{"id":4902,"date":"2019-03-21T13:37:56","date_gmt":"2019-03-21T16:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4902"},"modified":"2019-03-31T10:32:46","modified_gmt":"2019-03-31T13:32:46","slug":"morte-pelo-solpor-paloma-franca-amorim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/morte-pelo-solpor-paloma-franca-amorim\/","title":{"rendered":"A morte pelo sol<h6>Por Paloma Franca Amorim<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>A morte pelo sol<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Boca de Ferro<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Paloma Franca Amorim<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4903\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes.jpg\" alt=\"Boca de Ferro\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes-200x133.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes-300x200.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes-400x267.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes-600x400.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes-768x512.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Boca-de-Ferro-credito-Elisa-Mendes.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Est\u00e1vamos numa manh\u00e3 de quase sol, ali perto da pra\u00e7a Roosevelt, sentados um ao lado do outro para um breve encontro porque ele logo voltaria para o Rio de Janeiro. Havia acabado de chegar de uma dessas viagens internacionais que agora tem feito depois que se tornou dan\u00e7arino\/performer. Eu estava preocupada porque parecia a\u00e9reo, fiquei calculando a quantidade de neur\u00f4nios, sinapses, l\u00edquor, que entra em combust\u00e3o, resseca e se extingue em seu c\u00e9rebro quando ele realiza o <em>Boca de Ferro<\/em>. Talvez, por causa do espet\u00e1culo, \u00cdcaro estivesse ficando sem mem\u00f3ria, o cansa\u00e7o f\u00edsico e mental era aparente. Diante disso eu confessei n\u00e3o gostar do trabalho, porque me incomoda politicamente v\u00ea-lo, caboclo amaz\u00f4nico perif\u00e9rico, babando e suando feito um animal em cena. Que discursos sobre nossa regi\u00e3o essa imagem alimenta? Queremos mesmo como artistas do norte enaltecer a tese violenta do bom selvagem? Ele virou para mim muito serenamente, coisa que puxou da sua av\u00f3, dona Manuela, e disse que eu n\u00e3o devia recortar tudo sob o vi\u00e9s antropol\u00f3gico: <em>algumas coisas acontecem no campo do fen\u00f4meno, Paloma.<\/em><\/p>\n<p>Arregalei os olhos. A manifesta\u00e7\u00e3o de sua intelig\u00eancia e generosidade me abriu outras portas para interpretar o <em>Boca de Ferro<\/em>, esse trabalho de dan\u00e7a\/performance\/instala\u00e7\u00e3o complexo realizado pela Invis\u00edveis Produ\u00e7\u00f5es, parceria entre as core\u00f3grafas Marcela Levi e Luc\u00eda Russo. Atrav\u00e9s desse trabalho podemos ver o agenciamento de um quadro de refer\u00eancias do contexto musical popular paraense, das produ\u00e7\u00f5es caseiras audiovisuais que constituem o territ\u00f3rio cultural da internet e o corpo fenomenol\u00f3gico admitindo esses elementos como parte vigorosa de suas paredes, seus tecidos e pulsa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando \u00e9ramos crian\u00e7as sa\u00edamos vagando pela cidade, \u00e0s vezes sem rumo, com a curiosidade de uma juventude que quer tudo ser e tocar. Eu sentia que o meu amigo era uma extens\u00e3o de mim. Uma vez escrevi no di\u00e1rio, embalada pelo encontro com o mito de \u00cdcaro, o labirinto do Minotauro e a morte pelo sol: <em>qualquer dia desses eu acordo e saio voando.<\/em><\/p>\n<p>Ontem assisti ao <em>Boca de Ferro <\/em>novamente para escrever esse ensaio cr\u00edtico. Boca de Ferro \u00e9 o nome que se dava as aparelhagens no Par\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. A massa sonora que ocupa nossa terra, nas ruas, nos barcos, nos beirad\u00f5es, evidencia a recusa ao sil\u00eancio &#8211; talvez por j\u00e1 termos sido t\u00e3o emudecidos e folclorizados pela pol\u00edtica e cultura brasileiras ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O corpo em <em>Boca de Ferro<\/em> \u00e9 a vibra\u00e7\u00e3o das ondas sonoras em seu est\u00e1gio limite de performatividade, a escatologia brota dos poros do performer como o sumo de um organismo que em n\u00edveis celulares come\u00e7a a se tornar um g\u00e1s, a pr\u00f3pria atmosfera, o clima, esfuma\u00e7ando a dicotomia entre raz\u00e3o e natureza.<\/p>\n<p>\u00cdcaro, em <em>Boca de Ferro,<\/em> sublima-se nuvem e depois chove, eu sinto nojo dessa chuva porque \u00e9 cuspe e suor, mas \u00e9 tamb\u00e9m as tardes de temporal em nossa amada Bel\u00e9m, a necr\u00f3pole da Amaz\u00f4nia. O corpo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um corpo, \u00e9 uma engrenagem org\u00e2nica de eventos sucessivos e fragment\u00e1rios, campo de passagem do acontecimento est\u00e9tico, espa\u00e7o sem identidade que eu, desesperadamente antropol\u00f3gica, quero a todo custo identificar a fim de atribuir-lhe origem, matriz, biografia, um <em>lugar de fala <\/em>ou a<em> fala de um lugar.<\/em><\/p>\n<p>A cena se estrutura um d\u00ednamo, o desenho de luz de Isadora Giuntini e Catalina Fern\u00e1ndez costura um ambiente laboratorial preciso, simples e justo para a experi\u00eancia. <em>Boca de Ferro<\/em> acontece nesse territ\u00f3rio quase reduzido ao m\u00ednimo poss\u00edvel de est\u00edmulo discursivo pelos movimentos de ilumina\u00e7\u00e3o e pela disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que pode acionar o tempo presente com liberdade, isso \u00e9, caminhar, mudar de lugar, viver a experi\u00eancia de acordo com o pr\u00f3prio desejo. N\u00e3o raro, o &#8220;Corpo-\u00cdcaro&#8221; irrompe caoticamente, navalha no ar, e fura o cerco do conforto dos espectadores, fazendo-os fugir n\u00e3o dele, mas do fervedouro de bra\u00e7os, pernas, dorso, sexo, fluxos, olhos, dentes, infiltrando-se em tudo que se manifeste como espa\u00e7o de vida e de morte. Nesse ponto, j\u00e1 fomos tragados para o lado de dentro da dan\u00e7a, o est\u00f4mago, as v\u00edsceras, o conjunto arterial bruto. &#8220;Corpo-\u00cdcaro&#8221; se torna uma vez mais a extens\u00e3o do corpo do outro, dos outros, \u00e9 angustiante. Na inf\u00e2ncia eu jamais poderia desconfiar que seria assim, que a realiza\u00e7\u00e3o da prece viria dolorosa, abrindo feridas nos p\u00e9s. Calos, sendas, mapas. \u00c9 o dia de acordar e sair voando. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonito assim. N\u00e3o \u00e9 nada bonito. \u00c9 feio. D\u00f3i. Eu n\u00e3o gosto da pe\u00e7a, mas isso n\u00e3o importa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte pelo sol Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Boca de Ferro Por Paloma Franca Amorim Est\u00e1vamos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4903,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[78],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4902"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4902\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4902"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}