{"id":5004,"date":"2019-03-23T13:28:56","date_gmt":"2019-03-23T16:28:56","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=5004"},"modified":"2019-03-23T13:28:56","modified_gmt":"2019-03-23T16:28:56","slug":"mas-o-impossivel-vira-e-o-impensavel-e-inevitavel-por-juliano-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/mas-o-impossivel-vira-e-o-impensavel-e-inevitavel-por-juliano-gomes\/","title":{"rendered":"Mas o imposs\u00edvel vir\u00e1 e o impens\u00e1vel \u00e9 inevit\u00e1vel <h6>Por Juliano Gomes<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Mas o imposs\u00edvel vir\u00e1 e o impens\u00e1vel \u00e9 inevit\u00e1vel<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <em>MDLSX<\/em><\/h4>\n<p>Por Juliano Gomes<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5005\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086.jpg\" alt=\"MDLSX\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>De cara, este trabalho da companhia Motus se diferencia, em pelo menos dois aspectos, de uma tend\u00eancia do teatro documental ligado \u00e0s quest\u00f5es \u00edntimas e pol\u00edticas. O primeiro \u00e9 que apesar de tecer uma precisa an\u00e1lise das dimens\u00f5es de viv\u00eancias da desobedi\u00eancia de g\u00eanero, sem esquivar dos efeitos cru\u00e9is a que os corpos desobedientes s\u00e3o submetidos, <em>MDLSX<\/em> recusa frontalmente o tom denuncioso e a produ\u00e7\u00e3o de um corpo-v\u00edtima na cena.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o da montagem \u00e9 criar uma esp\u00e9cie de festa-ritual mediada principalmente pelo uso intenso de m\u00fasicas pop e do c\u00edrculo, no fundo do palco, onde s\u00e3o projetados v\u00eddeos. A pe\u00e7a opera por constantes fus\u00f5es e sobreposi\u00e7\u00f5es, transformando em procedimento conceitual as ideias relacionadas \u00e0 pol\u00edtica de g\u00eanero. Os signos masculinos e femininos do corpo da atriz s\u00e3o acompanhados pela proje\u00e7\u00e3o de imagens pr\u00e9-gravadas combinadas e imagens filmadas ao vivo, m\u00fasicas executadas pela atriz DJ, outras inseridas pela equipe t\u00e9cnica da pe\u00e7a e descri\u00e7\u00f5es realistas com declara\u00e7\u00f5es recitadas. Todo expediente aponta para a\u00e7\u00f5es que buscam a combina\u00e7\u00e3o ef\u00eamera, mutante, para constituir a urdidura do trabalho.<\/p>\n<p>O segundo aspecto \u00e9 a crucial zona de opacidade que o trabalho institui. Quebrando a l\u00f3gica de um acordo transparente com a plateia, onde se acorda tacitamente dizer somente \u201cverdades biogr\u00e1ficas\u201d, aqui, em dado momento, percebemos que as datas dos acontecimentos narrados no texto n\u00e3o batem com uma biografia poss\u00edvel da atriz Silvia Calderoni. O discurso \u00e9 propositalmente impuro, assim como as demais estrat\u00e9gias de composi\u00e7\u00e3o. Quebra-se assim uma rela\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel que vem sendo fortalecida entre pe\u00e7a e plateia, em especial com assuntos e corpos n\u00e3o cisbrancos, onde estes obrigatoriamente falar\u00e3o \u201ca verdade\u201d, contar\u00e3o sua hist\u00f3ria invisibilizada. Essa tend\u00eancia reflete uma das principais caracter\u00edsticas do <em>ethos<\/em> neoliberal, que \u00e9 o \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativas, n\u00e3o h\u00e1 outras formas\u201d.<\/p>\n<p>O inimigo aqui \u00e9 a normatividade em todas as suas dimens\u00f5es. Portanto, a pe\u00e7a se estrutura como uma esp\u00e9cie de festa, fren\u00e9tica e melanc\u00f3lica, que trabalha por fazer variar seus elementos c\u00eanicos, criando modos expressivos mutantes a cada novo momento. <em>MDLSX<\/em> inventa sua pr\u00f3pria forma, ora com corpo fren\u00e9tico, ora parada, fundindo mem\u00f3rias, fic\u00e7\u00f5es, teoria, manifestos. Diversos elementos c\u00eanicos tem uma caracter\u00edstica evanescente e uma esp\u00e9cie de fun\u00e7\u00e3o dupla: o spray de cabelo, que fixa a forma, e logo depois se desfaz, e que, permite ver, em combina\u00e7\u00e3o, a luz laser, quando a sala est\u00e1 escura.<\/p>\n<p><img class=\"size-full wp-image-5006 aligncenter\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313.jpg\" alt=\"MDLSX\" width=\"591\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><\/p>\n<p>A coer\u00eancia do gesto de operar opacamente \u00e9 a de conceber afinal hist\u00f3rias imposs\u00edveis. Como diz a frase do fil\u00f3sofo Paul Preciado no programa da pe\u00e7a: a mudan\u00e7a necess\u00e1ria \u00e9 t\u00e3o profunda que a chamamos de imposs\u00edvel \/ t\u00e3o profundamente que a chamamos de impens\u00e1vel. Mas o imposs\u00edvel vir\u00e1 e o impens\u00e1vel \u00e9 inevit\u00e1vel \/ (O feminismo n\u00e3o \u00e9 um humanismo)\u201d. Esse programa pol\u00edtico pede nada menos do que desordenar os sistemas expressivos, os modos de sentir, falar, ver, ter prazer, encenar e tudo mais.<\/p>\n<p>As m\u00fasicas pops tocadas com a delicadeza e precis\u00e3o de uma DJ ressaltam n\u00e3o s\u00f3 uma dimens\u00e3o r\u00edtmica do trabalho que \u00e9 seu tra\u00e7o essencial, mas como tamb\u00e9m essas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma esp\u00e9cie de coro ao drama principal. A dramaturgia do espet\u00e1culo \u00e9 a da varia\u00e7\u00e3o de tons, intensidades, uma modula\u00e7\u00e3o fina do que eventualmente parece acess\u00f3rio, uma urdidura da diferen\u00e7a, como m\u00e9todo. Muitas vezes a \u201cnarrativa\u201d est\u00e1 em segundo plano (mas quem disse qual plano deve ser primeiro?) como na can\u00e7\u00e3o <em>Despair<\/em> do grupo Yeah Yeah Yeahs. Esta faixa parece conter o matiz emocional do trabalho \u2013 essa mistura de acelera\u00e7\u00e3o desesperada com um cora\u00e7\u00e3o doce e mel\u00f3dico &#8211; e uma letra que narra uma linha po\u00e9tica que pode facilmente ser relacionada a este romance de desforma\u00e7\u00e3o do desabrochar de uma jovem dissidente de g\u00eanero.\u00a0 (N\u00e3o se desespere, voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed \/ do come\u00e7o ao meio ao fim \/ N\u00e3o se desespere, voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed). Viver e encarar a indefini\u00e7\u00e3o constituinte \u00e9 se aproximar a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o existir, \u00e9 viver o imposs\u00edvel, o inexist\u00edvel, encarn\u00e1-lo. \u00c9 este o centro dram\u00e1tico de <em>MDLSX<\/em> esse manejo do existir e n\u00e3o existir, performado atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es de combina\u00e7\u00e3o, fus\u00e3o, composi\u00e7\u00e3o. Isso, com a vitalidade de uma festa, e a mortalidade historicamente inerente de um corpo dissidente, desdobrado em pot\u00eancia, numa pe\u00e7a que, deliberadamente n\u00e3o acaba.<\/p>\n<p>E quando nossas palmas ao final, disparam o dispositivo que muda a ilumina\u00e7\u00e3o pelo nosso est\u00edmulo sonoro, o ciclo de interrela\u00e7\u00f5es alteradoras se confirma e se expande, revelando a alegria latente do \u201cn\u00e3o humano\u201d colocado em conex\u00e3o direta conosco. Humanismo \u00e9 xar\u00e1 da normatividade. O imposs\u00edvel e o impens\u00e1vel sempre estiveram por aqui, \u00e9 quest\u00e3o de coragem, prazer, energia e exerc\u00edcio, desej\u00e1-los.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas o imposs\u00edvel vir\u00e1 e o impens\u00e1vel \u00e9 inevit\u00e1vel Cr\u00edtica do espet\u00e1culo MDLSX Por Juliano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5005,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[82],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5004"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5004"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5004\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5004"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5004"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5004"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=5004"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}