{"id":4999,"date":"2019-03-23T13:07:35","date_gmt":"2019-03-23T16:07:35","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4999"},"modified":"2019-03-23T13:07:35","modified_gmt":"2019-03-23T16:07:35","slug":"vulva-e-bruxa-por-ana-bernstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/vulva-e-bruxa-por-ana-bernstein\/","title":{"rendered":"A vulva e a bruxa <h6>Por Ana Bernstein<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>A vulva e a bruxa<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <em>Vulva<\/em><\/h4>\n<p>Por Ana Bernstein<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5000\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721.jpg\" alt=\"V:U:L:V:A Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8721.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Vulva, concebido e dirigido por Mariana Senne, traz para a cena duas abordagens distintas sobre a desigualdade do g\u00eanero. A primeira explora o lugar simb\u00f3lico da vulva no pensamento e na cultura patriarcal ocidental, a partir da leitura das obras de Liv Str\u00f6mquist, A origem do mundo &#8211; uma hist\u00f3ria cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado e da alem\u00e3 Mithu M. Sanyal, Vulva \u2013 A Revela\u00e7\u00e3o do Sexo Invis\u00edvel. O processo de cria\u00e7\u00e3o incluiu tamb\u00e9m a realiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de conversas entre mulheres durante uma resid\u00eancia art\u00edstica, a exemplo dos processos de conscientiza\u00e7\u00e3o dos grupos feministas norte-americanos dos anos 1970. Foi a partir das discuss\u00f5es nesses grupos que surgiu o lema feminista \u201co pessoal \u00e9 pol\u00edtico&#8221; e que o debate sobre o corpo se tornou central para entender a domina\u00e7\u00e3o patriarcal e o lugar social das mulheres. Nas pr\u00e1ticas art\u00edsticas dos anos 1970, o corpo constituiu-se n\u00e3o s\u00f3 como tema, mas como materialidade, instrumento e objeto de trabalho; seu uso configura-se, sobretudo, como ato pol\u00edtico, um modo das mulheres retomarem seus corpos colonizados pelo patriarcado.<\/p>\n<p>Algumas artistas buscaram criar imagens que correspondessem \u00e0quilo que Judy Chicago chamou de \u201cn\u00facleo central do imagin\u00e1rio feminino\u201d e que em seu trabalho traduziu-se em imagens vulvares. Essa identifica\u00e7\u00e3o do feminino (e do sujeito do feminismo) com o sexo biol\u00f3gico foi duramente criticada por muitas feministas como essencialista, por pressupor uma feminilidade original, um sujeito universal do feminismo. Um dos maiores desafios do feminismo, tem sido, justamente, formular uma pol\u00edtica baseada na categoria \u201cmulheres\u201d e ao mesmo tempo interrogar essa categoria.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo efetua uma entusiasmada revaloriza\u00e7\u00e3o do corpo feminino a partir do resgate da vulva. Nua no palco, Senne inicia a performance pedindo que sua colaboradora, Laura Salerno, desenhe os \u00f3rg\u00e3os sexuais masculino e feminino. Embora o primeiro n\u00e3o ofere\u00e7a dificuldades, o segundo demanda mais de uma tentativa, evidenciando nossa falta de familiaridade com sua representa\u00e7\u00e3o. Uma longa lista de apelidos populares da genit\u00e1lia feminina \u00e9 lida pela atriz, mas n\u00e3o inclui o termo vulva, que Senne reivindica politicamente. Apesar da objetifica\u00e7\u00e3o a que o corpo da mulher \u00e9 submetido na sociedade patriarcal, concebido e explorado como objeto de prazer do sexo masculino, o \u00f3rg\u00e3o sexual feminino, assim como o desejo e a ag\u00eancia sexual das mulheres, s\u00e3o, entretanto, permanentemente negados, invisibilizados. \u00c0 quest\u00e3o da invisibilidade da vulva &#8211; e do uso inapropriado de vagina para design\u00e1-la -, seguem-se reflex\u00f5es sobre o tabu da menstrua\u00e7\u00e3o, considerado impuro por muitas religi\u00f5es e culturas, com poder de contamina\u00e7\u00e3o &#8211; basta ver os an\u00fancios de absorventes \u00edntimos que prometem frescor e seguran\u00e7a-; o trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado e a desimport\u00e2ncia dada ao clit\u00f3ris, fonte de prazer sexual da mulher.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5001\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679.jpg\" alt=\"V:U:L:V:A Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/VULVA_Foto_Nereu-Jr_8679.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Vulva incorpora ainda as ideias de Silvia Federici apresentadas em seu livro magn\u00edfico Calib\u00e3 e a bruxa, em que a autora investiga a rela\u00e7\u00e3o entre o surgimento do capitalismo e a ca\u00e7a \u00e0s bruxas no in\u00edcio da era moderna, quando foram exterminadas mulheres consideradas hereges, l\u00e9sbicas, curandeiras, parteiras, esposas desobedientes, mulheres que viviam s\u00f3s. Um verdadeiro genoc\u00eddio, a ca\u00e7a \u00e0s bruxas \u00e9 vista por Federici como &#8220;um aspecto central da acumula\u00e7\u00e3o [de capital] e da forma\u00e7\u00e3o do proletariado moderno\u201d. A incorpora\u00e7\u00e3o da tese de Federici cenicamente se d\u00e1 pela leitura de uma longa cita\u00e7\u00e3o e da figura da bruxa pelas duas atrizes, devidamente paramentadas com chap\u00e9us pontudos e vassouras, festejando ao final da performance, mas poderia ser melhor explorada na dramaturgia e na performance.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo, ainda imaturo, n\u00e3o consegue reconciliar, tanto conceitualmente quanto na cena, a vulva e a bruxa. Al\u00e9m do tratamento superficial de quest\u00f5es como a vis\u00e3o negativa do sexo feminino, entendido na l\u00f3gica patriarcal sobretudo como lacuna, uma vis\u00e3o baseada exclusivamente no olhar masculino (outra quest\u00e3o passada ao largo), a escolha da vulva como tema principal &#8211; mesmo com o contraponto marxista de Federici &#8211; acaba subscrevendo \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de um sujeito &#8211; universal &#8211; do feminismo com a anatomia feminina. A desigualdade de g\u00eanero, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 determinada pela biologia, como as pr\u00f3prias performers reconheceram no Pensamento em Processo. Os sujeitos do feminismo &#8211; m\u00faltiplos, diversos &#8211; se constituem na interse\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, religi\u00e3o e sexualidade. A anatomia, ao contr\u00e1rio do que pensava Freud, n\u00e3o \u00e9 destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vulva e a bruxa Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Vulva Por Ana Bernstein Vulva, concebido e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5000,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[81],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4999"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4999"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4999\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4999"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}