{"id":4881,"date":"2019-03-21T12:42:41","date_gmt":"2019-03-21T15:42:41","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4881"},"modified":"2019-03-31T10:36:34","modified_gmt":"2019-03-31T13:36:34","slug":"um-manifesto-urgente-e-necessariopor-ana-bernstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/um-manifesto-urgente-e-necessariopor-ana-bernstein\/","title":{"rendered":"Um manifesto urgente e necess\u00e1rio<h6>Por Ana Bernstein<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Um manifesto urgente e necess\u00e1rio<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Manifesto Transpof\u00e1gico<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Ana Bernstein<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4882\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto.jpg\" alt=\"Manifesto Transpof\u00e1gico\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capamanifesto.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p><em>Manifesto Transpof\u00e1gico<\/em>, espet\u00e1culo solo da dramaturga, atriz, e diretora travesti Renata Carvalho, que estreia na MITsp, confronta-nos com quest\u00f5es cruciais e urgentes sobre a constru\u00e7\u00e3o social do g\u00eanero e, em especial, dos g\u00eaneros dissidentes, em uma sociedade cisheteronormativa, na qual o menor desvio da norma \u00e9 punido com viol\u00eancia (f\u00edsica, emocional, lingu\u00edstica).<\/p>\n<p>O corpo nu da artista protagoniza uma narrativa que \u00e9 parte autobiogr\u00e1fica, parte antropologia e parte hist\u00f3ria da corporeidade trans, um discurso ao mesmo tempo pessoal e pol\u00edtico, no qual ela se coloca, em suas pr\u00f3prias palavras, como \u201cum experimento, uma vitrine, uma cobaia\u201d. Com o rosto no escuro e o resto do corpo iluminado, apenas de calcinha, Renata nos fala de um corpo que \u201csempre chega antes, na frente\u201d, independente do sujeito, um corpo que s\u00e3o muitos, em constante processo de sujei\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia, de escrut\u00ednio, de afirma\u00e7\u00e3o, de vida e de morte: corpo beb\u00ea\/menino\/azul &#8211; corpo que a precede -; corpo disciplinado, para aprender a \u201cser homem\u201d; corpo adolescente; corpo problema; corpo cela; corpo gay, marginalizado; corpo travesti &#8211; hormonizado, bombado -; corpo porn\u00f4; corpo patologizado; corpo objeto e corpo abjeto; corpo vergonha; corpo mat\u00e1vel.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria pessoal de Renata \u00e9 pol\u00edtica porque \u00e9 a de tantas outras travestis rejeitadas pela fam\u00edlia, expulsas de casa, obrigadas por vezes a se prostituir, sujeitas \u00e0 precariedade e \u00e0 viol\u00eancia, destinadas \u00e0 morte social. N\u00e3o surpreende, portanto, quando a ouvimos dizer: \u201cEu morri\u201d. Mas essa morte opera tamb\u00e9m um renascimento, a possibilidade de parir um novo corpo, corajosamente constru\u00eddo por ela. \u201cMudar de corpo \u00e9 como mudar de casa\u201d, ela diz, com ecos de Lygia Clark, que em 1968 criou a instala\u00e7\u00e3o <em>O corpo \u00e9 a casa<\/em>. A constru\u00e7\u00e3o do corpo travesti \u00e9 examinada tanto do ponto de vista do desejo, da autoestima, quanto dos arriscados tratamentos com materiais industriais, mais populares devido ao alto custo de implantes de pr\u00f3teses.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4883\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo.jpg\" alt=\"Manifesto Transpof\u00e1gico\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/2manifestoo.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>A <em>travaturgia <\/em>de <em>Manifesto Transpof\u00e1gico, <\/em>a exemplo dos modernistas, devora, digere, assimila e regurgita artisticamente aquilo que foi deixado de fora da hist\u00f3ria, que Renata apropriadamente nomeia de \u201ctranscestralidade\u201d: O <em>Manifesto<\/em> n\u00e3o s\u00f3 recupera exemplos de travestis famosas como Rog\u00e9ria, Jane di Castro e Roberta Close, eleita a mulher mais bonita do Brasil, como tamb\u00e9m denuncia a criminaliza\u00e7\u00e3o, a sexualiza\u00e7\u00e3o e a persegui\u00e7\u00e3o institucionalizada \u00e0s trans. Numa interessante composi\u00e7\u00e3o visual em que sua imagem, enquadrada como em uma vitrine de sexo priv\u00ea \u00e9 justaposta por dezenas de imagens de sites porn\u00f4s, Renata p\u00f5e em evid\u00eancia a hipocrisia da sociedade que, ao mesmo tempo em que as condena e marginaliza, as explora sexualmente pela prostitui\u00e7\u00e3o e em sites porn\u00f4. Ao som da c\u00e9lebre e preconceituosa marchinha de carnaval <em>Olha a cabeleira do Zez\u00e9 <\/em>(1963), ela mostra como as travestis s\u00e3o celebradas no carnaval com bailes pr\u00f3prios, aparecendo em capas de jornais e programas de TV &#8211; apenas um breve e glamoroso interl\u00fadio que encobre a viol\u00eancia no restante do ano, quando as manchetes nas quais aparecem s\u00e3o sempre relacionadas a homic\u00eddios, espancamentos, mutila\u00e7\u00f5es e outras barbaridades. Se a ca\u00e7a \u00e0s travestis foi legitimada pelo Estado nos anos da ditadura, com o apoio da popula\u00e7\u00e3o, o Brasil atual segue matando &#8211; n\u00e3o nos esque\u00e7amos que somos o pa\u00eds que mais mata travestis no mundo, fazendo com que a m\u00e9dia de vida delas seja de 35 anos. Oitenta por cento das v\u00edtimas assassinadas s\u00e3o negras. Situa\u00e7\u00e3o que nesse momento neofascista que atravessamos vem se agravando de modo bastante preocupante.<\/p>\n<p>Renata ficou nacionalmente conhecida ap\u00f3s a censura ao espet\u00e1culo <em>O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do C\u00e9u <\/em>e do <em>Manifesto Representatividade Trans J\u00e1, <\/em>de 2017, que critica a exclus\u00e3o de corpos transg\u00eaneros no teatro, mesmo quando as pe\u00e7as encenadas t\u00eam personagens trans, reivindicando maior representatividade nos palcos. Com o <em>Manifesto Transpof\u00e1gico<\/em>, ela expande essa luta, questionando a cisheteronormatividade de nossa sociedade, n\u00e3o s\u00f3 na nas artes, mas tamb\u00e9m na forma como se apresenta nas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e pol\u00edticas, nas ci\u00eancias, na linguagem e no cotidiano. Ao expor seu corpo travesti, desnudando-se em p\u00fablico, Renata visa naturaliz\u00e1-lo, humaniz\u00e1-lo. Em entrevista sobre o espet\u00e1culo (Revista Cartografias MITsp) ela afirma que \u201c\u00e9 no conv\u00edvio, e s\u00f3 com ele que poderemos quebrar essas folcloriza\u00e7\u00f5es que permeiam corpos como o meu.&#8221;<\/p>\n<p>A luta \u00e9 longa, urgente, e est\u00e1 apenas come\u00e7ando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um manifesto urgente e necess\u00e1rio Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Manifesto Transpof\u00e1gico Por Ana Bernstein Manifesto Transpof\u00e1gico, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4882,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[75],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4881"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4881\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4881"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}