{"id":4898,"date":"2019-03-21T13:23:38","date_gmt":"2019-03-21T16:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4898"},"modified":"2019-03-31T10:34:58","modified_gmt":"2019-03-31T13:34:58","slug":"compaixaopor-deise-de-brito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/compaixaopor-deise-de-brito\/","title":{"rendered":"Compaix\u00e3o?<h6>Por Deise de Brito<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Compaix\u00e3o?<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Deise de Brito<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4899\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCompaixao.A-Historia-da-Metralhadora.jpg\" alt=\"Compaix\u00e3o. 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Qualquer que seja o lado, colonizadorx ou colonizadx, a colonialidade perpassa \u201co que, como, e por que se diz\u201d. N\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria, atente para esses tr\u00eas aspectos ou se enforque na prepot\u00eancia branca. Em <em>Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora <\/em>temos, mais uma vez, o tr\u00e1gico conflito entre os hutus e os t\u00fatsis como parte de um enredo. Diferente do espet\u00e1culo <em>unwanted <\/em>(visto no FIT-BH) de Doroth\u00e9e Munyaneza, essa trag\u00e9dia, ocorrida em 1994, \u00e9 v\u00e1lvula disparadora para uma discuss\u00e3o complexa a respeito das rela\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas entre Europa e \u00c1frica. O espet\u00e1culo, com as atua\u00e7\u00f5es inquestion\u00e1veis das atrizes Consolate Sip\u00e9rius e Ursina Lardi, poderia ter dado um recado mais honesto acerca da rela\u00e7\u00e3o entre esses dois continentes. \u201cRela\u00e7\u00e3o-fruto\u201d de experi\u00eancias do sistema escravocrata e da coloniza\u00e7\u00e3o em \u00c1frica no s\u00e9culo XIX, que ainda cruelmente reverbera no povo negro-africano e sua di\u00e1spora.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o. O texto e a encena\u00e7\u00e3o reafirmam o privil\u00e9gio heteronormativo brancoeurocentrado. Tem-se destro\u00e7os, objetos e coisas entulhadas. H\u00e1 uma primeira atriz que entra em cena, Consolate Sip\u00e9rius, de origem burundesa, que narra sua inf\u00e2ncia na guerra. Nessa, ela presenciou o assassinato de seus pais em um dia de chuva. Os olhos de Consolate s\u00e3o apreensivos e ansiosos. Ela fala para uma c\u00e2mera e sua imagem \u00e9 projetada num tel\u00e3o.\u00a0 A presen\u00e7a da atriz \u00e9 instigante e promissora.<\/p>\n<p>Ursina Lardi chega ao palco e interpreta uma mulher que conta suas experi\u00eancias como volunt\u00e1ria na \u00c1frica Central, num projeto denominado <em>Teachers in Conflict. <\/em>Ela compartiha as situa\u00e7\u00f5es que viveu durante os conflitos entre os povos hutus e t\u00fatsis, em 1994. Assim como Consolate, Ursina n\u00e3o permite frestas para que se conteste ou aponte quest\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao seu desempenho como atriz. Todavia, o que acontece, a partir da entrada de Ursina, \u00e9 um mergulho da encena\u00e7\u00e3o em um labirinto repleto de maneirismos brancos euroc\u00eantricos misturados \u00e0 culpa e \u00e0 prepot\u00eancia. E, mais uma vez, infelizmente, temos a vit\u00f3ria da prepot\u00eancia. Essa atravessa as posi\u00e7\u00f5es das atrizes no palco, a rela\u00e7\u00e3o entre elas, ou seja, o lugar da mulher branca europ\u00e9ia e a posi\u00e7\u00e3o da mulher negra-africana que observa, na maior parte do tempo, os privil\u00e9gios das subjetividades do seu algoz.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de trabalhos como <em>O<\/em> <em>Alicerce das Vertigens<\/em> no qual a posi\u00e7\u00e3o contestat\u00f3ria \u00e0 colonialidade \u00e9 radical e propositiva, em <em>Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora<\/em> a cr\u00edtica \u00e0 colonialidade, como o espet\u00e1culo se prop\u00f5e em sua sinopse, \u00e9 incipiente porque diretor e dramaturgo (homens brancos e europeus) n\u00e3o desafiaram as pedagogias coloniais que os nutriram. E eles o desejaram?<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4900\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2Compaixao.A-Historia-da-Metralhadora.jpg\" alt=\"Compaix\u00e3o. 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E para DECOLONIZAR a cena, pessoas brancas precisam radicalmente \u201cdescer aos infernos\u201d e enxergar, sem covardia e apego, sua ancestralidade criminosa. Sejam elas da B\u00e9lgica ou da Alemanha ou do Brasil. \u00c9 poss\u00edvel isso acontecer?<\/p>\n<p>Boa parte do teor textoc\u00eantrico do trabalho &#8211; lugar de poder &#8211; est\u00e1 alocado na atriz branca. Ela caminha sobre os destro\u00e7os, contando viv\u00eancias de uma guerra da qual ela ou a personagem teve o privil\u00e9gio de escapar. Sua \u00e1rea de deslocamento \u00e9 concentrada ali e isso \u00e9 um dos poucos acertos do espet\u00e1culo. O trabalho finaliza com a interven\u00e7\u00e3o de Consolate citando uma cena do filme <em>Bastardos Ingl\u00f3rios<\/em>, de Quentin Tarantino, como uma alus\u00e3o ao que ela poderia fazer naquele momento final da pe\u00e7a: assassinar os seus algozes. Apesar da forma primorosa como a atriz nos diz o seu \u201ctexto-lugar\u201d e o seu \u201clugar-texto\u201d, ela n\u00e3o compensa a falta de compaix\u00e3o c\u00eanica destilada at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>Numa cr\u00edtica ao filme <em>Chica da Silva<\/em>, de Cac\u00e1 Diegues, a historiadora e ativista Beatriz do Nascimento escreveu que \u201cAmor pressup\u00f5e Conhecimento\u201d, em 1976. Atrav\u00e9s dessa frase ela contestava a suposta boa inten\u00e7\u00e3o de Diegues em conceber um desfile de estereotipias a respeito de uma personalidade t\u00e3o complexa como Chica da Silva. Tomando de empr\u00e9stimo algumas palavras de Nascimento, eu diria que \u201cCompaix\u00e3o pressup\u00f5e conhecimento\u201d, ou melhor, \u201cCompaix\u00e3o pressup\u00f5e autoconhecimento\u201d. Autoconhecimento implica em dinamitar a zona de conforto e privil\u00e9gios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compaix\u00e3o? Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Compaix\u00e3o. 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