que produza a assimila\u00e7\u00e3o sonora, tem\u00e1tica e interpretativa do poema, desenvolvemos uma intelig\u00eancia de certa forma behaviorista, confiando no automatismo das indica\u00e7\u00f5es de Rodrigues para obter resultados r\u00e1pidos e condicionados. Quem n\u00e3o acompanha a li\u00e7\u00e3o fica como o senhor no dia em que assisti ao espet\u00e1culo, encarregado de memorizar logo o \u00faltimo verso do soneto, gaguejando sob a press\u00e3o de declamar o final do exerc\u00edcio. Acho que eu tamb\u00e9m seria um mau aluno nessa proposta.<\/p>\n<p>Se estiv\u00e9ssemos numa aula, Tiago Rodrigues poderia ser aquele professor que encanta gera\u00e7\u00f5es de alunos, produz piadas inesquec\u00edveis, cantarola os afluentes do Amazonas e faz rap com os elementos da tabela peri\u00f3dica. A quem n\u00e3o acompanha a aula, resta fazer conta com os dedos, deixar cola na carteira, memorizar f\u00f3rmulas que n\u00e3o entende e, frequentemente, tirar nota baixa. Decorar Shakespeare, nesse sentido, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da decoreba do que da recorda\u00e7\u00e3o; estamos mais pr\u00f3ximos dos bancos escolares tradicionais, e cada vez mais afastados da av\u00f3 de Rodrigues, C\u00e2ndida, leitora voraz que, na imin\u00eancia de perder a vis\u00e3o, desejava guardar um livro inteiro na mem\u00f3ria. Se fosse professor, Tiago Rodrigues ganharia muitos alunos com seu carisma, piadas prontas e aparente efici\u00eancia do seu m\u00e9todo. Mas qual seria o tipo de educa\u00e7\u00e3o que caracterizaria sua did\u00e1tica? Que tipo de intelig\u00eancia seria promovido pelas suas aulas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Teatro e sala de aula<\/b><\/p>\n<p>Comparar <i>By Heart<\/i> a uma aula pode ser um tanto redutor para a experi\u00eancia proporcionada pela pe\u00e7a. No entanto, \u00e9 fato que o artista deseja resgatar uma ideia de mem\u00f3ria utilizando uma antiga t\u00e9cnica escolar de decorar textos, da mesma maneira que um professor de f\u00edsica ensina a calcular o movimento de um objeto a partir de uma f\u00f3rmula matem\u00e1tica pr\u00e9via. Cabe perguntar: o que aprendemos da literatura ou da f\u00edsica em procedimentos como esses? Independentemente de se tratar de uma proposta teatral ou de um m\u00e9todo pedag\u00f3gico, questionar um procedimento \u2013 seu resultado e efic\u00e1cia \u2013 significa perguntar-se acerca do tipo de rela\u00e7\u00e3o intelectual que se estabeleceu naquela experi\u00eancia; se ambos os polos da rela\u00e7\u00e3o (artista e espectador; professor e aluno) se encontram numa hierarquia de opostos ou se s\u00e3o correspondentes complementares; ou, ainda, se a abordagem escolhida se coaduna ao desenvolvimento do tema proposto. Salas de teatro e salas de aula s\u00e3o espa\u00e7os em que pensamento e performance est\u00e3o profundamente implicados. Nelas h\u00e1 atua\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo, confronto de ideias e produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, assim como afetos e afeta\u00e7\u00f5es de toda a sorte, que muitas vezes defletem as inten\u00e7\u00f5es originais, sejam as de um dramaturgo, sejam as de um professor. Nesse sentido, a proposta que Tiago Rodrigues apresenta ao espectador pode ser analisada como uma atividade intelectual dirigida a outrem por sua persona c\u00eanica. Ela pode ser vista como ocasi\u00e3o para uma experi\u00eancia de aprendizagem e conhecimento, na qual determinadas faculdades mentais s\u00e3o convocadas a lidar com problemas ou quest\u00f5es \u2013 que podem ser abordados de forma mais ou menos pedag\u00f3gica ou racional.<\/p>\n<p>Trata-se de enxergar um espet\u00e1culo teatral a partir da expectativa de \u201cuma aventura intelectual\u201d, como diria Jacques Ranci\u00e8re em <i>O Mestre Ignorante: Cinco Li\u00e7\u00f5es sobre a Emancipa\u00e7\u00e3o Intelectual<\/i> (ed. Aut\u00eantica, 2018). Diante de uma pe\u00e7a teatral ou \u201cum problema da atualidade\u201d (ou qualquer outra express\u00e3o dos curr\u00edculos escolares que o valha), estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o que demanda o exerc\u00edcio intelectual e o di\u00e1logo com alteridades, de forma a estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre diferentes sistemas de linguagem. Ou seja, o fen\u00f4meno teatral visto como experi\u00eancia que exige a capacidade de lidar com situa\u00e7\u00f5es opacas \u00e0 nossa racionalidade, que v\u00e3o contrapor o desafio de decodificar linguagens e, talvez, solucionar impasses.<\/p>\n<p>Tal vis\u00e3o n\u00e3o deve ser confundida com uma pretens\u00e3o intelectualista, t\u00edpica de uma cr\u00edtica teatral concebida como campo de especializa\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o dos saberes, a partir dos quais se regulariam social e epistemologicamente os discursos sobre o teatro. Ao contr\u00e1rio, busco uma formula\u00e7\u00e3o bem concreta dessa rela\u00e7\u00e3o tensa entre espectador e obra, uma que possa enfocar a din\u00e2mica complexa de pensamento e a\u00e7\u00e3o que se desenrola nesse processo. Como diria Daniele Avila Small, no livro intitulado <i>O Cr\u00edtico Ignorante<\/i> &#8211;<i> Uma Negocia\u00e7\u00e3o Te\u00f3rica Meio Complicada<\/i> (ed. 7Letras, 2015):<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUm trabalho teatral, por exemplo, poderia ser um todo, um c\u00edrculo, que qualquer espectador pudesse ver, descrever, comparar e questionar. A compara\u00e7\u00e3o pode ser feita com qualquer coisa feita pelo homem. Basta que se reconhe\u00e7a a intelig\u00eancia criadora de um espet\u00e1culo teatral como da mesma natureza de outra que construiu uma casa, pintou um quadro, cozinhou uma comida ou criou um outro espet\u00e1culo teatral\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Sugerindo a copertin\u00eancia entre um m\u00e9todo pedag\u00f3gico revolucion\u00e1rio do s\u00e9culo XIX e a cr\u00edtica teatral, Daniele Avila Small em seu livro nos mostra como \u00e9 poss\u00edvel ver o teatro como uma experi\u00eancia de exerc\u00edcio intelectual que possibilita conhecer algo ou aprender algo da realidade. E n\u00e3o se trata de uma abordagem que faculta apenas ao cr\u00edtico de teatro uma rela\u00e7\u00e3o intelectual com a cena: a cr\u00edtica seria apenas uma dentre as v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es de linguagem acess\u00edveis a qualquer espectador que esteja disposto a se aventurar intelectualmente diante de uma pe\u00e7a. Como diria Small, \u201cUm espectador de teatro n\u00e3o tem o que \u2018aprender\u2019 com uma pe\u00e7a de teatro, mas tem o que \u2018apreender\u2019\u201d \u2013 e entre essas duas opera\u00e7\u00f5es (a primeira delas geralmente atribu\u00edda ao estudante) est\u00e3o em jogo as mesmas ferramentas da intelig\u00eancia, al\u00e9m da disposi\u00e7\u00e3o maior ou menor de se abrir ao que o outro tem a dizer ou mostrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ser espectador-aluno<\/b><\/p>\n<p>Nessa perspectiva de um \u201cteatro-aula\u201d, gostaria de estabelecer a postura de algu\u00e9m que tem algo a aprender ou a conhecer quando se defronta com um trabalho teatral. Nessa perspectiva, um professor ou artista da cena me desafiariam a pensar a partir da singularidade de seu sistema de linguagem. Com a honestidade (\u00e0s vezes de tro\u00e7a, mas n\u00e3o seria o meu caso) que vemos frequentemente nos estudantes, tentarei dizer se naquela proposta intelectual eu \u201caprendi\u201d algo ou n\u00e3o, ou seja, que rela\u00e7\u00e3o intelectual me foi poss\u00edvel estabelecer com a pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Por exemplo, acho que n\u00e3o seria o melhor dos alunos na aula-pe\u00e7a de Tiago Rodrigues, pois teria dificuldade em decorar versos e entender a leitura em voz alta de certos textos. Na verdade, identifico nessa estrat\u00e9gia c\u00eanica um descompasso com o contexto afetivo e intelectual que seria o seu mote, a saber, a import\u00e2ncia vital da literatura como resist\u00eancia a contextos pol\u00edticos de exce\u00e7\u00e3o. A linguagem teatral utilizada para tratar do tema de <i>By Heart<\/i> n\u00e3o ensejou em mim a disposi\u00e7\u00e3o intelectual para lidar com a mem\u00f3ria como sobreviv\u00eancia cultural e resist\u00eancia humana face \u00e0 adversidade.<\/p>\n<p>As perguntas impertinentes dos alunos chatos \u00e0s vezes podem abrir fossos no edif\u00edcio te\u00f3rico constru\u00eddo pelos professores: por que decorar um verso ou um soneto de Shakespeare me torna mais pr\u00f3ximo de Homero e da literatura? Por que decorar algumas palavras e as ingerir impressas num papel comest\u00edvel \u2013 uma das etapas da din\u00e2mica de <i>By Heart<\/i> \u2013 me tornaria um leitor melhor? Por que o professor n\u00e3o cita autoras mulheres? Perguntas como essas muitas vezes podem mostrar como alunos podem contrapor impress\u00f5es (ou at\u00e9 mesmo li\u00e7\u00f5es) aos seus professores, que, se quiserem ouvir, poder\u00e3o perceber como determinadas propostas talvez n\u00e3o atinjam exatamente o objetivo pedag\u00f3gico que intentam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Liberdade e hierarquia<\/b><\/p>\n<p>Quando indagado por uma participante sobre a aus\u00eancia de mulheres no c\u00e2none liter\u00e1rio que aborda na sua pe\u00e7a, Tiago Rodrigues se desembara\u00e7ou com acidez: \u201cEste \u00e9 o meu espet\u00e1culo\u201d. Essa tirada \u00e9 previs\u00edvel no estilo c\u00f4mico de sua performance na pe\u00e7a, mas talvez essa sa\u00edda tenha mostrado que a liberdade e a proximidade entre aluno e professor \u00e9 somente aparente em <i>By Heart<\/i>. O professor-ator simula uma cumplicidade com o aluno, mas, quando este ultrapassa o limite subjacente, a dist\u00e2ncia hier\u00e1rquica entre os sujeitos da cena se revela.<\/p>\n<p>Alguns casos, at\u00e9 mesmo as propostas perform\u00e1ticas mais horizontais e livres em rela\u00e7\u00e3o ao espectador, mostram que nem tudo \u00e9 o que parece. Um professor pode dizer que d\u00e1 total liberdade de express\u00e3o aos seus alunos, mas basta que um se sinta mais \u00e0 vontade para que se perceba que a coisa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o livre assim. Em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/orlando\/\"><i>ORLANDO<\/i><\/a>, por exemplo, um dos trabalhos que compunham a mostra internacional de espet\u00e1culos da MITSp, observamos uma din\u00e2mica que parece incentivar a livre intera\u00e7\u00e3o com a instala\u00e7\u00e3o circular que lhe d\u00e1 suporte. Mas espectadores-alunos desavisados sempre surgem para mostrar que alguns limites n\u00e3o devem ser ultrapassados.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9666\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><i>ORLANDO<\/i> fala de novos modos de exist\u00eancia, cujo car\u00e1ter vision\u00e1rio aponta para uma era p\u00f3s-bin\u00e1ria que supera os dualismos de ra\u00e7a, sexualidade, g\u00eanero e classe. Para tal, a performance investe no aspecto imersivo e meditativo da experi\u00eancia, buscando uma vibra\u00e7\u00e3o espec\u00edfica a partir da m\u00fasica experimental e dos corpos em movimenta\u00e7\u00e3o lenta e dilatada no tempo. A diretora Julie Beauvais nos cumprimenta no in\u00edcio da apresenta\u00e7\u00e3o e afirma que \u00e9 permitido entrar e sair do espa\u00e7o teatral, deambular pelos sete tel\u00f5es em c\u00edrculo, apreciar as proje\u00e7\u00f5es em conjunto ou isoladamente, deitar e\/ou sentar no ch\u00e3o com almofadas. Beauvais parece indicar que a experi\u00eancia de <i>ORLANDO<\/i> se d\u00e1 de acordo com o ritmo de imers\u00e3o de cada espectador.<\/p>\n<p>Cada um deve ajustar sua sensorialidade na tentativa de contemplar um outro regime de vida, uma nova possibilidade de ver e sentir o mundo. A proposta de inaugurar uma nova era existencial pressup\u00f5e, logo, uma \u00e9tica de espectador mais distensa e aberta. Entretanto, andando por fora do c\u00edrculo de tel\u00f5es (talvez em ritmo um pouco r\u00e1pido demais para a m\u00fasica incidental da pe\u00e7a), passei algumas vezes no espa\u00e7o entre os projetores e tel\u00f5es de modo que minha sombra quebrava subitamente a proje\u00e7\u00e3o. Percebi ent\u00e3o que talvez estivesse rompendo com um protocolo do espet\u00e1culo, pois esse tipo de interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o me parecia condizente com o car\u00e1ter contemplativo das imagens. Mas isso n\u00e3o era algo \u00f3bvio, pelo visto: percebendo as nossas sombras como intera\u00e7\u00e3o produtiva da pe\u00e7a, uma participante passou a manipular a sombra de suas m\u00e3os no projetor, interferindo criativamente no v\u00eddeo dos performeres, mas foi logo coibida pela produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, espectadores-alunos mais desafiadores ou distra\u00eddos podem mostrar que devemos inferir (devemos?) determinados protocolos numa dada experi\u00eancia, ou seja, regras que n\u00e3o se manifestam na linguagem, mas est\u00e3o ativas na atividade proposta. Num trabalho teatral, para al\u00e9m de mandamentos \u00f3bvios da conduta social, em que medida o impl\u00edcito atua como fator de perturba\u00e7\u00e3o de uma performance ou como gerador de novas configura\u00e7\u00f5es c\u00eanicas? Com esses epis\u00f3dios, n\u00e3o busco transformar as pe\u00e7as mencionadas em exemplos de autoritarismo. Por\u00e9m, a irrup\u00e7\u00e3o de certas regras ou protocolos latentes muitas vezes mostra que determinadas propostas teatrais apenas aparentam uma rela\u00e7\u00e3o mais horizontal com o espectador, quando na verdade o espet\u00e1culo n\u00e3o lida com eventuais brechas \u2013 criadas por participantes mais (ou menos) engajados na intera\u00e7\u00e3o teatral, ou que simplesmente levaram ao p\u00e9 da letra aquilo que conclu\u00edram como orienta\u00e7\u00e3o geral da pe\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Aula tradicional<\/b><\/p>\n<p>Talvez a solu\u00e7\u00e3o seja ter regras evidentes. Todo professor sabe que a liberdade e o humor que permite aos seus alunos t\u00eam um limite, e este deve ser claro na medida em que \u00e9 sempre testado. Um trabalho teatral que possui regras muito diretas \u2013 mas que atuam como balizas seguras de uma rela\u00e7\u00e3o pedagogicamente bem-sucedida entre espet\u00e1culo e espectador \u2013 \u00e9 <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\"><i>Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e<\/i><\/a>. Trata-se de uma pe\u00e7a com par\u00e2metros claros: exige-se do espectador-aluno bom comportamento, sil\u00eancio, aten\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 hierarquia.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-6021\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg\" alt=\"Maison Mere \u00a9\ufe0fJean Luc Beaujault\" width=\"1024\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><i>Casa M\u00e3e<\/i>, performance de Phia M\u00e9nard e Jean-Luc Beaujault, com atua\u00e7\u00e3o e cenografia de M\u00e9nard, exige de n\u00f3s a postura de um obediente aprendiz de artes\u00e3o, que deve anotar e acompanhar minuciosamente o trabalho manual do seu mestre. A mestra, no caso, constr\u00f3i uma r\u00e9plica do Partenon grego, que apresenta grandes dimens\u00f5es em compara\u00e7\u00e3o com os espa\u00e7os teatrais convencionais. O grande artefato \u00e9 erguido com ajuda de estacas e fita adesiva, ao longo de etapas meticulosamente seguidas por Phia M\u00e9nard, que sozinha vai compondo a estrutura e guiando o olhar do espectador passo a passo.<\/p>\n<p>Aulas expositivas geralmente s\u00e3o mal vistas ou criticadas por uma pedagogia que promove a autonomia e a participa\u00e7\u00e3o por parte dos alunos. De fato, \u00e0 primeira vista, <i>Casa M\u00e3e<\/i> pode incomodar o espectador mais inquieto por se assemelhar a um mero exerc\u00edcio autocentrado. Por\u00e9m, aos poucos, a movimenta\u00e7\u00e3o resoluta e confiante de M\u00e9nard, assim como seu projeto \u201carquitet\u00f4nico\u201d levado a cabo de maneira l\u00fadica e rigorosa, captaram a minha aten\u00e7\u00e3o e de certa forma resgataram o fasc\u00ednio que professores despertam em suas audi\u00eancias nos momentos de maior inspira\u00e7\u00e3o. Uma dimens\u00e3o primitiva do of\u00edcio de professor parece ter sido recuperada: a capacidade de despertar a concentra\u00e7\u00e3o dos pupilos, que confiam no caminho intelectual e na lideran\u00e7a de sua mestra, remetendo ao gosto de observar um saber-fazer que traz de volta o trabalho artesanal de outros tempos e espa\u00e7os da hist\u00f3ria cultural.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas de <i>Casa M\u00e3e<\/i> s\u00e3o in\u00fameras e se encontram entretecidas no figurino, nos s\u00edmbolos que remetem \u00e0 Gr\u00e9cia antiga e atual e no desfecho sacrificial que demarca a dissolu\u00e7\u00e3o de um projeto que prometia reerguer a Europa das cinzas do p\u00f3s-guerra. No entanto, retenho a concretude da minha rela\u00e7\u00e3o estabelecida como espectador-aluno: como aprendizes encantados pelo professor, acompanhamos a cria\u00e7\u00e3o de um objeto e a partilha de um projeto de conhecimento. Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel tamanha dedica\u00e7\u00e3o intelectual nos dias de hoje, mas quando o foco, o interesse e a disposi\u00e7\u00e3o cooperam, grandes realiza\u00e7\u00f5es podem acontecer. E n\u00e3o importa se elas ser\u00e3o esquecidas, ou que o projeto seja demolido pelas tormentas sociais, como parece sugerir o fim da pe\u00e7a. Uma das gra\u00e7as da aventura intelectual e do trabalho manual \u00e9 come\u00e7ar do zero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fontes e pesquisa<\/b><\/p>\n<p>Assisti a <i>Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e<\/i> bem alheio ao contexto de pesquisa da performance, concebida para a Documenta Kassel de 2017. No <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6qQo1AcmnT0&amp;feature=youtu.be\">pensamento-em-processo do espet\u00e1culo, que se deu ap\u00f3s sua estreia na MITSp<\/a>, muito foi esclarecido acerca das rela\u00e7\u00f5es entre a Atenas arcaica e a contempor\u00e2nea, o simbolismo dos materiais utilizados em cena e o figurino de uma esp\u00e9cie de deusa Atena punk. Esse fato me remete a mais uma possibilidade de postura pedag\u00f3gica poss\u00edvel num trabalho teatral: o espet\u00e1culo que abre frontalmente ao p\u00fablico suas frentes de pesquisa, subvertendo a vis\u00e3o tradicional da cena como produto \u00faltimo do trabalho art\u00edstico.<\/p>\n<div class=\"video-shortcode\"><iframe title=\"MITsp 2020 | Pensamento-em-Processo: &quot;Contos Imorais - Parte 1: Casa Ma\u0303e&quot;\" width=\"1180\" height=\"664\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6qQo1AcmnT0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como um professor que cria projetos e disp\u00f5e as diversas camadas de abordagem de um problema complexo, a artista Janaina Leite apresentou seu mais recente trabalho na MITBr e fez a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=X4iPkY9C2nc\">desmontagem do espet\u00e1culo<\/a> como pesquisadora em foco deste ano. Diferentemente de <i>Casa M\u00e3e<\/i>, <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/stabat-mater\/\"><i>Stabat Mater<\/i><\/a> \u00e9 uma pe\u00e7a-processo que exibe deliberadamente um mosaico de quest\u00f5es te\u00f3ricas, sociais e religiosas acerca do feminino, costuradas sem a inten\u00e7\u00e3o de fechar uma conclus\u00e3o ou um panorama coeso de representa\u00e7\u00f5es da mulher. Janaina Leite parte de viv\u00eancias traum\u00e1ticas de sua biografia e busca reencen\u00e1-las agregando outras camadas de sua pesquisa acerca da imagem da Virgem Maria e da misoginia da ind\u00fastria pornogr\u00e1fica.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10230\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49650764183_ba9d35beb4_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>A dramaturgia de <i>Stabat Mater<\/i> avan\u00e7a e recua constantemente na tentativa de reencenar o trauma como forma de o indiv\u00edduo se reapropriar da narrativa em que foi subjulgado, para ent\u00e3o se tornar sujeito de sua hist\u00f3ria. Janaina Leite foi v\u00edtima de estupro na adolesc\u00eancia e, no processo de elabora\u00e7\u00e3o do trabalho, questiona o papel de sua m\u00e3e e da cultura patriarcal tanto nas marcas ps\u00edquicas provocadas por esse evento, quanto na possibilidade de cicatriz\u00e1-las por meio da arte. O trabalho agrega desde as representa\u00e7\u00f5es mais arcaicas do feminino at\u00e9 as mais aviltantes da pornografia contempor\u00e2nea para refletir como o corpo da mulher \u00e9 atravessado por vetores diversos, frequentemente sob o espectro da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><i>Stabat Mater<\/i> \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o \u201cbiogr\u00e1fico-te\u00f3rico-teatral\u201d que desbrava imagin\u00e1rios e pr\u00e1ticas sociais, buscando plasm\u00e1-los em determinados rituais c\u00eanicos que n\u00e3o necessariamente exorcizam tabus, mas somente apontam para novas complexidades. O espectador oscila entre testemunhar um rito terap\u00eautico e observar os limiares \u00e9ticos e corporais de uma performance, na medida em que a pr\u00f3pria m\u00e3e da artista est\u00e1 em cena, junto a um ator porn\u00f4 que supostamente protagonizar\u00e1 uma cena de sexo expl\u00edcito com Janaina. Os fracassos e os limites da representa\u00e7\u00e3o s\u00e3o constantemente postos \u00e0 prova, e o espet\u00e1culo se desnuda ao trazer para o pr\u00f3prio palco os impasses, fracassos e conceitos te\u00f3ricos que movem o trabalho art\u00edstico.<\/p>\n<p>O tra\u00e7o de incompletude e diversidade de temas, decorrente de um pensamento processual que constitui a pr\u00f3pria mat\u00e9ria do espet\u00e1culo, se radicaliza na <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=X4iPkY9C2nc\">desmontagem<\/a> realizada ap\u00f3s as apresenta\u00e7\u00f5es de <i>Stabat Mater<\/i> na MITBr. Assumindo mais plenamente a condi\u00e7\u00e3o de artista-pesquisadora, j\u00e1 dentro da programa\u00e7\u00e3o dos Olhares Cr\u00edticos, Janaina Leite reuniu suas anota\u00e7\u00f5es, buscando atar determinadas pontas, mas, principalmente, relatando as interroga\u00e7\u00f5es que pairam sobre a pe\u00e7a, reconhecendo os pontos em aberto e os horizontes a serem descortinados pela pesquisa art\u00edstica. Mostrou como <i>Stabat Mate<\/i>r \u00e9 produto de uma equipe numerosa de mulheres e como esse trabalho se debru\u00e7a n\u00e3o apenas sobre as suas viv\u00eancias pessoais, mas fala de representa\u00e7\u00f5es constitutivas de todos os corpos femininos.<\/p>\n<div class=\"video-shortcode\"><iframe title=\"MITsp 2020 | Desmontagem de &quot;Stabat Mater&quot;\" width=\"1180\" height=\"664\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/X4iPkY9C2nc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A artista partilha de uma esp\u00e9cie de honestidade intelectual com seu espectador, uma vez que tanto o espet\u00e1culo quanto sua desmontagem n\u00e3o buscam conclus\u00f5es f\u00e1ceis sobre as quest\u00f5es que encaram, aceitando as brechas ou lacunas \u2013 da mem\u00f3ria pessoal, da pesquisa te\u00f3rica ou acerca da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o social da mulher \u2013 que persistem no universo da pe\u00e7a. A fun\u00e7\u00e3o do professor-pesquisador, neste caso, \u00e9 mostrar que os temas se imp\u00f5em de maneira vital e complexa, exigindo o cont\u00ednuo exerc\u00edcio de depura\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, num constante trabalho intelectual que n\u00e3o tem desfecho certo ou definido. Enfim, atividades de pensamento e produ\u00e7\u00e3o de conhecimento que perduram enquanto fizerem sentido para o investigador e para os outros que o cercam. O objeto final da pesquisa n\u00e3o precisa ser o derradeiro e definitivo; o que importa \u00e9, retomando a express\u00e3o de Jacques Ranci\u00e8re, a \u201caventura intelectual\u201d, tanto para professores e alunos, como para artistas e espectadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Volta \u00e0s aulas\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O exerc\u00edcio de comparar o espectador a um aluno n\u00e3o deseja equiparar teatro e escola como espa\u00e7os sociais com fun\u00e7\u00f5es semelhantes. Contudo, escolas poderiam ser mais criativas, l\u00fadicas e propositoras de aventuras intelectuais a partir de materiais c\u00eanicos; e o teatro poderia ser mais reconhecido como lugar leg\u00edtimo de pesquisa, forma\u00e7\u00e3o e inquietude do pensamento. Nesse sentido, teatro e escola s\u00e3o locais para aventuras intelectuais que podem ser lugar de experimenta\u00e7\u00e3o, conhecimento e motiva\u00e7\u00e3o para solucionar problemas do mundo.<\/p>\n<p>De todo modo, quando reflito sobre as possibilidades de aprendizagem e conhecimento em propostas como decorar versos, contemplar imagens, acompanhar projetos de constru\u00e7\u00e3o e pesquisa \u2013 penso nesse fen\u00f4meno fugidio e imprevis\u00edvel que s\u00e3o a aula e o espet\u00e1culo teatral. Por mais que teorizemos sobre metodologias da sala \u2013 de aula e de teatro \u2013, existe um quanto de imprevisibilidade em rela\u00e7\u00e3o aos conceitos apreendidos, aos desdobramentos intelectuais poss\u00edveis e a como cada sujeito pode reagir \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>Esse grau zero irredut\u00edvel que antecede qualquer aula ou pe\u00e7a causa ang\u00fastia na medida em que percebemos estar sempre num campo minado. Por isso, n\u00e3o desejo estabelecer um ju\u00edzo de valor sobre as pe\u00e7as comentadas. Trata-se antes de promover uma resposta vinda de um suposto aluno-espectador, que entende o teatro como um lugar de saber e busca responder a ele como tal. J\u00e1 aprendi muita coisa no teatro. Cabe voltar a ele \u2013 e \u00e0 escola tamb\u00e9m. Talvez exista a\u00ed um eterno retorno que esteja sendo negligenciado nos dias de hoje, com tantas pessoas (at\u00e9 presidentes da Rep\u00fablica) duvidando da ci\u00eancia e do conhecimento, colocando a si e a outros em risco, tripudiando de maneira vil sobre a vida de muitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teatro, ensino e aprendizagem por Renan Ji Artista em foco da edi\u00e7\u00e3o de 2020 da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":9846,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[100,99,108,117],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10319"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10319\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9846"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10319"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=10319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}