{"id":5014,"date":"2019-03-23T14:12:32","date_gmt":"2019-03-23T17:12:32","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=5014"},"modified":"2019-03-23T14:13:18","modified_gmt":"2019-03-23T17:13:18","slug":"netuno-travestruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/netuno-travestruz\/","title":{"rendered":"Netuno \u00e9 travestruz <h6>Por Dodi Leal<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Netuno \u00e9 travestruz<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <em>MDLSX<\/em><\/h4>\n<p>Por Dodi Leal<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5015\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067.jpg\" alt=\"MDLSX\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Quais os fundamentos de programa\u00e7\u00e3o visual e sonora das monstruosidades em cena? Em <em>MDLSX<\/em>, Silvia Calderoni escancara-se ao p\u00fablico e compartilha conosco seu percurso investigativo a respeito de como os saberes m\u00e9dico-patol\u00f3gicos controlam as corporalidades por seu vocabul\u00e1rio de g\u00eanero. Em sua transpofagia \u00e0 la italiana, a pe\u00e7a performativa da companhia Motus (fundada em 1991 na cidade de Rimini) instaura um espa\u00e7o c\u00eanico deixando n\u00edtido que, enquanto o pensamento da medicina diagn\u00f3stica visa a tutela normalizadora de desvios dos padr\u00f5es sociais, as desobedi\u00eancias de g\u00eanero s\u00e3o da ordem do fazer art\u00edstico.<\/p>\n<p>Menstruada ou monstruada, a cena monstra que vemos em <em>MDLSX <\/em>\u00e9 de um peixinho que cresceu e hoje, Netuno, nos convoca a insurgir contra a cisnormatividade. A dan\u00e7a do deus romano \u00e9 muscular, a magreza das v\u00e9rtebras saltadas e a pesquisa de movimento se associa \u00e0s sugestividades c\u00eanicas do suti\u00e3 te\u00f3rico, do p\u00f3s-porn\u00f4 e da pelugem suvaquiana e virilar. Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, jogador de futebol e dan\u00e7arino do cotidiano. O enunciado discursivo cita Apola masculina e Dion\u00edsia feminina, mas \u00e9 netuniana a for\u00e7a c\u00eanica que desenha o corpo de Silvia no espa\u00e7o. O campo on\u00edrico dos mares vibrante nas \u00e1guas da proje\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo tira a performance de g\u00eanero do imagin\u00e1rio escultural das artes pl\u00e1sticas e o desloca para o mergulho e a nata\u00e7\u00e3o, a dan\u00e7a no mar induz musculaturas e desbanca qualquer receitu\u00e1rio hormonal. Um tapete laminado em forma de tri\u00e2ngulo, apresentado simultaneamente \u00e0 proje\u00e7\u00e3o, \u00e9 logo rearranjado pelo Silvia para formar seu <em>traje de sereio<\/em>. Sublinhemos o enunciado est\u00e9tico da pe\u00e7a como se Silvia nos dissesse: <strong>SEREI O<\/strong>, n\u00e3o A. E voc\u00ea, o que ser\u00e1?<\/p>\n<p>Os dispositivos de ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica de g\u00eanero da encena\u00e7\u00e3o combinam o DJ-set com bolas e lanternas de LED. A mesa com lumin\u00e1rias e o v\u00eddeo em <em>looping<\/em> de um c\u00edrculo hipn\u00f3tico s\u00e3o trilhas visuais que estimulam a dan\u00e7a da cena, bem como as reflex\u00f5es pr\u00e1ticas<em> in loco<\/em> sobre as din\u00e2micas de figurino e suas emperragens: z\u00edper que n\u00e3o fecha, enchimento de suti\u00e3, calcinha\/tanguinha com pau de pelos. Luzvesti \u00e9 um conceito que n\u00e3o se reduz ao ox\u00edmoro visual entre luz e sombra desenhando as desobedi\u00eancias de g\u00eanero no corpo. \u00c9 tamb\u00e9m sobre rever os contratos sexuais que legitimam a penetra\u00e7\u00e3o e o dep\u00f3sito de s\u00eamen como normas de afeto. Pois bem, se na ilumina\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica a <strong>luz zenital<\/strong> \u00e9 a incid\u00eancia solar em um ambiente por meio de pequenas ou grandes aberturas na cobertura (como claraboias, \u00e1trios e c\u00fapulas), a ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica de g\u00eanero em <em>MDLSX<\/em> \u00e9 uma <strong>luz genital<\/strong>: um raio de luz verde simula um sensor de movimento a laser; com o aux\u00edlio de um laqu\u00ea, Silvia torna vis\u00edvel a luz que copula. Luz que penetra a vulva tamb\u00e9m pode produzir orgasmos em pixels? A intera\u00e7\u00e3o ininterrupta entre efeitos de \u00e1udio a partir de grava\u00e7\u00e3o de voz em microfone com os efeitos de v\u00eddeo produzidos com grava\u00e7\u00f5es com c\u00e2mera ao vivo e outras pr\u00e9vias (\u00e0s vezes sobrepostas) nos fazem perceber que a digitalidade contrassexual na qual a luz se insere n\u00e3o apenas provoca a dial\u00e9tica corpo-tela mas nos faz perceber que, a genitalidade e a penetra\u00e7\u00e3o deixaram de ser fun\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os genitais h\u00e1 muito tempo, se \u00e9 que um dia foram. A arte tem sido mais genital que os genitais, a subjetividade e o embate de ideias t\u00eam sido mais penetrativas que a penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img class=\"size-full wp-image-5016 aligncenter\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1.jpg\" alt=\"MDLSX\" width=\"591\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><\/p>\n<p>Hormoniza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m sobre reaprender a caminhar. O desengon\u00e7amento corporal que vemos em cena nos remete ao avestruz, maior ave do mundo (n\u00e3o \u00e9 a ema!). Se os relatos de que a altura e a fineza do corpo de Silvia o aproximaram do apelido \u201ct\u00e1bua de passar roupas\u201d, o termo correspondente que cunhamos nas transgeneridades brasileiras \u00e9 <strong>travestruz (travesti + avestruz). <\/strong>O peixinho c\u00eanico \u00e9 uma ave dos mares que dan\u00e7a ao desobedecer g\u00eanero. A figura de luzvestruz tamb\u00e9m cabe: quando ele quase enfia sua cabe\u00e7a dentro de um refletor de luz instalado no palco sob um trip\u00e9 n\u00e3o s\u00e3o mais os efeitos neon ou festa da ilumina\u00e7\u00e3o que definem a visualidade c\u00eanica de g\u00eanero, mas sim a monstruosidade desengon\u00e7ada da estrutura corporal formada no jogo entre luz e sobra.<\/p>\n<p>Se a medicina trata a subjetividade como uma mala de viagem (como se houvesse um g\u00eanero no endere\u00e7o de partida e outro no destino final), em <em>MDLSX <\/em>a mala n\u00e3o pode ser despachada. Ou foi <strong>extra<em>viada<\/em><\/strong>. A arte c\u00eanica nos ensina aqui que as transgeneridades n\u00e3o se tratam de um processo de disforia de g\u00eanero, mas sim de <em>euforia de g\u00eanero<\/em>. As grandezas de Paul Preciado e Alejandro Jodorowsky trazidas juntas \u00e0 cena (o di\u00e1logo entre eles \u00e9 interessante, mas j\u00e1 n\u00e3o exatamente atual), se conjugam com provoca\u00e7\u00f5es interessant\u00edssimas como o pr\u00f3prio t\u00edtulo da pe\u00e7a que ironiza as siglas fracassadas LGBT, LGBTIA+ LGB\u2026 todas elas assentadas em processos cardapialistas, monossexuais e em escala. Est\u00e3o todas \u00e0 servi\u00e7o da cisgeneridade, como se pessoas trans n\u00e3o tiv\u00e9ssemos pr\u00e1ticas sexuais. Dissid\u00eancias sexuais e desobedi\u00eancias de g\u00eanero n\u00e3o s\u00e3o processos excludentes e a CISciedade pouco tematiza o <em>gostar<\/em> e o <em>n\u00e3o gostar<\/em> como processos subjetivos e sociais. N\u00e3o \u00e9, enfim, o frisson de meio-sexo ou meio-g\u00eanero que tem mais impacto no t\u00edtulo <em>MDLSX<\/em>, mas sim o zoar com este pensamento em letrinhas (a maioria consoantes, pouqu\u00edssimas vogais), j\u00e1 bem defasado: sua naturaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos faz perceber que romper ou n\u00e3o com as normas de sexualidade e g\u00eanero \u00e9 algo que diz sobre todas as corpas, sem exce\u00e7\u00e3o. O lema aqui \u00e9 n\u00edtido: chega de acrescentar letrinhas, percebamos que as transgeneridades s\u00e3o um Direito Humano. E todas as tais letrinhas s\u00e3o formas trans.<\/p>\n<p>Na mitologia romana, Netuno \u00e9 criador de cavalos. Na mitologia italiana de <em>MDLSX<\/em>, Netuno \u00e9 um travestruz que cavalga na mala criada pela medicina para nomear as nossas corpas. Os fundamentos de programa\u00e7\u00e3o visual e sonora das monstruosidades que o p\u00fablico \u00e9 convocado a fruir n\u00e3o s\u00e3o m\u00e9dico-patol\u00f3gicos e n\u00e3o est\u00e3o apenas na corporalidade da cena, se indissociam da corporalidade da\/o espectador\/a e de seu cotidiano. Monstruar g\u00eanero, na cena e no cotidiano, \u00e9 perceber que a l\u00f3gica computacional de som e imagem est\u00e1 em constante <em>tens\u00e3o<\/em> e constante<em> tes\u00e3o<\/em> com a l\u00f3gica est\u00e9tica das pol\u00edticas de <em>ch\u00eanero<\/em>, de <em>z\u00eanero<\/em>, de<em> f\u00eanero<\/em> ou qualquer outra letrinha insossa ou sonsa que se queira p\u00f4r na frente.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, um olhar <em>de trans pra frente<\/em> tamb\u00e9m depende de voc\u00ea, leitor\/a da cr\u00edtica, leitor\/a da cena. Luzvestruzes da teatra.Netuno \u00e9 travestruz &lt;h6&gt;Por Dodi Leal&lt;\/h6&gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Netuno \u00e9 travestruz Cr\u00edtica do espet\u00e1culo MDLSX Por Dodi Leal Quais os fundamentos de programa\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5015,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[82],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5014"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5014"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5014\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5014"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=5014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}