{"id":10235,"date":"2020-05-18T16:39:10","date_gmt":"2020-05-18T19:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=10235"},"modified":"2020-05-18T16:54:49","modified_gmt":"2020-05-18T19:54:49","slug":"lampejos-da-memoria-corpo-e-narratividade-por-guilherme-diniz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/lampejos-da-memoria-corpo-e-narratividade-por-guilherme-diniz\/","title":{"rendered":"Lampejos da mem\u00f3ria: corpo e narratividade <h6>por Guilherme Diniz<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Lampejos da mem\u00f3ria: corpo e narratividade<\/h3>\n<h6>por Guilherme Diniz<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10236\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49654230907_1bd4264122_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<blockquote><p>\u201cToda hist\u00f3ria \u00e9 sempre sua inven\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>e toda mem\u00f3ria um hiato<\/p>\n<p>no vazio\u201d<\/p>\n<p><i>Leda Martins<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 como uma flor que teve de nascer dentre as pedras.<\/p>\n<p>Foi necess\u00e1rio muito esfor\u00e7o para faz\u00ea-lo germinar em meio a um contexto mundial grave, adoecido e acidentado. A conjuntura pand\u00eamica recoloca uma s\u00e9rie de questionamentos sobre nossa humanidade (e seus limites), nossos c\u00f3digos \u00e9tico-morais e paradigmas pol\u00edticos. O agridoce e necess\u00e1rio isolamento social interroga-nos, especialmente neste caso, sobre a natureza mesma do teatro, seus princ\u00edpios e suas bases est\u00e9tico-ontol\u00f3gicas, nos devolvendo as mais fundamentais d\u00favidas acerca do que \u00e9 ou pode vir a ser o teatro e sua (talvez) imperativa necessidade de presen\u00e7a. Tomadas de assalto pela expans\u00e3o da pandemia, as j\u00e1 fr\u00e1geis, escassas e desiguais pol\u00edticas culturais n\u00e3o conseguem elaborar projetos e iniciativas para amparar plenamente os setores, o que explicita uma vez mais suas insufici\u00eancias.<\/p>\n<p>Essa pandemia n\u00e3o apenas exp\u00f5e nossas, por vezes disfar\u00e7\u00e1veis, fraquezas, mas tamb\u00e9m a insustentabilidade de um modelo pol\u00edtico-econ\u00f4mico neoliberal enriquecedor de bancos e sistemas financeiros, estruturalmente racista e produtor de um sem-n\u00famero de desigualdades. O v\u00edrus escancara, sem qualquer clem\u00eancia, o individualismo, os privil\u00e9gios e abismos sociais, evidenciando que cuidar de si e cuidar do outro s\u00e3o atitudes insepar\u00e1veis se quisermos uma sociedade plenamente viva.<\/p>\n<p>A intelectual e ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos Nilma Lino Gomes explica como, no Brasil, ra\u00e7a e a Covid-19 se cruzam violentamente. Visto que a doen\u00e7a afetar\u00e1 mormente as camadas mais pobres do pa\u00eds e que estas mesmas camadas s\u00e3o compostas predominantemente por pessoas negras, temos que, uma vez mais, a expans\u00e3o vir\u00f3tica alvejar\u00e1 os alvos mais abandonados pelo Estado brasileiro, acentuando um hist\u00f3rico mortic\u00ednio. Em termos pol\u00edtico-sociais o novo coronav\u00edrus n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico!<\/p>\n<p>Tornou-se agudamente dif\u00edcil elaborar um texto para se abordar aspectos ou tem\u00e1ticas presentes em alguns trabalhos da programa\u00e7\u00e3o da MITsp ante este panorama, inundado por ang\u00fastias, medos, incertezas, embora permeado por desejos. Em um dado momento perguntei-me: a quem interessaria tal texto? Ao mesmo tempo, dado que estamos privados de espet\u00e1culos teatrais (entre tantos outros encontros), rever, pela letra grafada, o fulgor dos corpos em a\u00e7\u00e3o c\u00eanica, poderia ser, em alguma medida, aconchegante.<\/p>\n<p>O tempo e suas rela\u00e7\u00f5es, as distopias, os apocalipses e um certo retrogosto pessimista como rea\u00e7\u00e3o a um mundo que imp\u00f5e angustiante cansa\u00e7o constitu\u00edram algumas linhas atravessadoras de debates e perspectivas integrantes do eixo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/olhares-criticos\/\">Olhares Cr\u00edticos<\/a> ao pensarmos a programa\u00e7\u00e3o da 7\u00aa MITsp &#8211; Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo. Subjacente a tudo isso, parece-me, est\u00e1 \u201ca persist\u00eancia da mem\u00f3ria\u201d, isto \u00e9, a presen\u00e7a latente ou determinante da mem\u00f3ria como um elemento catalisador ou operador das cenas, de modo a redimensionar\/reinterpretar o eu, o mundo e suas inter-rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, articulando indiv\u00edduo e coletivo.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9846\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1024x717.jpg\" alt=\"By Heart @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576031_63ca927b44_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Em sua dimens\u00e3o caleidosc\u00f3pica, a mem\u00f3ria fora pensada de modo profundamente distinto em diversos espet\u00e1culos, a come\u00e7ar por <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart\/\"><i>By Heart<\/i><\/a><i>,<\/i> de Tiago Rodrigues. Aqui, os la\u00e7os afetivos entre obras liter\u00e1rias, mem\u00f3rias e gera\u00e7\u00f5es distintas delineiam uma cena que, em princ\u00edpio, prima pelo encontro entre artista e p\u00fablico, valendo-se da memoriza\u00e7\u00e3o de versos e trechos po\u00e9ticos para efetivar um compartilhamento do presente e dos saberes com a plateia. Os processos memoriais em<i> By Heart <\/i>est\u00e3o incrustados no C\u00e2none Ocidental, para usarmos uma not\u00f3ria express\u00e3o do cr\u00edtico estadunidense Harold Bloom, e, embora possua um teor improvisacional, a no\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria est\u00e1 ligada \u00e0 capacidade de decorar palavras.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-6021\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg\" alt=\"Maison Mere \u00a9\ufe0fJean Luc Beaujault\" width=\"1024\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\"><i>Contos Imorais \u2013 Parte 1: Casa M\u00e3e<\/i><\/a>, da artista francesa Phia M\u00e9nard, aborda uma faceta distinta da mem\u00f3ria, a saber, as contradi\u00e7\u00f5es e problem\u00e1ticas envoltas na Mem\u00f3ria Cultural constru\u00edda no Ocidente. A cl\u00e1ssica iconografia do Partenon, presente em sua configura\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica, se apresenta como sin\u00e9doque de um bols\u00e3o cultural, uma heran\u00e7a simb\u00f3lica eivada de tens\u00f5es e viol\u00eancias em seus m\u00faltiplos desdobramentos hist\u00f3ricos. Quantas exclus\u00f5es, opress\u00f5es e apagamentos s\u00e3o necess\u00e1rios para edificar uma un\u00edvoca e superior mem\u00f3ria cultural? Por\u00e9m a opulenta arquitetura \u00e9 abalada, restando escombros que poderiam sinalizar, <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/em-busca-de-outros-refugios-por-daniel-toledo\/\">como afirma o cr\u00edtico Daniel Toledo, ao analisar a obra apresentada na MITsp<\/a>, a derrocada (ou o desejo de sua derrocada, eu diria) de um projeto civilizat\u00f3rio, cuja pedra angular seria a imposi\u00e7\u00e3o da racionalidade capitalista, colonial, branca e patriarcal. As ru\u00ednas do grandiloquente edif\u00edcio grego me remetem ao ic\u00f4nico soneto de Percy Bysshe Shelley, <i>Ozymandias<\/i>, no qual um fortuito viajante conta ter visto, afundado nas areias, o busto esfacelado de um antiqu\u00edssimo fara\u00f3 que, em seu tempo, pavoneava-se de ter constru\u00eddo um legado absoluto e imperec\u00edvel. O escombro, o abandono e a constru\u00e7\u00e3o de novos futuros s\u00e3o respostas a tais idealiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9790\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-1024x717.jpg\" alt=\"Jerk (Babaca) @Nereu Jr\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642260086_b44152a9fe_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Tanto em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/babaca\/\"><i>Jerk (Babaca)<\/i><\/a>, resultado de uma parceria entre o autor estadunidense Dennis Cooper e a diretora franco-austr\u00edaca Gis\u00e8le Vienne, quanto em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/farm-fatale\/\"><i>Farm Fatale<\/i><\/a>, do encenador franc\u00eas Philippe Quesne, a mem\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 um elemento relevante. Em ambas as obras, a mem\u00f3ria \u00e9 mediada e articulada por interm\u00e9dio de recursos c\u00eanicos profundamente anti-realistas, assumindo a teatraliza\u00e7\u00e3o como artif\u00edcio espetacular. As recorda\u00e7\u00f5es de um serial-killer s\u00e3o teatralizadas por fantoches em <i>Jerk (Babaca)<\/i>, recriando, com invulgar morbidez, os tenebrosos assass\u00ednios, torturas e abusos cometidos por sujeitos no limite da viol\u00eancia. O ventriloquismo do ator Jonathan Capdevielle agudiza seus efeitos funestos, embora resvale em certa fetichiza\u00e7\u00e3o ou espetaculariza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie. Os fantoches manipulados tentam expurgar os pesadelos de uma mente atordoada e criminosa habitada por terr\u00edveis lembran\u00e7as. <i>Farm Fatale<\/i>, por sua vez, apresenta a mem\u00f3ria em sua melanc\u00f3lica e nost\u00e1lgica dimens\u00e3o, ao conceber, cenicamente, um universo rural esvaziado e dist\u00f3pico, cuja a\u00e7\u00e3o humana levou \u00e0 ru\u00edna. Seus \u00fanicos habitantes s\u00e3o cinco espantalhos que recordam suas exist\u00eancias na presen\u00e7a dos humanos, em um tom simultaneamente c\u00f4mico e algo saudosista, problematizando quest\u00f5es ambientais e existenciais.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9960\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-1024x717.jpg\" alt=\"Farm Fatale @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49653940763_27c2ccd6b5_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/sabado-descontraido\/\"><i>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/i><\/a><i>, <\/i><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/meia-noite\/\"><i>Meia Noite<\/i><\/a><i> e <\/i><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/violento\/\"><i>violento.<\/i><\/a> (os dois \u00faltimos s\u00e3o da MITbr) h\u00e1, em comum, uma delicada rela\u00e7\u00e3o entre os processos da mem\u00f3ria e a corporeidade perform\u00e1tica. Compreendo, especialmente nestes espet\u00e1culos, a mem\u00f3ria como um jogo din\u00e2mico entre a lembran\u00e7a e o esquecimento, revela\u00e7\u00e3o e oculta\u00e7\u00e3o, reinven\u00e7\u00e3o e releitura da a\u00e7\u00e3o humana. Nestes casos a conex\u00e3o entre mem\u00f3ria e corpo abarca viv\u00eancias ao mesmo tempo \u00edntimas e coletivas, pret\u00e9ritas e contempor\u00e2neas, conjugando tra\u00e7os autobiogr\u00e1ficos e perspectivas macro-hist\u00f3ricas. Nesse sentido, a mem\u00f3ria se movimenta como uma inst\u00e2ncia que n\u00e3o somente d\u00e1 sentido ao que no passado foi experimentado, mas igualmente repensa o presente, perfazendo nesse movimento proje\u00e7\u00f5es e anseios para o futuro. Sendo um \u201chiato no vazio\u201d, como poetiza Leda Martins, as mem\u00f3rias s\u00e3o plataformas de possibilidades criativas, n\u00e3o acorrentadas a um passado est\u00e1tico, mas construindo-se como processos interativos, pois unem indiv\u00edduo e coletivo. Na tr\u00edade mencionada, as lembran\u00e7as evocadas pelos corpos negros sublinham poeticamente a presen\u00e7a da mem\u00f3ria na constru\u00e7\u00e3o da identidade. Cada qual \u00e0 sua maneira, estes tr\u00eas espet\u00e1culos realizam o que a pesquisadora baiana Carla Akotirene nos disse, na mesa <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contradicoes-no-debate-da-cultura-como-bem-comum\/\">Contradi\u00e7\u00f5es no Debate da Cultura como Bem Comum<\/a> (que integrou a programa\u00e7\u00e3o da MITsp): que uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es culturais negras \u00e9 o conhecimento sobre o corpo; j\u00e1 que, simbolicamente, os saberes africanos dan\u00e7am.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10247\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49661454266_a3e02bc523_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><i>Meia Noite<\/i>, de Orum Santana, reatualiza as gestualidades da capoeira, encarando-a como um disparador de movimentos, cuja produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica encarna as recorda\u00e7\u00f5es de Orum, especialmente para com seu pai. A capoeiragem, rearticulada, em <i>Meia Noite<\/i> n\u00e3o \u00e9 ilustrada, mas plenamente jogada, decupando movimentos, recombinando passos, rearranjando posturas em uma espetacularidade que intensifica a plasticidade do corpo mandingueiro; corpo este que passeia por diversos ritmos e tonicidades. Como afirma Muniz Sodr\u00e9, o jogo cultural da capoeira justap\u00f5e luta com apar\u00eancia de dan\u00e7a e dan\u00e7a que aparenta combate em uma cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-simb\u00f3lica na qual o corpo soberano \u00e9 habitado por muitas temporalidades amalgamadas \u2013 passado, presente e futuro. A circularidade \u00e9 um princ\u00edpio coreogr\u00e1fico basilar em <i>Meia Noite<\/i>, e \u00e9 nesse contexto perform\u00e1tico que a capoeira \u00e9 pensada n\u00e3o apenas como mem\u00f3ria individual, mas igualmente coletiva, agenciando um saber, uma pr\u00e1tica cultural e uma estrat\u00e9gia hist\u00f3rica. A luz \u00e9 de fato uma componente est\u00e9tica-po\u00e9tica da cena, pois integra ativamente a constru\u00e7\u00e3o de sentidos e imagens com o corpo de Orum. As grada\u00e7\u00f5es, recortes e matizes luminosos imprimem temporalidades, qualidades de movimento, adensando fisicalidades e sonoridades.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10242\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49651473527_e6fa0b9270_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 dimens\u00e3o memorial, <i>violento.<\/i> aborda as opress\u00f5es, abusos, estigmas e cicatrizes costurados no corpo negro urbano, tra\u00e7ando a partir dos traumas outras e novas possibilidades imag\u00e9ticas para redimensionar exist\u00eancias negras em uma sociedade colonialmente genocida. Aqui, a viv\u00eancia contempor\u00e2nea dialoga, no palco ritualizado, com temporalidades m\u00faltiplas e ancestrais, projetando um corpo negro nu sempre em processo, cuja recusa \u00e0s estereotipias fixas \u00e9 um ato resistente de humaniza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m dan\u00e7a o ator Preto Amparo, lan\u00e7ado em uma coreografia alucinante, como um transe que libera energias daquele corpo ao mesmo tempo em risco e em pot\u00eancia. A profus\u00e3o de m\u00eddias, signos e objetos c\u00eanicos orquestrados em <i>violento.<\/i>, como o carrinho de pol\u00edcia, as proje\u00e7\u00f5es, bases sonoras, questiona os mecanismos de viol\u00eancia racial e ao mesmo tempo expande as texturas do corpo, na qualidade de produtor de saberes, po\u00e9ticas e mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Por fim, em <i>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/i>, da multiartista ruandense Doroth\u00e9e Munyaneza, as mem\u00f3rias de um brutal genoc\u00eddio s\u00e3o agenciadas em uma configura\u00e7\u00e3o c\u00eanica na qual o corpo dan\u00e7ante e a oralidade, vitalmente ligados, ampliam rememora\u00e7\u00f5es, repensam os traumas e presentificam feixes de um passado hist\u00f3rico cujas marcas vivem no horizonte de uma coletividade. Re-construir-se a partir da ru\u00edna, da destrui\u00e7\u00e3o, sem esquec\u00ea-las \u00e9 um dos campos de cria\u00e7\u00e3o de <i>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/i>. Recolocar tais mem\u00f3rias \u00e9 uma implica\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica, pois tamb\u00e9m se discutem os mecanismos hist\u00f3ricos e coloniais de viol\u00eancia, problematizando o incentivo e a participa\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o raros \u2013 de na\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas em conflitos internos de outros pa\u00edses. Qual a nossa posi\u00e7\u00e3o diante disso tudo? As din\u00e2micas temporais e memoriais neste espet\u00e1culo, ao reverem o passado a fim de dar novo sentido ao presente, abrem novas perspectivas para o futuro, pois este tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9606\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-1024x717.jpg\" alt=\"S\u00e1bado Descontra\u00eddo @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49629087516_2354490e68_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>A capacidade de se aproveitar das crises para concentrar riquezas, por parte de empresas, multinacionais e corpora\u00e7\u00f5es, pode estar chegando ao seu limite, considera o ativista ind\u00edgena Ailton Krenak, ao dialogar com o jornalista Leandro Demori, em uma recente <i>live<\/i>. Nessa vertiginosa engrenagem, segundo ele, a pr\u00f3pria ideia de humanidade pode se dissolver. Voltando \u00e0s quest\u00f5es aqui postas, eu me interrogo: Quais mem\u00f3rias ser\u00e3o tecidas neste momento? E o que poderemos aprender com elas?<\/p>\n<p>Certamente \u00e9 cedo para an\u00e1lises mais profundas, mas creio que esta crise pand\u00eamica posse acirrar os instrumentos sist\u00eamicos de discrimina\u00e7\u00e3o, letalidade e hierarquiza\u00e7\u00e3o de corpos e vidas, por\u00e9m, ao escancarar seus mecanismos b\u00e1rbaros, a crise pode tamb\u00e9m insurgir transforma\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00f5es destas estruturas. \u201cDepende de quem vai sobrar\u201d, conclui Krenak.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lampejos da mem\u00f3ria: corpo e narratividade por Guilherme Diniz \u201cToda hist\u00f3ria \u00e9 sempre sua inven\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":10236,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[100,99,98,169,112,105,119],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10235"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=10235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}