{"id":4934,"date":"2019-03-21T18:50:08","date_gmt":"2019-03-21T21:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4934"},"modified":"2019-03-31T10:32:53","modified_gmt":"2019-03-31T13:32:53","slug":"outras-rosas-por-soraya-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/outras-rosas-por-soraya-martins\/","title":{"rendered":"Outras Rosas <h6>Por Soraya Martins<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Outras Rosas<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Isto \u00e9 um negro?\u00a0 <\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Soraya Martins<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5047\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878.jpg\" alt=\" Isto \u00c9 um Negro? \" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_6878.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>A pe\u00e7a <em>Isto \u00e9 um negro?<\/em>\u00a0 traz para a cena uma an\u00e1lise cr\u00edtica-reflexiva e cortante do que \u00e9 ser negra e negro no Brasil essencialmente racista, mas que bate no peito, orgulhoso, da democracia racial. Traz para o palco identidades historicamente silenciadas e desautorizadas a falar. E do que transborda: discute essas identidades para al\u00e9m de uma caixinha de identidade l\u00fadica, que diz das negras e negros associando-os somente ao futebol, \u00e0 comida e\/ou \u00e0 m\u00fasica, nunca a uma episteme que permita conhecer e explorar outras possibilidades de ser negra e negro no mundo. A pe\u00e7a ultrapassa essa identidade convencionalizada pelo olhar do branco e se revira num jeito outro de afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um amontoado de cadeiras brancas no meio do palco comp\u00f5e o cen\u00e1rio. Quatro atores aparecem e se despem na frente do p\u00fablico. Corpos da negrura em cena para dar in\u00edcio ao desmanche desse amontoado de cadeiras brancas. Me lembrei de Rosa Parks. Em 1956,\u00a0 Rosa se nega a levantar do banco, dentro de um \u00f4nibus, para um homem branco se sentar. Em 2019, as quatro rosas \u2013 Ivy, Lucas, Mirella e Raoni- destroem essas cadeiras, construindo, assim como Rosa de 56, um espa\u00e7o no qual se pode experimentar deslocamentos de imagin\u00e1rios, fissurar e desarticular vis\u00f5es simplistas e reducionistas sobre a negrura.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um negro? O negro \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do branco. Como coloca Leda Maria Martins, a experi\u00eancia da alteridade, sob a \u00e9gide do discurso escravocrata, \u00e9 a pr\u00f3pria experi\u00eancia de nega\u00e7\u00e3o do outro, reduzido e projetado como simulacro ou ant\u00f4nimo de um ego branco narc\u00edsico, que se cr\u00ea onipotente. Para fazer uma an\u00e1lise dessa inven\u00e7\u00e3o redutora do sujeito branco, encenado como universal, uno e absoluto, <em>Isto \u00e9 um negro?<\/em> usa um elemento est\u00e9tico cortante e fundante dentro da proposta c\u00eanica: o riso.<\/p>\n<p>A partir do riso, n\u00e3o de um qualquer, mas do riso numa esp\u00e9cie de forma melanc\u00f3lica, no sentido de rir da exposi\u00e7\u00e3o de uma ferida aberta, o racismo &#8211; passado escravocrata que n\u00e3o passa e que emerge da montagem das cenas com consci\u00eancia ainda maior de ferida aberta-, os quatro atores discutem sobre as camadas e subjetividades negras. Reivindicam a negrura na sua singularidade e liberdade de ser sem amarras. Discutem as formas de se fazer teatro negro. A arte discutindo a si mesma. A arte como o lugar em que esse riso melanc\u00f3lico se tensiona, buscando criar espa\u00e7os para microprodu\u00e7\u00f5es do desejo.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe essencialismo negro, minhas caras e caros. O entendimento torto de que a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica negra se associa, como h\u00e1 muito aponta Diego Pinheiro, somente \u00e0 religiosidade de matriz africana ou a males sociais, lan\u00e7ando muitas produ\u00e7\u00f5es num folclore est\u00e1tico e hist\u00f3rico, caiu de cota\u00e7\u00e3o. Inclusive, as identidades negras s\u00e3o escritas no plural, h\u00e1 v\u00e1rias possibilidades de ser negra e negro no mundo, de ser e estar negra e negro em cena. Pensar a(s) identidade(s) negra(s) e o(s) teatro(s) negro(s) nos obriga a estar dispon\u00edvel, analisar e produzir outras possibilidades \u00e9ticas, subjetivas e est\u00e9ticas.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-5046\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100.jpg\" alt=\"Isto \u00c9 um Negro?\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Isto\u00c9UmNegro__Foto_Nereu-Jr_7100.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>(Quem segura a m\u00e3o do outro nessa empreitada?)<\/p>\n<p><em>Isto \u00e9 um negro?<\/em> n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quatro corpos em cena. Est\u00e3o em cena quatro corpos performativos, pois o que se repete neles s\u00e3o experi\u00eancias, viv\u00eancias, conhecimento e saberes em cont\u00ednuo movimento de recria\u00e7\u00e3o, remiss\u00e3o e transforma\u00e7\u00f5es. Corpos culturais, com mem\u00f3rias vivas e pulsantes, que funcionam como registro daquilo que se sabe, como indiv\u00edduo e como grupo, sem ter que recorrer a caracteres gr\u00e1ficos, deixando de lado o artif\u00edcio epistemol\u00f3gico da necessidade da transcri\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias em documentos. Corpos que fabulam. N\u00e3o a fic\u00e7\u00e3o como mentira, mas como a possibilidade de construir identidades, modos de habitar o mundo a partir das \u00edris pretas, de falar\/performar, muito mais do que pode emitir palavras: poder existir.<\/p>\n<p>Aqui, o teatro como a possibilidade de inventar novas \u201carmas\u201d, novas po\u00e9ticas e novas hist\u00f3rias, que tran\u00e7a ax\u00e9 para al\u00e9m do que se pode ver, joga com o singular, agarra nas paredes e atua com ast\u00facia e habilidade na luta antirracista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outras Rosas Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Isto \u00e9 um negro?\u00a0 Por Soraya Martins A pe\u00e7a Isto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5047,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[79],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4934"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4934"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4934\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4934"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}