{"id":4728,"date":"2019-03-20T14:20:45","date_gmt":"2019-03-20T17:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4728"},"modified":"2019-03-31T10:37:25","modified_gmt":"2019-03-31T13:37:25","slug":"romantizacao-do-terror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/romantizacao-do-terror\/","title":{"rendered":"A romantiza\u00e7\u00e3o do terror<h6>Por Paloma Franca Amorim<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>A romantiza\u00e7\u00e3o do terror<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Altamira 2042<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Paloma Franca Amorim<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4729\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471.jpg\" alt=\"Altamira 2042 Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5471.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Susan Sontag, no ensaio <em>Diante da Dor dos Outros<\/em>, \u00e9 precisa na cr\u00edtica aos efeitos da midiatiza\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dias e conflitos no campo jornal\u00edstico. Nesse texto, penso ser oportuno perspectivar o espet\u00e1culo <em>Altamira 2042,<\/em> de Gabriela Carneiro da Cunha, \u00e0 luz do debate travado por Sontag, n\u00e3o na medida da informa\u00e7\u00e3o, como sugere a escritora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s not\u00edcias galvanizadas pela l\u00f3gica de proporcionalidade entre sanguinol\u00eancia e o valor da manchete, mas da experi\u00eancia performativa e, a partir da\u00ed, abrir interroga\u00e7\u00f5es sobre quais dimens\u00f5es da trag\u00e9dia de Altamira a obra de Carneiro da Cunha explora.<\/p>\n<p>Altamira \u00e9 uma cidade do estado Par\u00e1 \u00e0s margens do rio Xingu, esse mesmo que teve suas \u00e1guas interrompidas pela imensa barragem de Belo Monte \u00e0 qual n\u00f3s, ativistas amaz\u00f4nicos, chamamos Belo Monstro.<\/p>\n<p>Em <em>Altamira 2042 <\/em>a quest\u00e3o social se estabelece, numa invers\u00e3o de prioridades \u00e9ticas e est\u00e9ticas, como tapume para a experimenta\u00e7\u00e3o formal de movimentos fren\u00e9ticos de luzes e sonoridades remissivas materialmente \u00e0s aparelhagens, m\u00e1quinas de m\u00fasica enormes da cultura nortista, e metaforicamente ao contexto dos beirad\u00f5es do rio Xingu, emulando uma esp\u00e9cie de forma de vida da popula\u00e7\u00e3o sob os ausp\u00edcios de uma interpreta\u00e7\u00e3o absolutamente estrangeira \u00e0s rela\u00e7\u00f5es afetivas e sociais da localidade.<\/p>\n<p>A autora do espet\u00e1culo assume com honestidade a posi\u00e7\u00e3o distanciada sobre o tema tratado, contudo, esse mesmo distanciamento deflagra um problema b\u00e1sico de tradu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica que, por consequ\u00eancia, desnatura o tom de den\u00fancia aparentemente objetivado na pe\u00e7a, fazendo-a adquirir uma outra finalidade est\u00e9tico pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o da cena a partir de traquitanas e recursos tecnol\u00f3gicos como meios de evoca\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio amaz\u00f4nico faz vibrar um efeito de embelezamento da situa\u00e7\u00e3o retratada, o que me parece um debate importante sobre a arte pol\u00edtica contempor\u00e2nea e sua rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. Ao criar uma atmosfera de mitifica\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia a partir da fric\u00e7\u00e3o entre a ideia &#8220;natureza\/comunidade em risco&#8221; e o aparato tecnol\u00f3gico, Carneiro da Cunha despeja sobre o terror que temos vivido, como povo de rio, o verniz anestesiante do romantismo que opera na produ\u00e7\u00e3o de uma segunda verdade, aquela que se d\u00e1 a partir da apropria\u00e7\u00e3o criativa sobre a realidade e que, ao contr\u00e1rio do que se espera, deixa o espectador encantado com os poss\u00edveis jogos sem\u00e2nticos extra\u00eddos das atrocidades da pr\u00f3pria vida. <em>Altamira 2042<\/em> parece funcionar como evidencia\u00e7\u00e3o da originalidade e pot\u00eancia da linguagem performativa e de instala\u00e7\u00e3o, o que nos lan\u00e7a sobre os ombros, como um peso moral e pol\u00edtico, novamente a inquieta\u00e7\u00e3o de Sontag:<\/p>\n<p><em>Agora, guerras s\u00e3o tamb\u00e9m imagens e sons na sala de estar.<\/em><\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4730\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309.jpg\" alt=\"Altamira 2042 Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5309.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Em uma mostra internacional de teatro, na modalidade de exposi\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos brasileiros para um corpo de curadores internacionais, uma pe\u00e7a como <em>Altamira 2042<\/em>, concebida por uma maioria de artistas brancos do sudeste (vejam, esse dado indica um conjunto epistemol\u00f3gico e n\u00e3o a interdi\u00e7\u00e3o daquele que pode ou n\u00e3o falar), flerta com um paternalismo e fetichiza\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico recorrentes na rela\u00e7\u00e3o entre sul\/sudeste e norte\/nordeste brasileiros, integrando como obra uma economia da trag\u00e9dia que se funda, n\u00e3o coincidentemente, na Europa neocolonialista da primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um problema individual de Carneiro da Cunha, e sim uma discuss\u00e3o ampla sobre o fazer art\u00edstico e suas nuances de tend\u00eancia generalizante sobre conte\u00fados espec\u00edficos, sociais, culturais, \u00e9tnico\/raciais, dolorosos.<\/p>\n<p>O material audiovisual documentado na pesquisa e exibido no espet\u00e1culo atrav\u00e9s de uma m\u00e1quina-ayab\u00e1 \u00e9 valioso. Permeado por relatos de ribeirinhos e ind\u00edgenas, o filmete se revela substancial instante dos corpos e das exist\u00eancias sem o magn\u00e9tico filtro da benevol\u00eancia. A\u00ed parece estar uma fagulha interessante de sistema est\u00e9tico irmanado \u00e0 partilha de uma tese pol\u00edtica, entretanto, a profus\u00e3o de elementos brilhantes, ilumina\u00e7\u00f5es, est\u00edmulos visuais, soa como parte de um processo formal contradit\u00f3rio investigado teoricamente por Adorno em <em>A Dial\u00e9tica do Esclarecimento<\/em>: tantos mecanismos tecnol\u00f3gicos, tantos est\u00edmulos visuais, o acende e apaga do interruptor como meio articulador da linguagem, parecem quase uma triste ironia em uma obra justamente sobre um territ\u00f3rio espoliado que tem sido subtra\u00eddo dos seus recursos h\u00eddricos, suas veias de rio, para produzir energia el\u00e9trica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A romantiza\u00e7\u00e3o do terror Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Altamira 2042 Por Paloma Franca Amorim Susan Sontag, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4729,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[72],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4728"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4728"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4728\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4728"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}