{"id":4723,"date":"2019-03-20T14:11:06","date_gmt":"2019-03-20T17:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4723"},"modified":"2019-03-31T10:37:35","modified_gmt":"2019-03-31T13:37:35","slug":"luz-sombra-do-som","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/luz-sombra-do-som\/","title":{"rendered":"Luz \u00e0 sombra do som<h6>Por Dodi Leal<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Luz \u00e0 sombra do som<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Altamira 2042<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Dodi Leal<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4724\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638.jpg\" alt=\"Altamira 2042 Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_9638.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto o discurso desenvolvimentista \u00e9 capaz de chegar para manter o abastecimento el\u00e9trico de um pa\u00eds? Em <em>Altamira 2042<\/em>, Gabriela Carneiro da Cunha compartilha conosco inquieta\u00e7\u00f5es sobre como a soberba humana sobre a terra tem substitu\u00eddo animais por equipamentos, rio por rua, paz por urbanismo. O desastre tem nome: usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte; a chacina podia ter muito bem inspirado uma <em>obra de artes c\u00eanicas<\/em>, mas efetivamente estamos diante de uma <em>obra de artes c\u00ednicas<\/em>.<\/p>\n<p>Se o Rio Xingu pudesse falar, ele choraria. Mas como o rio \u00e9 co-diretor da pe\u00e7a, ele nos diz: <em>eu sou o Muro de Berlin do Brasil.<\/em> De fato, ser canal art\u00edstico de povos ind\u00edgenas amaz\u00f4nicos expandindo a comunica\u00e7\u00e3o a outros cantos do pa\u00eds deveria caminhar mesmo no sentido de nos entregar a fatura desta conta cara de se pagar. Os custos sociais e ambientais n\u00e3o cabem num espet\u00e1culo teatral convencional. Os dados que aterrorizam s\u00e3o subterr\u00e2neos \u00e0 cena e a faz explodir: 10 mil fam\u00edlias despejadas de suas terras, 16 toneladas de peixes mortas\/os, alagamentos, falta de saneamento b\u00e1sico levando ao represamento de esgoto.<\/p>\n<p>A experimenta\u00e7\u00e3o c\u00eanica, traduzida ao p\u00fablico em forma de instala\u00e7\u00e3o sonora, tem uma gram\u00e1tica de luz indissoci\u00e1vel. A\u00ed vemos nitidamente a presentifica\u00e7\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o de Gabriela com Cibele Forjaz, que assina a ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica de <em>Altamira 2042<\/em>. Uma dezena de caixinhas de som espalhadas por uma das salas do efervescente Centro de Refer\u00eancia da Dan\u00e7a da Cidade de S\u00e3o Paulo nos lan\u00e7a, quase que sem deixar d\u00favidas, ao pr\u00f3prio Par\u00e1. A musicalidade eletr\u00f4nica produzida na regi\u00e3o tem nas cores acesas do neon projetadas pelas caixinhas o correspondente que, na pe\u00e7a, poder\u00edamos ent\u00e3o nomear de<em> luz brega<\/em>. Mas s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es performativas nas quais se marca mais a rela\u00e7\u00e3o entre a sonoplastia e a ilumina\u00e7\u00e3o. Uma cabe\u00e7a de luz formada por duas caixinhas de som reluzentes, em um momento, e um projetor na altura dos olhos, em outro momento (ambos encaixados na cabe\u00e7a da int\u00e9rprete como um cocar eletr\u00f4nico), nos fazem lembrar se n\u00e3o era mesmo o p\u00f3s-humano o resultado final almejado pela modernidade de m\u00e1quinas. O corpo ciborgue ind\u00edgena, no entanto, aos olhos do povo branco, \u00e9 alien\u00edgena. Apesar de o OVNI ser a Usina de Belo Monte (segundo grande parte da popula\u00e7\u00e3o local a constru\u00e7\u00e3o gigante apareceu do c\u00e9u sem explica\u00e7\u00e3o), a brasilidade progressiana v\u00ea seus povos ind\u00edgenas como <strong>aliend\u00edgenas<\/strong>. E \u00e9 assim que se tematiza o Muro de Xingu na pe\u00e7a, a guerra entre duas mitologias: progressianos Vs. aliend\u00edgenas.<\/p>\n<p>A luz \u00e0 sombra do som \u00e9 o pr\u00f3prio Rio Xingu. A for\u00e7a da pe\u00e7a est\u00e1 nas vozes da Amaz\u00f4nia, mas tamb\u00e9m est\u00e1 nos lampejos que se manifestam no interior do som, <em>como se o som fosse feito de sombras<\/em>. Um sensor \u00e9 o captador de \u00e1udio; uma programa\u00e7\u00e3o computacional transforma os est\u00edmulos de som em vibra\u00e7\u00f5es de luz que rasgam o ch\u00e3o por meio de fitas de LED. O canto humano faz o rio falar na linguagem da luz c\u00eanica. Note-se que o comando vocal indutor da ilumina\u00e7\u00e3o da terra era dado dentro de uma estrutura met\u00e1lica cujos bra\u00e7os armados manipulam um teclado e os olhos projetam o rio na parede. Enquanto isso, as cores do rio no ch\u00e3o s\u00e3o variadas, mas, antes deste trecho, as mesmas fitas de LED estavam enroladas em c\u00edrculo e produziam uma cor \u00fanica: o vermelho. Era uma grande cobra que se introduzia e se intraduzia com sua exist\u00eancia amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a nos alerta que, de um lado do muro est\u00e1 a mitologia que cria desertos, e do outro lado a que cria Amaz\u00f4nias. A edi\u00e7\u00e3o da trilha sonora e o posicionamento das caixinhas de som, sempre em deslocamento, fazem a proje\u00e7\u00e3o de som\/luz e de som(bras) alternarem entre o interior de uma roda e o exterior. A intensifica\u00e7\u00e3o dos sons de urbanidade invadindo a mata e o imagin\u00e1rio dos povos ind\u00edgenas se contrap\u00f5e a uma \u00fanica fonte emissora de som que, resiliente, mant\u00e9m a proje\u00e7\u00e3o das vozes da floresta. O mesmo acontece com uma vela que teima em ficar acesa em meio a tanta luz el\u00e9trica.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4725\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372.jpg\" alt=\"Altamira 2042 Nereu Jr Imagens\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Altamira2042_Foto_Nereu-Jr_5372.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>A\u00ed somos confrontadas com uma provoca\u00e7\u00e3o decisiva: <em>Ser e ser, esta \u00e9 a quest\u00e3o<\/em>. Ora, \u00e9 poss\u00edvel amazonizar o mundo dentro deste modelo genocida de servid\u00e3o onde quem paga a conta efetivamente \u00e9 a pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia? O rio tem vida e agora o rio est\u00e1 louco. A urbanidade enlouqueceu o rio que j\u00e1 n\u00e3o sabe mais quem \u00e9. Ser e ser. Ser \u00e9 ser? Buscar nossa ancestralidade para al\u00e9m do paradigma do reprodutivismo cisnormativo da esp\u00e9cie \u00e9 encontrar pistas da nossa transcestralidade. Em cena vemos um caminho aludido \u00e0s linhagens que nos habitam e \u00e0quelas que nos <em>trans<\/em>formam. A altera\u00e7\u00e3o da funcionalidade dos equipamentos eletr\u00f4nicos a partir de manuseios percussivos nos faz lembrar que transicionar g\u00eanero em batucada \u00e9 uma maneira de provocar a norma de pixels que constituem a digitalidade do corpo urbano. Lembremos bem que o projeto que inoxidou, metalizou e concretou a humanidade \u00e9 cisnormativo e branco. H\u00e1 luz \u00e0 sombra do som, h\u00e1 trans \u00e0 sombra do cis.<\/p>\n<p>Quais seres importam ao crescimento brasileiro? O IBGE apontou em 2013 que, em 2042, a popula\u00e7\u00e3o brasileira deixar\u00e1 de crescer. A quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 se haver\u00e1 mundo at\u00e9 l\u00e1, se o fim do mundo acontecer\u00e1 quando acabarem os recursos naturais que abastecem o capitaliCISmo. Como nos diz Ailton Krenak sobre a invas\u00e3o portuguesa cisbranca no Brasil: &#8220;Para os povos que receberam aquela visita e morreram, o fim do mundo foi no s\u00e9culo XVI&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luz \u00e0 sombra do som Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Altamira 2042 Por Dodi Leal At\u00e9 que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4724,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[72],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4723"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4723\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4723"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}