{"id":10224,"date":"2020-05-15T14:39:03","date_gmt":"2020-05-15T17:39:03","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=10224"},"modified":"2020-08-27T08:55:37","modified_gmt":"2020-08-27T11:55:37","slug":"reinventar-riqueza-redistribuir-o-poder-por-daniel-toledo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/reinventar-riqueza-redistribuir-o-poder-por-daniel-toledo\/","title":{"rendered":"Reinventar a riqueza, redistribuir o poder  <h6>por Daniel Toledo<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Reinventar a riqueza, redistribuir o poder<\/h3>\n<h6>por Daniel Toledo<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-10222 size-large\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/49629963846_c83f453898_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>Estamos em S\u00e3o Paulo, e um calend\u00e1rio herdado nos diz que \u00e9 mar\u00e7o de 2020. Como de costume, n\u00e3o temos ideia sobre o que est\u00e1 por vir. Se caminhamos pela avenida Paulista, no entanto, talvez reparemos algumas poucas pessoas usando inesperadas m\u00e1scaras cir\u00fargicas enquanto transitam pela cidade. Algo sempre est\u00e1 por vir. Em meio a uma atmosfera de crescentes incertezas, tem in\u00edcio a programa\u00e7\u00e3o da 7\u00aa MITsp &#8211; Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Faz calor na megal\u00f3pole. Sol e cimento. Em uma ensolarada manh\u00e3 de sexta-feira, acontece o segundo encontro do <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/seminario-perspectivas-anticoloniais\/\">Semin\u00e1rio Perspectivas Anticoloniais<\/a>, ainda nos primeiros dias da mostra. O evento se d\u00e1 em um prestigiado equipamento cultural da cidade, curiosamente instalado em um edif\u00edcio de vidro com numerosos andares e elevadores. Felizmente, o encontro acontece no t\u00e9rreo. E entre os convidados da mostra de teatro figura o l\u00edder ind\u00edgena, ambientalista e escritor Ailton Krenak.<\/p>\n<p>Nascido \u00e0s margens do rio Doce, na mesma regi\u00e3o onde vive hoje em dia, Krenak d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 conversa chamando nossa aten\u00e7\u00e3o aos altos custos de supostas &#8220;facilidades&#8221; amplamente propagandeadas no mundo contempor\u00e2neo. Problematiza, a esse respeito, a banaliza\u00e7\u00e3o de &#8220;experi\u00eancias extravagantes&#8221; e &#8220;quase m\u00e1gicas&#8221;, citando como exemplo o deslocamento a\u00e9reo do pr\u00f3prio corpo at\u00e9 a cidade de S\u00e3o Paulo. Algum tempo depois, ele nos convida a examinar a arquitetura do pr\u00e9dio onde nos encontramos, trazendo-a como um t\u00edpico exemplo das muitas &#8220;riquezas fajutas&#8221; historicamente celebradas pelo Ocidente e por suas persistentes col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Em vez de celebrar o custoso edif\u00edcio, entretanto, Krenak nos convida \u00e0 possibilidade de que o mesmo encontro acontecesse a c\u00e9u aberto, quem sabe em um parque ou numa pra\u00e7a da cidade, talvez sob a sombra de uma grande \u00e1rvore \u2013 uma grande irm\u00e3. Com humor e irrever\u00eancia, o escritor compartilha conosco seu olhar francamente cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a um tipo bastante espec\u00edfico de riqueza: toda aquela que se obt\u00e9m a partir da explora\u00e7\u00e3o dos outros e da terra, transformando-os, respectivamente, em meros recursos humanos e naturais, supostamente orientados a uma ideia bastante espec\u00edfica e exclusivista de progresso e moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E de que modo a programa\u00e7\u00e3o de uma mostra internacional de teatro pode se articular a essas quest\u00f5es? De que modo pode dar a ver riquezas fajutas, decadentes, e quem sabe apontar outras, emergentes? Que outras riquezas podemos vislumbrar, em cena, que n\u00e3o aquelas advindas da explora\u00e7\u00e3o dos outros e da terra?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Espet\u00e1culo de abertura da 7\u00aa Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo, <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/multidao\/\"><i>Multid\u00e3o (Crowd)<\/i><\/a> talvez nos ofere\u00e7a algumas imagens de uma riqueza cujo aspecto ilus\u00f3rio e fugaz progressivamente se revela aos nossos olhos. Concebida e coreografada pela artista francesa Gis\u00e8le Vienne, tendo como refer\u00eancia a vida noturna de Berlim, na Alemanha, a obra nos coloca diante de uma cultura comportamental marcada pelos excessos e o disp\u00eandio. Extravagantemente trazidos da Fran\u00e7a ao Brasil, os 15 performers nos conduzem a uma encena\u00e7\u00e3o de recursos aparentemente infinitos e custos supostamente invis\u00edveis, mas somente \u00e0 medida em que se situam em outros pontos do sistema-mundo.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9596\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg\" alt=\"Multud\u00e3o (Crowd) @Silvia Machado\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49626662817_59e7e3b60c_o-1-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Concebido pela mesma artista, o mon\u00f3logo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/babaca\/\"><i>Jerk (Babaca)<\/i><\/a> parece associar \u00e0 experi\u00eancia humana semelhante impress\u00e3o de onipot\u00eancia. Dessa vez, no entanto, a afirma\u00e7\u00e3o de poder n\u00e3o se d\u00e1 propriamente pelo disp\u00eandio de recursos, mas a partir de discursos e atitudes que parecem normalizar a objetifica\u00e7\u00e3o do outro. Ao inspirar-se na hist\u00f3ria real de um serial-killer estadunidense dos anos 1970, a obra nos convida, com certo entusiasmo e suposta ingenuidade, a ler e escutar sobre pr\u00e1ticas de viol\u00eancia f\u00edsica e sexual que, de modo pouco cr\u00edtico e bastante inc\u00f4modo, traduzem a perpetua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de tra\u00e7os vinculados a uma masculinidade colonial e desumanizante.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9792\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-1024x717.jpg\" alt=\"Jerk (Babaca) @Nereu Jr\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49642535307_b22eae3ba0_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/by-heart\/\"><i>By Heart<\/i><\/a>, obra criada e interpretada pelo artista portugu\u00eas Tiago Rodrigues, somos convocados, desde a plateia do teatro, a memorizar um certo poema do dramaturgo ingl\u00eas William Shakespeare. Al\u00e7ado ao posto de incontest\u00e1vel nome da literatura dram\u00e1tica &#8220;universal&#8221;, o grande artista da terra da rainha parece simbolizar, no espet\u00e1culo, um amplo arquivo cultural que talvez esteja prestes a desocupar a cabeceira do mundo. Mas qual seria, afinal, o sentido de preservarmos com tamanho afinco versos criados h\u00e1 tantos s\u00e9culos, em terras t\u00e3o distantes das nossas? E \u00e0s custas de que esquecimentos construir\u00edamos, eventualmente, essa suposta erudi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9852\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1024x717.jpg\" alt=\"By Heart @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647576536_fb5e283f19_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>\u00danico trabalho latino-americano inclu\u00eddo na programa\u00e7\u00e3o internacional da mostra, <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/tu-amaras\/\"><i>Tu Amar\u00e1s<\/i><\/a>, realizado pelo grupo chileno Bonobo, nos convida aos bastidores de um prestigiado congresso de medicina. Em vez de debates sobre temas cl\u00ednicos, entretanto, o que se revela em cena s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es interpessoais definhadas por vaidade, competitividade e preconceitos, assim como a hipocrisia de argumentos supostamente cient\u00edficos que encobrem um profundo desprezo em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Se em <i>By Heart<\/i> temos acesso a rela\u00e7\u00f5es de colonialidade intra-europeias, o que se pode observar aqui \u00e9 a n\u00edtida reprodu\u00e7\u00e3o das mesmas hierarquias tamb\u00e9m entre povos que vivem sob a Linha do Equador.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9695\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-1024x717.jpg\" alt=\"Tu Amar\u00e1s @Nereu Jr\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49633503912_cab565b9ee_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Concebida e realizada pela artista francesa Phia M\u00e9nard, a performance <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/contos-imorais-parte-1-casa-mae\/\"><i>Casa M\u00e3e<\/i><\/a> talvez seja, dentre as obras, aquela que de modo mais sint\u00e9tico e intencional nos apresente a derrocada de estruturas que h\u00e1 muitos s\u00e9culos sustentam a &#8220;riqueza fajuta&#8221; do Ocidente. Ao realizar, em cena, a constru\u00e7\u00e3o de uma r\u00e9plica barata e mal acabada do famoso Partenon grego, a performer chama aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fragilidade e \u00e0 instabilidade do que se poderia entender como uma alegoria do edif\u00edcio civilizat\u00f3rio ocidental, logo mais destru\u00eddo por uma tempestade c\u00eanica que nos faz lembrar das for\u00e7as da natureza e da imperiosa passagem do tempo.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-6021\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg\" alt=\"Maison Mere \u00a9\ufe0fJean Luc Beaujault\" width=\"1024\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-200x117.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-300x175.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-400x233.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-600x350.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-768x448.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-800x467.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault-1024x597.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Maison-Mere\u00a9\ufe0fJean-Luc-Beaujault.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Como se descortinasse uma paisagem apocal\u00edptica que cada vez mais se aproxima, o espet\u00e1culo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/farm-fatale\/\"><i>Farm Fatalle<\/i><\/a>, do diretor franc\u00eas Philippe Quesne, igualmente nos apresenta uma civiliza\u00e7\u00e3o em frangalhos. Aparentemente herdeiros de um mundo abandonado pelos humanos, um grupo de p\u00e1lidos espantalhos teima em ocupar o pr\u00f3prio tempo com tecnologias voltadas \u00e0 tardia preserva\u00e7\u00e3o de um entorno ambiental que j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Entendendo-se como propriet\u00e1rios de um mundo-fazenda, e n\u00e3o como organismos integrados a um mundo-natureza, tais espantalhos parecem simbolizar o frustrante triunfo da civiliza\u00e7\u00e3o humana sobre um ambiente \u00e1rido e esvaziado, habitado por sons eletr\u00f4nicos de p\u00e1ssaros e despropositadas mem\u00f3rias \u2013 outra vez \u2013 de um antigo dramaturgo ingl\u00eas. E que sentido pode haver em se viver como um espantalho?<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9962\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-1024x717.jpg\" alt=\"Farm Fatale @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49654481761_5ca2914a09_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto algumas obras nos revelam a fal\u00eancia de um imagin\u00e1rio que d\u00e1 seus \u00faltimos suspiros, outras se dedicam a desmontar no\u00e7\u00f5es supostamente est\u00e1veis que h\u00e1 pelo menos cinco s\u00e9culos v\u00eam servindo como pavimento ao artificial edif\u00edcio da modernidade. Descrentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3rica promessa de que, num belo dia, toda a riqueza produzida pela humanidade seria distribu\u00edda igualmente entre os humanos, algumas obras preferem convocar nossas consci\u00eancias a perceber os incont\u00e1veis custos da riqueza fajuta, como mencionou Ailton Krenak.<\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/sabado-descontraido\/\"><i>S\u00e1bado Descontra\u00eddo<\/i><\/a>, a artista ruandense Doroth\u00e9e Munyaneza compartilha mem\u00f3rias pessoais do genoc\u00eddio vivido em seu pa\u00eds de origem em 1994, quando ela tinha apenas 12 anos de idade. Desdobramento da longa instabilidade pol\u00edtica atravessada pela popula\u00e7\u00e3o de Ruanda ap\u00f3s sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 violenta coloniza\u00e7\u00e3o belga, o epis\u00f3dio compartilhado pela artista nos revela, ao adotar a perspectiva dos vencidos, o profundo investimento de algumas na\u00e7\u00f5es europeias \u2013 como, por exemplo, o supostamente her\u00f3ico e democr\u00e1tico Estado franc\u00eas \u2013 sobre a inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de \u00c1frica como um continente pobre e subdesenvolvido. Mas ainda que momentos de tristeza, perplexidade e desola\u00e7\u00e3o inevitavelmente integrem a narrativa de Doroth\u00e9e, h\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para muita for\u00e7a, muita ginga e uma admir\u00e1vel capacidade de ressignificar e atribuir insurgentes sentidos \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria. &#8220;Onde voc\u00ea estava em 1994?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9608\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1024x717.jpg\" alt=\"S\u00e1bado Descontra\u00eddo @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49628571918_8386e0ec86_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Resultado de uma colabora\u00e7\u00e3o entre os artistas brit\u00e2nicos Tim Cowbury e Mark Maughan, o espet\u00e1culo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/o-pedido\/\"><i>O Pedido<\/i><\/a> nos oferece um segundo retrato das rela\u00e7\u00f5es coloniais entre Europa e \u00c1frica, dessa vez enfocando a grave e atual\u00edssima situa\u00e7\u00e3o dos refugiados africanos em continente europeu. A partir de uma situa\u00e7\u00e3o fict\u00edcia constru\u00edda ap\u00f3s uma ampla pesquisa em centros ingleses de atendimento a imigrantes, temos acesso a mais uma inven\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria colonial: a associa\u00e7\u00e3o dos povos explorados a uma atitude violenta que, conforme demonstram passado e presente, tem origem em nossos exploradores. Fazendo uso de di\u00e1logos r\u00e1pidos e argumentos que nem sempre fazem sentido, a obra nos convida a perceber as m\u00faltiplas lacunas e falsas suposi\u00e7\u00f5es que mais ou menos evidentemente constituem as vers\u00f5es hegem\u00f4nicas de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9836\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-1024x717.jpg\" alt=\"O Pedido (The Claim) @Nereu Jr\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49646543566_3c87000da5_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/orlando\/\"><i>ORLANDO<\/i><\/a>, por sua vez, nos apresenta ao binarismo de g\u00eanero como inven\u00e7\u00e3o. Concebida pela su\u00ed\u00e7a Julie Beauvais e pelo franc\u00eas Horace Lundd, a instala\u00e7\u00e3o audiovisual nos permite um olhar generoso e contemplativo em rela\u00e7\u00e3o ao corpo humano e aos significados que a ele, por vezes tacitamente, atribu\u00edmos. Livres para circularmos, ao longo de 50 minutos, entre sete grandes telas de proje\u00e7\u00e3o, recebemos o tempo como d\u00e1diva para deseducar o pr\u00f3prio olhar em rela\u00e7\u00e3o ao outro e a n\u00f3s mesmos, deixando de lado uma limitada concep\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que n\u00e3o pertence nem interessa \u00e0 mat\u00e9ria e \u00e0 natureza, mas somente ao projeto colonial que em nossas terras, assim como em muitas outras, reiteradamente teima em se instalar.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9666\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1024x717.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49632628001_f24d1890cd_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Vindo da \u00cdndia, cujas terras foram colonizadas pela Inglaterra entre 1858 e 1947, o espet\u00e1culo <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/tenha-cuidado\/\"><i>Tenha Cuidado<\/i><\/a>, da artista Mallika Taneja, igualmente nos convida a revisitar concep\u00e7\u00f5es de g\u00eanero enraizadas em nosso tecido social. Dessa vez, entretanto, o convite passa por um encontro imediato com o corpo feminino, progressivamente coberto, em cena, por camadas e mais camadas de preconceitos, imposi\u00e7\u00f5es e expectativas sociais. Tantas camadas, contudo, n\u00e3o s\u00e3o capazes de ofuscar a intelig\u00eancia e a atitude cr\u00edtica da artista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da mulher como um ser fr\u00e1gil e subalternizado. Apoiada na riqueza e na pot\u00eancia do encontro franco com o p\u00fablico e da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o teatral, Mallika se apropria do palco como um espa\u00e7o para inventar outros mundos, assim como chamar nossa aten\u00e7\u00e3o a ineg\u00e1veis semelhan\u00e7as entre contextos geogr\u00e1ficos inicialmente tomados como distantes.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-9923\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-1024x717.jpg\" alt=\"Tenha Cuidado (Be Careful) @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49647833728_fac7e0dae8_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>Alguns dias se passaram desde aquela primeira manh\u00e3. Ainda estamos no longo m\u00eas de mar\u00e7o de 2020 e nos aproximamos, agora, do encerramento da 7\u00aa MITsp &#8211; Mostra Internacional de S\u00e3o Paulo. Pelas ruas da cidade, vemos cada vez mais pessoas usando m\u00e1scaras sobre os pr\u00f3prios narizes e bocas. O sol continua a nascer, os p\u00e1ssaros seguem a cantar, mas j\u00e1 n\u00e3o se pode negar que h\u00e1, de fato, alguma coisa no ar. Em uma nova manh\u00e3 ensolarada de sexta-feira, j\u00e1 n\u00e3o nos encontramos mais nas bordas da avenida Paulista, mas no bairro Ipiranga, situado na zona sul da cidade. Sem ingressos nem catracas, acessamos os fundos da sede da Cia. de Teatro Heli\u00f3polis e talvez ali encontremos, finalmente, a grande \u00e1rvore que Ailton Krenak buscava ainda no in\u00edcio da programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um amplo quintal de uma casa centen\u00e1ria, testemunhamos o encerramento do laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/labexp3-presencas-incomodas-onde-esta-rebeldia\/\">Presen\u00e7as Inc\u00f4modas: Onde Est\u00e1 a Rebeldia?<\/a>, conduzido pela artista e ativista boliviana Maria Galindo, em colabora\u00e7\u00e3o com a brasileira Fany Magalh\u00e3es. Diante de um pequeno grupo de pessoas, Maria Galindo apresenta a performance <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/a-jaula-invisivel\/\"><i>A Jaula Invis\u00edvel<\/i><\/a>, ao longo da qual problematiza variados aspectos do que se poderia entender como &#8220;feminismo liberal&#8221;. Como complemento \u00e0 ideia de empoderamento, bastante frequente no debate feminista, a artista destaca a import\u00e2ncia de outro processo: o desempoderamento daqueles que, ao longo de sucessivos s\u00e9culos, v\u00eam conduzindo o mundo com gestos de senhor.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-large wp-image-10147\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1024x717.jpg\" alt=\"A Jaula Invis\u00edvel @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Em vez de buscarmos igualdade em rela\u00e7\u00e3o aos poderosos, muitas vezes reproduzindo, para isso, suas pr\u00e1ticas de explora\u00e7\u00e3o e silenciamento, o que Maria Galindo defende \u00e9 a import\u00e2ncia de revermos os rumos da humanidade, e ela afirma a necessidade de reinven\u00e7\u00e3o do que se entende como ser humano. Entre as pistas lan\u00e7adas em dire\u00e7\u00e3o a esse caminho, figura, por exemplo, uma cr\u00edtica \u00e1cida ao nacionalismo e os Estados Nacionais, ali entendidos como meros instrumentos de manuten\u00e7\u00e3o da ordem colonial. Conforme nos lembra a artista, acima de pertencer a tiranos Estados, devemos nos vincular aos rios, plan\u00edcies e montanhas que verdadeiramente nos alimentam.<\/p>\n<p>Tendo j\u00e1 h\u00e1 alguns anos incorporado ao pr\u00f3prio escopo um amplo e complexo debate sobre ideias e pr\u00e1ticas de descoloniza\u00e7\u00e3o, a mostra tem \u00e0 sua frente um horizonte de grandes desafios e incertezas. Entre riquezas fajutas e emergentes, a experi\u00eancia da 7\u00aa MITsp nos d\u00e1 a ver, entretanto, diferentes aspectos de tortuosos caminhos a serem trilhados daqui em diante. Ao mesmo tempo em que busca se inserir e afirmar sua import\u00e2ncia em meio a determinado mercado internacional de artes c\u00eanicas, talvez caiba tamb\u00e9m \u00e0 mostra a miss\u00e3o de reinventar o pr\u00f3prio lugar nesse circuito, considerando sobretudo a terra onde vivemos e os corpos que vivem nessa terra.<\/p>\n<p>Qual seria, ent\u00e3o, o lugar da produ\u00e7\u00e3o brasileira dentro da mostra internacional? Que caminhos precisam ser abertos para fortalecer, dentro da mostra, a presen\u00e7a de espet\u00e1culos produzidos em outros pontos do Sul Global? De que modo o evento pode represar ou ainda criar outras correntes em rela\u00e7\u00e3o ao hist\u00f3rico processo de coloniza\u00e7\u00e3o cultural europeia sobre o nosso territ\u00f3rio e a nossa gente? Ser\u00e1 poss\u00edvel, a esse respeito, permanecer em di\u00e1logo com o continente europeu, mas criar outros imagin\u00e1rios sobre ele, que n\u00e3o o aspecto her\u00f3ico que ainda hoje, muitas vezes, se ensina e aprende nas escolas do Sul? Superando, em certo sentido, a artificial divis\u00e3o do mundo em Estados Nacionais, o que parece certo, em meio a tantas incertezas, \u00e9 o poder de estabelecer di\u00e1logos e pontes entre aquelas e aqueles que apresentam, diante do mundo e das artes, uma atitude anti-colonial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reinventar a riqueza, redistribuir o poder por Daniel Toledo &nbsp; I Estamos em S\u00e3o Paulo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":10222,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[100,99,98,169,167,107,108,105,102,106],"yst_prominent_words":[],"acf":{"synopsis":"","age_restriction":"0","duration":"","director":"","teaser_url":"","payment_type":"free","purchase_url":"","places":false,"activities":"","payment_info":"","live":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10224"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10224"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10224\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10224"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=10224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}