{"id":10253,"date":"2020-05-18T17:19:54","date_gmt":"2020-05-18T20:19:54","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=10253"},"modified":"2020-08-27T08:55:22","modified_gmt":"2020-08-27T11:55:22","slug":"descompasso-cansaco-distopia-fim-rodrigo-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/descompasso-cansaco-distopia-fim-rodrigo-nascimento\/","title":{"rendered":"Descompasso, cansa\u00e7o, distopia, fim  <h6>por Rodrigo Nascimento<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Descompasso, cansa\u00e7o, distopia, fim<\/h3>\n<h6>por Rodrigo Nascimento<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10257\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49653940473_782eb6988e_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Dentre as muitas expectativas alimentadas por quem se engaja e acompanha uma mostra internacional de teatro, sem d\u00favidas uma das mais frequentes \u00e9 aquela que se assemelha a uma esp\u00e9cie de ang\u00fastia da novidade<i>.<\/i> Um desejo de acompanhar aquilo que se faz l\u00e1 fora, aquilo que de algum modo a cena local ainda n\u00e3o absorveu ou aquilo que, ao menos, possa apresentar uma visada diferente em rela\u00e7\u00e3o a problemas que j\u00e1 experimentamos. Durante muito tempo, tal ang\u00fastia esteve fortemente relacionada a um sentimento de atraso cultural, como se as produ\u00e7\u00f5es locais sempre estivessem aqu\u00e9m do desenvolvimento da cena internacional \u2013 em especial aquela de metr\u00f3poles como Nova York, Paris, Londres ou Berlim.<\/p>\n<p>Em seu famoso ensaio <i>Nacional por Subtra\u00e7\u00e3o<\/i>, Roberto Schwarz desenha um perfil dessa sensa\u00e7\u00e3o frequentemente experimentada por brasileiros e latino-americanos, qual seja, a do car\u00e1ter inaut\u00eantico ou imitativo de nossa vida cultural. Isso estaria ligado a um sentimento de descompasso, ou mesmo de contradi\u00e7\u00e3o, entre a realidade local e o prest\u00edgio de determinadas ideologias ou linguagens nos pa\u00edses que nos servem de modelo. Algo que iria do bizarro Papai Noel que todos os anos se encharca de suor no calor dos tr\u00f3picos \u00e0 constante busca por novas formas, fazendo com que rapidamente uma teoria ou linguagem c\u00eanica seja substitu\u00edda pela nova moda internacional antes mesmo que tenha a oportunidade de amadurecer por aqui.<\/p>\n<p>Se de algum modo esse sentimento de descompasso e atraso perdura, n\u00e3o se pode dizer que ele tenha a mesma fei\u00e7\u00e3o que assumira nos debates sobre um teatro nacional nos anos 1950 ou 1960. Sabemos que ainda hoje \u00e9 dif\u00edcil para a historiografia do teatro definir os marcos do processo de moderniza\u00e7\u00e3o da cena brasileira. Para alguns, como S\u00e1bato Magaldi, ela estaria na ruptura est\u00e9tica que deu proemin\u00eancia ao encenador, a montagem de <i>Vestido de Noiva<\/i>, por Ziembinski, em 1948. Para outros estudiosos, como D\u00e9cio de Almeida Prado, In\u00e1 Camargo Costa e T\u00e2nia Brand\u00e3o, ela estaria na paulatina profissionaliza\u00e7\u00e3o da cena (em termos de luz, cenografia, dire\u00e7\u00e3o e dramaturgia) ao longo dos anos 1950 e 1960. De qualquer modo, por tr\u00e1s de todas as leituras, seja a que preza pela ruptura, seja a que preza pela evolu\u00e7\u00e3o, vigora o esquadro europeu do que seria uma cena propriamente moderna. S\u00e3o temporalidades em confronto que n\u00e3o deixam de revelar a nossa ang\u00fastia em busca de um modelo sempre por alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mas ainda que muitos dos problemas centrais continuem (financiamento reduzido e sazonal, pouca regularidade na distribui\u00e7\u00e3o de infraestrutura, poucas pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico etc. \u2013 elementos de algum modo determinantes na moderniza\u00e7\u00e3o da cena europeia), n\u00e3o se pode dizer que hoje \u2013 em especial nas capitais \u2013 n\u00e3o tenhamos uma tradi\u00e7\u00e3o teatral consistente, com grupos e teorias de relevo internacional, bem como pesquisa de linguagem com razo\u00e1vel n\u00edvel de amadurecimento. De qualquer forma, a despeito da complexifica\u00e7\u00e3o da cena teatral urbana atual, n\u00e3o mais capaz de ser pensada dentro de uma polariza\u00e7\u00e3o simplificada entre uma periferia atrasada e um centro avan\u00e7ado (parece mais do que evidente hoje que as formas mais avan\u00e7adas de sociabilidade e consumo tamb\u00e9m se beneficiam da perversidade do atraso), perdura certa percep\u00e7\u00e3o de que a novidade \u2013 percep\u00e7\u00e3o sempre relacional dada em fun\u00e7\u00e3o de um confronto de temporalidades \u2013 \u00e9 sempre bem-vinda e vem de l\u00e1.<\/p>\n<p>Essa ang\u00fastia tamb\u00e9m deriva de um impulso vanguardista que o s\u00e9culo XX reboa, apesar de j\u00e1 ter dado claros sinais de esgotamento (quando o desejo \u00e9 s\u00f3 de superar o antigo, qual o sentido \u00e9tico do movimento? N\u00e3o seria a vanguarda a m\u00e1quina de uma linha temporal progressiva insustent\u00e1vel que agora revela seu cansa\u00e7o?), como tamb\u00e9m da ades\u00e3o algo constrangida e muitas vezes n\u00e3o reconhecida ao tempo da mercadoria \u2013 que s\u00f3 sobrevive por alimentar uma m\u00e1quina de novas necessidades. Ali\u00e1s, muitos festivais e mostras s\u00e3o exatamente a vitrine de um movimento de mercantiliza\u00e7\u00e3o das formas, que dependem da circula\u00e7\u00e3o \u2013 internacional \u2013 para agregar valor. Da\u00ed a inevit\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o, compartilhada por muitos que frequentam a mostra e por muitos que a evitam, de que temas constantemente se repetem, s\u00f3 que com nova roupagem; e tamb\u00e9m a sensa\u00e7\u00e3o de que, a despeito do vanguardismo de muitos espet\u00e1culos internacionais, muitas das quest\u00f5es ali levantadas j\u00e1 eram discutidas por grupos brasileiros de menor prest\u00edgio h\u00e1 tempos. N\u00e3o se trata ent\u00e3o de que temporalidade parece antecipada, mas de qual delas tem valor agregado.<\/p>\n<p>Vem deste \u00faltimo ponto a contund\u00eancia com que a atriz, dramaturga e curadora da MITbr Grace Pass\u00f4, durante a mesa Das A\u00e7\u00f5es, que comp\u00f4s o <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/encontro-perspectivas-anticoloniais\/\">Encontro Perspectivas Anticoloniais<\/a> desta edi\u00e7\u00e3o da MITsp, alertou para a falsa novidade do atual assombro pol\u00edtico que povoa a cena. Dada a emerg\u00eancia de lideran\u00e7as de veio fascista que t\u00eam, dentre outras coisas, promovido a difama\u00e7\u00e3o e a persegui\u00e7\u00e3o de artistas no Brasil e no mundo, s\u00e3o frequentes os espet\u00e1culos que tentam lidar com o sentimento de assombro. Do mesmo modo, tem se tornado igualmente presente a inquieta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que significa o pr\u00f3prio fazer art\u00edstico nestes tempos. Afinal, como dialogar em cena ou como performar com um interlocutor que se pauta pela aniquila\u00e7\u00e3o do outro? Como dialogar com aquela parcela da popula\u00e7\u00e3o que parece ter abra\u00e7ado de frente n\u00e3o um tempo passado, retr\u00f3grado, mas o fim dos tempos? Parece ser um sentimento generalizado na cena engajada o de que, para a exist\u00eancia da pr\u00f3pria cena, ser\u00e1 preciso temporaliz\u00e1-la de modo radical para n\u00e3o sucumbir ao fim dos tempos.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10251\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49630262582_7c796032bb_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>No entanto, Grace Pass\u00f4 alerta que, se para a cena branca e ocidental este tempo do fim, este tempo de aniquila\u00e7\u00e3o parece novo (excetuando, \u00e9 claro, aqueles que tiveram que lidar diretamente os traumas do p\u00f3s-Segunda Guerra), para negros e ind\u00edgenas ele j\u00e1 est\u00e1 dado desde o in\u00edcio de nossa coloniza\u00e7\u00e3o. Afinal, para uma popula\u00e7\u00e3o sempre marginalizada nos espa\u00e7os decis\u00f3rios e nos canais culturais de produ\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o com o outro sempre se deu sob o medo da viol\u00eancia e a ang\u00fastia da destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e cultural. O novo, em verdade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o novo, e a novidade s\u00f3 se torna crit\u00e9rio de valor de acordo com quem se prop\u00f5e a ser seu enunciador ou seu legitimador. A provoca\u00e7\u00e3o feita pela dramaturga, urgente e necess\u00e1ria, \u00e9 o que deve orientar n\u00e3o s\u00f3 uma nova perspectiva\u00e7\u00e3o sobre o que esperar de uma mostra internacional, como tamb\u00e9m deve ajudar na reorienta\u00e7\u00e3o de no\u00e7\u00f5es como novidade, modernidade e atraso. Em suma, descolonizar a cena implica n\u00e3o s\u00f3 olhar para as urg\u00eancias, mas perguntar o tempo e a origem dessas urg\u00eancias para forjar modernidades outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fim do tempo ou tempo que se abre?<\/b><\/p>\n<p>Muitos espet\u00e1culos desta mostra giraram em torno do problema do tempo. O tema, tomado assim genericamente, n\u00e3o \u00e9 novo. Afinal, o s\u00e9culo XX se abriu para as artes em geral repleto de figura\u00e7\u00f5es sobre o tempo \u2013 do fasc\u00ednio futurista por sua acelera\u00e7\u00e3o \u00e0s buscas romanescas de um tempo perdido na mem\u00f3ria. O pr\u00f3prio teatro inaugura o s\u00e9culo XX desestabilizando todas as rela\u00e7\u00f5es convencionadas que a pe\u00e7a bem-feita ou o neoclassicismo aristot\u00e9lico tinham acachapado dentro de uma tentativa de sincroniza\u00e7\u00e3o do tempo da representa\u00e7\u00e3o com o tempo da a\u00e7\u00e3o representada. Pode-se dizer, talvez com algum exagero, que esta sincroniza\u00e7\u00e3o (a mesma realizada por toda empreitada burguesa que via o mundo a partir do rel\u00f3gio europeu) tomava o presente como temporalidade absoluta e reduzia o mecanismo c\u00eanico a uma m\u00e1quina progressiva, feita de uma sucess\u00e3o de presentes. Ao fim e ao cabo, um tempo positivo, pautado pela vontade heroica, em que tudo pode ser resolvido aqui e agora.<\/p>\n<p>No entanto, diferentemente da fase heroica burguesa com seu presente positivo ou o mesmo do alto modernismo que p\u00f4s diferentes temporalidades em jogo na cena e fez o tempo voltar-se sobre si, o momento agora parece ser o de uma apoteose do fim. Postos a nu os grandes sistemas ideol\u00f3gicos e postas em cena lideran\u00e7as pol\u00edticas que cultivam o horror e amea\u00e7am com a aniquila\u00e7\u00e3o, parece ressoar no teatro cada vez mais um tempo dist\u00f3pico. Todo o projeto iluminado \u2013 iluminista \u2013 do centro capitalista se v\u00ea agora diante do cansa\u00e7o de um tempo outrora ofuscado pr\u00f3prias conquistas. O espet\u00e1culo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/multidao\/\"><i>Multid\u00e3<\/i>o (<i>Crowd<\/i>)<\/a>, dirigido pela franco-austr\u00edaca Gis\u00e8le Vienne, que abriu o festival, figura este <i>fim<\/i> por meio de um sentimento de esgotamento. Todo feito de uma precisa decupagem do movimento, que revela minuciosamente as partituras corporais dos atores-bailarinos, o espet\u00e1culo transforma os corpos jovens em sintetizadores apenas provisoriamente sintonizados (em verdade, a coletividade sincr\u00f4nica parece sugerir uma profunda solid\u00e3o). Todos ali poderiam acompanhar o som techno em velocidade fren\u00e9tica, mas o que h\u00e1 \u00e9 uma desacelera\u00e7\u00e3o do conjunto, como se resistissem \u00e0 temporalidade progressiva \u2013 e acelerada \u2013 da vida sob o capital. Coletivamente, parecem se suspender na temporalidade de um ritual, mas a \u00e9poca \u00e9 outra: onde est\u00e1 a subst\u00e2ncia transcendente da vida atual? S\u00e3o corpos que dan\u00e7am bem ao sabor da m\u00fasica, mas parecem cansados. \u00c9 como se, ao fim e ao cabo, se perguntassem: de que vale toda a agita\u00e7\u00e3o? Seguir adiante? Para qu\u00ea?<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9596\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg\" alt=\"Multud\u00e3o (Crowd) @Silvia Machado\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>No entanto, nem todos os espet\u00e1culos internacionais se reduziram a uma identifica\u00e7\u00e3o cansada com a aus\u00eancia de futuro. <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/farm-fatale\/\"><i>Farm Fatale<\/i><\/a>, do franc\u00eas Philippe Quesne, prefere operar em chave diversa, mas talvez por isso soe encantadoramente inocente: toma o pr\u00f3prio fim como come\u00e7o, e \u00e9 na terra destro\u00e7ada pela produtividade capitalista que espantalhos inusitadamente simp\u00e1ticos forjam a utopia. J\u00e1 <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\"><i>Contos Imorais &#8211; Parte 1: Casa M\u00e3e<\/i><\/a>, realizado pela artista francesa Phia M\u00e9nard, prefere transformar o fim em uma quest\u00e3o. Ali, o que \u00e9 demolido \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 o Partenon \u2013 que acompanhamos da constru\u00e7\u00e3o \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o em cena \u2013 mas tamb\u00e9m todo o tempo da tradi\u00e7\u00e3o ocidental, que se acumula sobre nossas costas. A civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 passado e r\u00f3i. Enquanto tudo cai, a performer (uma esp\u00e9cie de \u201cdeusa grega futurista\u201d) nos olha impass\u00edvel e parece perguntar: a\u00ed est\u00e3o os escombros de uma civiliza\u00e7\u00e3o&#8230; o que fazer deste fim? Caso o presente sejam ru\u00ednas, para onde seguir?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-6021\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg\" alt=\"Maison Mere \u00a9\ufe0fJean Luc Beaujault\" width=\"1024\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Nessas pe\u00e7as parece haver a tens\u00e3o constante de um tempo que deseja escapar \u00e0 hist\u00f3ria \u2013 o (n\u00e3o) tempo do fim. Afinal, a hist\u00f3ria ocidental foi e \u00e9 palco de um constante estado de exce\u00e7\u00e3o. Como resistir a esse tempo? Como forjar algo novo? Faz sentido pensar o futuro nos mesmos termos em que era pensado antigamente? Por culpa, pelo reconhecimento tardio de responsabilidade, pela tentativa de forjar um novo tipo de protagonismo ideol\u00f3gico ou mesmo por cansa\u00e7o, este teatro vindo do outrora chamado Primeiro Mundo parece agora querer incorporar este tipo de quest\u00e3o. O projeto ocidental pondo suas pr\u00f3prias formas de temporaliza\u00e7\u00e3o em xeque.<\/p>\n<p>No entanto, a radicalidade desta empreitada, como provocada no in\u00edcio deste texto, depende de algum modo da disposi\u00e7\u00e3o da revis\u00e3o de todo o projeto colonial que encapsula as formas hegem\u00f4nicas do teatro ocidental. E ainda que ao longo dos \u00faltimos anos a Mostra tenha feito um esfor\u00e7o fundamental de investigar as diferentes formas de coloniza\u00e7\u00e3o e sugerir agendas p\u00f3s ou anticoloniais, n\u00e3o basta ter a sensa\u00e7\u00e3o de que o Ocidente est\u00e1 \u201climpando a sujeira\u201d de outrora. Como alertou o l\u00edder ind\u00edgena e escritor Ailton Krenak na mesa Do Tempo, dividida com o fil\u00f3sofo uspiano Paulo Arantes tamb\u00e9m no Encontro Perspectivas Anticoloniais da MITsp, a colonialidade \u2013 e sua temporalidade \u2013 \u00e9 \u201caqui e agora\u201d. Portanto, limpar a heran\u00e7a colonial n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, pois ela \u00e9 constitutiva de nossa forma de ver e reproduzir o mundo.<\/p>\n<p><img class=\"size-large wp-image-10222\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 contra essa presen\u00e7a (e persist\u00eancia) da colonialidade que a performance recifense <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/por-onde-andam-os-porcos\/\"><i>Por Onde Andam os Porcos<\/i><\/a>, dirigida por Kildery Iara, se coloca. O conjunto lida com a temporalidade da superprodu\u00e7\u00e3o capitalista que se imp\u00f5e mesmo sobre corpos perif\u00e9ricos. Assimila um tempo de acelera\u00e7\u00e3o e o cansa\u00e7o dele oriundo (n\u00e3o \u00e0 toa, o grupo parte do livro <i>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/i>, de Byung Chul Han como fonte de pesquisa), que se faz sentir pela presen\u00e7a violenta das formas de opress\u00e3o que insistem em homogeneizar os corpos.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10254\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654186803_97f782fc27_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Do mesmo modo, na performance <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/zoo\/\"><i>ZOO<\/i><\/a>, do grupo paulista Macaquinhos, (que j\u00e1 tem trajet\u00f3ria longeva na cena nacional e internacional e que, infelizmente, devido \u00e0 pandemia, teve sua apresenta\u00e7\u00e3o na Mostra cancelada), os corpos n\u00e3o mais t\u00eam a vitalidade de um presente cheio de possibilidades. Todos parecem tomados por uma esp\u00e9cie de cansa\u00e7o. O grupo envolve o p\u00fablico em uma teia de cheiros e sons para criar um ambiente sensorial no qual os performers, mais do que apresentadores, s\u00e3o cansa\u00e7o a ser sentido. A despeito do funk tocado incessantemente, todos parecem tomados pela ressaca de uma longa festa: a festa colonialista, com seu banquete de horrores. O gesto ef\u00eamero de \u201cestar presente\u201d (quase n\u00e3o h\u00e1 movimentos, e quando ele surge, parece logo evanescer) sugere uma problematiza\u00e7\u00e3o daquelas formas de rela\u00e7\u00e3o com o Outro que, nos zool\u00f3gicos humanos produzidos pelas pot\u00eancias imperialistas ao longo dos s\u00e9culos XIX e XX, transformaram os povos das na\u00e7\u00f5es ocupadas em figuras ex\u00f3ticas, postas ali para contempla\u00e7\u00e3o e divers\u00e3o. Aqui, a contempla\u00e7\u00e3o resulta em nada, como se a presen\u00e7a dos corpos fosse n\u00e3o s\u00f3 espelho distorcido, mas tamb\u00e9m resist\u00eancia e resposta pela ina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-6066\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-1024x597.jpg\" alt=\"Zoo \u00a9Francois Pisapia\" width=\"1024\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/zoo-cred-Francois-Pisapia.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>A esta altura, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber que atualidade e novidade j\u00e1 n\u00e3o se podem definir com marcadores que s\u00f3 fizeram e fazem reproduzir rela\u00e7\u00f5es de colonialidade. A modernidade de nossa cena parece depender menos de acompanhar o compasso europeu e mais de se debru\u00e7ar sobre a revisita\u00e7\u00e3o de uma urg\u00eancia que n\u00e3o foi inventada agora, mas que sempre esteve no constante estado de exce\u00e7\u00e3o em que foi forjada a sociedade brasileira. Reinventar a ordem do tempo para descolonizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descompasso, cansa\u00e7o, distopia, fim por Rodrigo Nascimento Dentre as muitas expectativas alimentadas por quem se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":10257,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[99,98,167,114,120],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10253"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10253\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10253"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=10253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}