{"id":4892,"date":"2019-03-21T13:12:48","date_gmt":"2019-03-21T16:12:48","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4892"},"modified":"2019-03-31T10:34:50","modified_gmt":"2019-03-31T13:34:50","slug":"paradoxos-da-representacao-sobre-adolescencia-por-julia-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/paradoxos-da-representacao-sobre-adolescencia-por-julia-guimaraes\/","title":{"rendered":"Paradoxos da representa\u00e7\u00e3o sobre a adolesc\u00eancia <h6>Por Julia Guimar\u00e3es<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Paradoxos da representa\u00e7\u00e3o sobre a adolesc\u00eancia<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Paisagens para N\u00e3o Colorir<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Julia Guimar\u00e3es<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4893\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr.jpg\" alt=\"Paisagens para n\u00e3o colorir\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorirr.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Assim como j\u00e1 ocorreu em outros espet\u00e1culos desta 6\u00aa MITsp, a cena inicial de <em>Paisagens para N\u00e3o Colorir<\/em> tamb\u00e9m aborda um epis\u00f3dio relacionado ao seu processo de cria\u00e7\u00e3o. Lemos, nos letreiros de um v\u00eddeo, que durante a reuni\u00e3o sobre o projeto com uma autoridade do Minist\u00e9rio da Cultura do Chile, a equipe foi advertida sobre os \u201criscos\u201d de se trabalhar com adolescentes do sexo feminino, j\u00e1 que nessa idade seriam todas umas \u201cloucas, dram\u00e1ticas, hist\u00e9ricas e bipolares\u201d. Na cena seguinte, uma das jovens do elenco explica que ningu\u00e9m ali se identifica com aqueles adjetivos. Mas reconhecem terem tido o \u201cazar de nascer em um pa\u00eds preconceituoso e estreito em liberdades\u201d.<\/p>\n<p>Para pensar sobre o espet\u00e1culo, seria poss\u00edvel refletir sobre as identidades adolescentes projetadas na rela\u00e7\u00e3o eu-outro. Ou seja, no modo como os adultos a enxergam (e consequentemente oprimem) mas tamb\u00e9m como elas se enxergam e em que medida suas identidades s\u00e3o tamb\u00e9m proje\u00e7\u00f5es do mundo adulto. Na obra dirigida por Marco Layera, produzida pelo Centro Cultural Gabriela Mistral e coproduzida pelo Teatro La-Resentida, parece haver uma representa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra adolescentes que, ao examinar apenas superficialmente essas m\u00fatuas proje\u00e7\u00f5es, por vezes cai em lugares comuns que prometia problematizar.<\/p>\n<p>No palco, est\u00e3o nove garotas com idade entre 13 e 17 anos, que se revezam entre depoimentos mais individuais e cenas coletivas. Logo no in\u00edcio, um retrato dessas adolescentes \u00e9 esbo\u00e7ado para o p\u00fablico, quando descobrimos que sete delas j\u00e1 pensaram em suic\u00eddio, cinco sofreram agress\u00e3o pelos pais, oito foram chamadas de feminazi e sete adoram o ritmo do <em>reggaeton<\/em>. A diversidade do elenco aparece sobretudo nos depoimentos individuais. Vemos ali reivindica\u00e7\u00f5es diversas, como o direito ao corpo, \u00e0 homossexualidade, den\u00fancia de bullying, de pedofilia ou cr\u00edticas \u00e0s mais diversas formas de invisibiliza\u00e7\u00e3o social desse grupo.<\/p>\n<p>No decorrer das cenas, os imagin\u00e1rios de drama, loucura e histeria ressurgem associados \u00e0 revolta. Nesse sentido, os adjetivos citados poderiam ser pensados n\u00e3o apenas como formas preconceituosas, redutoras e pejorativas de referir-se a mulheres, e especificamente adolescentes, mas tamb\u00e9m de <em>qualificar<\/em> os sintomas de resist\u00eancia e revolta. Uma suposta insanidade aparece, por exemplo, em alguns dos depoimentos iniciais, que exploram uma movimenta\u00e7\u00e3o corporal incessante. Questionadas por adultos (tamb\u00e9m representados pelas adolescentes) sobre porque se movimentam de forma estranha, uma justifica que est\u00e1 marchando em prol de causas da mulher e a outra que tenta libertar-se \u201cdesse monstro que \u00e9 a sociedade\u201d. Nessas passagens, a constru\u00e7\u00e3o estereotipada das vozes e discursos dos adultos n\u00e3o colabora muito para que o pr\u00f3prio p\u00fablico (igualmente adulto) se identifique com essas figuras.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4894\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir.jpg\" alt=\"Paisagens para n\u00e3o colorir\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2paisagensparanaocolorir.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Em outras cenas, \u00e9 o vi\u00e9s da dramaticidade que surge acentuado. Ali, a chave de atua\u00e7\u00e3o \u00e9 quase sempre realista e dram\u00e1tica, o que leva tanto as atua\u00e7\u00f5es quanto a pr\u00f3pria estrutura dramat\u00fargica para lugares conhecidos de representa\u00e7\u00e3o de conflito. Neles, o mundo adulto \u00e9 visto como vil\u00e3o e o dos jovens identificado \u00e0 rebeldia e indigna\u00e7\u00e3o, no intuito de lidar com tamanha viol\u00eancia. Ao mesmo tempo, muitas das cenas exploram o lugar da catarse, do choro coletivo ou individual diante de situa\u00e7\u00f5es violentas e tr\u00e1gicas, como modo de elaborar o trauma e talvez projetar empatia, para logo em seguida transmutar-se em passagens coletivas de euforia, o que empobrece as nuances de cada um desses afetos. Com exce\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia em que aparece um controverso v\u00eddeo da marca Sprite debochando e naturalizando o choro feminino, nas outras passagens n\u00e3o h\u00e1 um tratamento de proximidade e dist\u00e2ncia sobre as hist\u00f3rias de viol\u00eancia expostas no palco, o que as leva para certo lugar-comum, que denuncia a viol\u00eancia, mas n\u00e3o subverte uma estrutura de linguagem igualmente opressora.<\/p>\n<p>Os momentos de respiro nos quais a necess\u00e1ria den\u00fancia surge acompanhada de um tratamento reflexivo, que investe na complexidade, ficam por conta dos depoimentos que questionam modos n\u00e3o normativos de g\u00eanero e sexualidade. Como na cena em que a jovem Aru descreve a sensa\u00e7\u00e3o de esperar a namorada no ponto de encontro todos os s\u00e1bados pela manh\u00e3 ou quando Matilde reflete sobre sua identidade ag\u00eanero. A ideia de um apoio e cuidado m\u00fatuo necess\u00e1rios para se combater as viol\u00eancias descritas em cena tamb\u00e9m ganha representa\u00e7\u00f5es delicadas de afetividade entre as integrantes e parecem apontar para uma conex\u00e3o do elenco que vai al\u00e9m da pr\u00f3pria obra. Al\u00e9m disso, o desvelamento de certas patologias do mundo \u201cadultoc\u00eantrico\u201d \u2013 adjetivo igualmente revelador para expressar o funcionamento da sociedade \u2013 se materializa na obra, por exemplo, na op\u00e7\u00e3o de integrar ao elenco a boneca infl\u00e1vel Sofia, cujo rosto, como descreve uma das atrizes, remete ao de uma garota de 12 anos, o que revela espantosa naturaliza\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica da pedofilia.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es expostas no espet\u00e1culo \u2013 a partir de uma pesquisa que reuniu mais de 100 depoimentos de adolescentes chilenas \u2013 apontam para uma opress\u00e3o sobre esse grupo bem mais aguda e sist\u00eamica do que normalmente aparece na esfera p\u00fablica. Nesse sentido, a decis\u00e3o de formar um elenco com as pr\u00f3prias adolescentes, e n\u00e3o com atrizes de outras idades, tamb\u00e9m revela, por contraste, a invisibilidade de seus discursos. No entanto, exatamente porque existem uma s\u00e9rie de proje\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias redutoras sobre essa faixa et\u00e1ria na m\u00eddia e nas representa\u00e7\u00f5es art\u00edstico-culturais hegem\u00f4nicas, parece importante n\u00e3o s\u00f3 denunciar a viol\u00eancia sobre o grupo, mas tamb\u00e9m problematizar as representa\u00e7\u00f5es acerca do imagin\u00e1rio que existe em torno da adolesc\u00eancia, a partir de uma chave mais contradit\u00f3ria. Se o teatro \u00e9 o lugar onde temos tempo para examinar o <em>modo como olhamos<\/em>, a pergunta sobre <em>como mostrar<\/em> e a tentativa de <em>mostrar de outro jeito<\/em> poderiam ser tamb\u00e9m problemas colocados em cena pelos criadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paradoxos da representa\u00e7\u00e3o sobre a adolesc\u00eancia Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Paisagens para N\u00e3o Colorir Por Julia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4893,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[77],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4892"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4892"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4892\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4892"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}