{"id":10149,"date":"2020-03-23T19:40:08","date_gmt":"2020-03-23T22:40:08","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/?p=10149"},"modified":"2020-03-23T19:40:08","modified_gmt":"2020-03-23T22:40:08","slug":"oficinas-de-desempoderamento-por-daniel-toledo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2020\/oficinas-de-desempoderamento-por-daniel-toledo\/","title":{"rendered":"Oficinas de desempoderamento <h6>por Daniel Toledo<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Oficinas de desempoderamento<\/h3>\n<h6>por Daniel Toledo<\/h6>\n<p><img class=\"alignnone wp-image-10147 size-large\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1024x717.jpg\" alt=\"A Jaula Invis\u00edvel @Guto Muniz\" width=\"1024\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1024x717.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1200x840.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/49658165052_459f20566e_o-1536x1075.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>Estamos no Brasil. Em uma das principais ruas do bairro Ipiranga, situado na zona sul de S\u00e3o Paulo, existe um casar\u00e3o amarelo cuja fachada sinaliza o ano de 1927. Ali viveu, durante boa parte de sua intensa exist\u00eancia, a artista das letras, da m\u00fasica e da cena Maria Jos\u00e9 de Carvalho (1919-1995). Para al\u00e9m de circular entre universidades, conservat\u00f3rios, teatros e casas de \u00f3pera, entretanto, Maria Jos\u00e9 ficou conhecida por promover, nesse mesmo casar\u00e3o, uma s\u00e9rie de saraus e encontros que marcaram a vida cultural da regi\u00e3o na segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O ano \u00e9 2020. O endere\u00e7o \u00e9 o mesmo, mas agora estamos na Casa de Teatro Maria Jos\u00e9 de Carvalho, que h\u00e1 dez anos funciona como sede da Companhia de Teatro Heli\u00f3polis, fundada por jovens artistas da maior favela de S\u00e3o Paulo, situada a poucos minutos dali. Poder\u00edamos estar, por outro lado, na casa La Virgen de los Deseos, em La Paz, ou ainda na casa Los Deseos de la Virgen, em Santa Cruz. \u00c9 nessas duas cidades bolivianas que funcionam as sedes do coletivo Mujeres Creando, em atividade desde 1992. Seja onde for, estamos na Am\u00e9rica do Sul, e por alguns instantes podemos respirar ares que nos lembram Abya Yala, um dos muitos nomes atribu\u00eddos ao continente onde est\u00e3o fincadas nossas ra\u00edzes, desde quando o mesmo ainda n\u00e3o havia sido invadido por colonizadores europeus.<\/p>\n<p>Estamos em S\u00e3o Paulo. Caminhando a partir da esta\u00e7\u00e3o metr\u00f4 Sacom\u00e3, podemos seguir por alguns quarteir\u00f5es at\u00e9 avistar o centen\u00e1rio casar\u00e3o amarelo. Ao encontr\u00e1-lo, podemos entrar pelo port\u00e3o mais \u00e0 esquerda, atravessar a sala situada no piso t\u00e9rreo do edif\u00edcio e nos deparar, mais adiante, com um espa\u00e7oso terreiro onde se destacam algumas \u00e1rvores que possivelmente antecedem a constru\u00e7\u00e3o da casa. No fundo do terreiro h\u00e1 um amplo galp\u00e3o, integrado \u00e0 \u00e1rea externa por grandes portas de vidro que permitem a entrada de luz natural. \u00c9 nesse galp\u00e3o que acontece, em uma manh\u00e3 de sexta-feira, a performance <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/a-jaula-invisivel\/\"><i>A Jaula Invis\u00edvel<\/i><\/a>, realizada pela artista das letras, da cena e das ruas Maria Galindo, nascida em La Paz, na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Reunidos no galp\u00e3o, n\u00e3o nos organizamos em fileiras, mas criamos juntos um c\u00edrculo dentro do qual acontece a performance-protesto de Maria Galindo. Presa, desde o in\u00edcio, em uma jaula port\u00e1til com estrutura de bambu e malha de a\u00e7o, a artista adentra o espa\u00e7o, movendo-se como quem carrega, ainda que involuntariamente, quatro paredes em torno de si. De dentro da jaula, ela se comunica com o mundo externo, entregando a algumas integrantes do p\u00fablico cartazes com ilustra\u00e7\u00f5es e dizeres feitos \u00e0 m\u00e3o, como os que frequentemente vemos em protestos em diferentes partes do globo. &#8220;Quem me ajuda?&#8221;, pergunta, ao revelar cada novo cartaz e reivindica\u00e7\u00e3o, sendo prontamente atendida por aqueles que, mesmo situados do outro lado da malha de a\u00e7o, recebem atentamente seu olhar e suas palavras.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que eventualmente se poderia esperar, Maria Galindo n\u00e3o se apresenta com os coloridos trajes tipicamente associados \u00e0s mulheres de seu pa\u00eds natal. Em vez disso, veste-se de preto e arrisca-se em impressionantes sapatos de salto alto. A eles, combina uma maquiagem pesada e um corte de cabelo que remete \u00e0s est\u00e9ticas punk e anarquista. Sobre o colo do vestido preto, no entanto, traz alguns colares vermelhos \u2013 esses, sim, de aspecto artesanal, como se tivessem sido feitos \u00e0 m\u00e3o por mulheres comuns, populares, da rua, \u00e0s quais, veremos mais adiante, a artista constantemente se refere em suas reflex\u00f5es sobre o feminismo contempor\u00e2neo. N\u00e3o se pretende, em sua performance, refor\u00e7ar qualquer tipo de estere\u00f3tipo ou fronteira identit\u00e1ria, mas justamente romp\u00ea-los todos.<\/p>\n<p>Enquanto Maria Galindo continuamente gira e arrasta a jaula, por vezes parecendo estar prestes a se libertar, percebemos uma cr\u00edtica franca \u00e0 falta de efetivo acesso de muitos corpos \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que organizam a sociedade. Ouvimos, atrav\u00e9s das grades, sobre uma luta que visa alcan\u00e7ar a soberania de todos os corpos, problematizando as ra\u00edzes coloniais de um c\u00f3digo penal que jamais produz justi\u00e7a, mas sempre c\u00e1rcere. E parece ser tanto aos c\u00e1rceres concretos quanto aos subjetivos que se refere <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/a-jaula-invisivel\/\"><i>A Jaula Invis\u00edvel<\/i><\/a>, constituindo-se como um obra de m\u00faltiplos significados. A partir de um discurso bastante direto, e ao mesmo tempo repleto de sentidos, a performer se recusa, por exemplo, a &#8220;encarcerar-se&#8221; \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pertencimento a pa\u00edses ou estados \u2013 no lugar disso, defende que pertencemos a rios, montanhas, parque e desertos.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, quando muitas das espectadoras j\u00e1 t\u00eam cartazes em punho, fica evidente o enfoque da artista sobre a quest\u00e3o feminista, ali defendida como um &#8220;projeto de sentidos&#8221; e n\u00e3o somente um &#8220;projeto de direitos&#8221;. Ao mencionar a hist\u00f3ria colonial que aproxima brasileiras e bolivianas, assim como os efeitos dessa hist\u00f3ria sobre as ideias de Estado, justi\u00e7a e igualdade, Maria Galindo refuta as propostas de um feminismo submetido \u00e0 l\u00f3gica liberal, ressaltando a import\u00e2ncia de transformar o sistema, em vez de meramente incluir-se nele, a partir de imagens supostamente &#8220;emancipat\u00f3rias&#8221;.<\/p>\n<p>Em seu vigoroso discurso enjaulado, a artista problematiza ainda os crit\u00e9rios meramente biol\u00f3gicos que frequentemente condicionam nossas compreens\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e a pr\u00f3pria estrutura\u00e7\u00e3o das sociedades contempor\u00e2neas. &#8220;De que falamos quando falamos de mulheres?&#8221;, questiona, considerando, para al\u00e9m das evidentes diferen\u00e7as de idade, origem e classe, os variados contratos de matrim\u00f4nio e as m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es com ditaduras est\u00e9ticas e sexuais. Como uma insubordinada atra\u00e7\u00e3o de circo, a performer bate a jaula contra o ch\u00e3o, reiterando o cansa\u00e7o em proferir discursos &#8220;que n\u00e3o constituem realidade social&#8221; e integrar lutas &#8220;que parecem n\u00e3o se acumular&#8221;, ambos condenados, a partir de sua observa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a repetir-se ciclicamente.<\/p>\n<p>Francamente dedicada, ent\u00e3o, \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de novos gestos e vocabul\u00e1rios para a luta pol\u00edtica, Maria Galindo ressalta, por exemplo, a dimens\u00e3o exclusivista das democracias contempor\u00e2neas, entendendo-as como meras &#8220;machocracias&#8221;. Questiona, mais adiante, o &#8220;feminismo das estrelas de Hollywood&#8221;, propondo um projeto de luta capaz de ler, para al\u00e9m de conhecidas refer\u00eancias hegem\u00f4nicas, tamb\u00e9m a pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o, as ruas, os corpos das pr\u00f3prias m\u00e3es e at\u00e9 mesmo os an\u00fancios de emprego nos jornais. &#8220;Um feminismo artesanal&#8221;, resume, em busca de uma nova terminologia.<\/p>\n<p>No decorrer do seu discurso, repleto ainda de perguntas e sil\u00eancios, a artista busca ultrapassar a ideia de empoderamento, t\u00e3o frequente entre alguns discursos pol\u00edticos contempor\u00e2neos, a artista anuncia, com boas doses de assertividade e imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a import\u00e2ncia de se realizar &#8220;oficinas de desempoderamento&#8221;, dedicadas n\u00e3o mais \u00e0s mulheres, mas, sim, a banqueiros, policiais, donos de museus e tamb\u00e9m pais de fam\u00edlia. N\u00e3o basta, portanto, o empoderamento, mas h\u00e1 de haver o movimento contr\u00e1rio, capaz de questionar e redistribuir o poder. E algu\u00e9m tem que ceder.<\/p>\n<p>Ao encarar e escancarar algumas das limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e discursivas da quest\u00e3o feminista, a artista e ativista boliviana nos revela a complexidade de uma luta que, em sua vis\u00e3o, n\u00e3o deve buscar somente maior inser\u00e7\u00e3o das mulheres no sistema-mundo vigente, mas, em lugar disso, visar a transforma\u00e7\u00e3o efetiva das hier\u00e1rquicas estruturas pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas e sexuais que, apesar de tanta luta e tantas emerg\u00eancias, ainda em 2020 nos regem, mas quem sabe no f\u00f4lego de um \u00faltimo suspiro que antev\u00ea a esperada transforma\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Apresentada pela primeira vez no evento El Parlamento de los Cuerpos: los Parlamentos Imposibles, sob curadoria de Paul Preciado, Viktor Neumann e Andreas Angelidakis, a performance integra, dessa vez, a programa\u00e7\u00e3o de encerramento do Laborat\u00f3rio de Experimenta\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/mitsp.org\/2020\/labexp3-presencas-incomodas-onde-esta-rebeldia\/\">LABEXP3 &#8211; Presen\u00e7as Inc\u00f4modas: Onde est\u00e1 a rebeldia?<\/a>, conduzido por Maria Galindo em colabora\u00e7\u00e3o com a performer e artista visual brasileira Fany Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Realizada no \u00faltimo dos quatro dias do laborat\u00f3rio, a performance da artista boliviana foi sucedida de exerc\u00edcios apresentados pelas participantes do encontro, assim como uma conversa final mediada pela pesquisadora e curadora do encontro e do eixo A\u00e7\u00f5es Pedag\u00f3gicas da MITsp, Maria Fernanda Vomero. Cada qual \u00e0 sua maneira, as performances que se seguiram \u00e0 obra de Maria Galindo aconteceram no terreiro da casa, trazendo tamb\u00e9m reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es em torno da luta e da afirma\u00e7\u00e3o da soberania dos corpos em rela\u00e7\u00e3o aos ditames do poder, do Estado e da religi\u00e3o. Tendo como recorrentes elementos os pr\u00f3prios corpos, assim como cadeiras de diferentes tipos e pequenos exemplares da B\u00edblia, os trabalhos chamaram aten\u00e7\u00e3o \u00e0 objetifica\u00e7\u00e3o e subalterniza\u00e7\u00e3o do corpo feminino na sociedade e no discursos que sustentaram a coloniza\u00e7\u00e3o do nosso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Como \u00faltimo gesto antes da densa e contemplativa conversa que encerrou o encontro, a artista Fany Magalh\u00e3es aplicou, sobre uma parede do terreiro, uma s\u00e9rie de lambes coloridos que chamam aten\u00e7\u00e3o ao silenciamento das mulheres em nossa hist\u00f3ria e realidade social. Afixados, agora, de modo permanente na antiga casa de Maria Jos\u00e9 de Carvalho, atual sede da Companhia de Teatro Heli\u00f3polis, a s\u00e9rie de lambes se oferece daqui em diante como mem\u00f3ria deste encontro, ganhando certamente novos sentidos a cada corpo que, por suas perguntas e imagens, se deixar provocar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oficinas de desempoderamento por Daniel Toledo &nbsp; I Estamos no Brasil. 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