{"id":4713,"date":"2019-03-20T12:54:35","date_gmt":"2019-03-20T15:54:35","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4713"},"modified":"2019-03-31T10:39:17","modified_gmt":"2019-03-31T13:39:17","slug":"por-uma-dialetica-do-olharpor-julia-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/por-uma-dialetica-do-olharpor-julia-guimaraes\/","title":{"rendered":"Por uma dial\u00e9tica do olhar<h6>Por Julia Guimar\u00e3es<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Por uma dial\u00e9tica do olhar<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Julia Guimar\u00e3es<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4714\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344.jpg\" alt=\"Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/capaCinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0344.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Na proposta do diretor su\u00ed\u00e7o Milo Rau, o teatro poderia ser pensado como um dispositivo para se \u201colhar concentradamente\u201d aquilo que muitas vezes \u00e9 ignorado ou banalizado no cotidiano. Em <em>Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis<\/em>, uma das tr\u00eas obras de Rau na programa\u00e7\u00e3o da MITsp, esse olhar se volta ao cruzamento entre um epis\u00f3dio violento, o modo de representa-lo e as leituras da sociedade por ele favorecidas. No centro do acontecimento c\u00eanico, est\u00e1 a hist\u00f3ria de viol\u00eancia que chocou profundamente a sociedade belga nos anos 1990, relacionada aos crimes cometidos por Marc Dutroux, condenado em 2004 por viol\u00eancia sexual e assassinato. Para tratar desse caso no teatro, o diretor su\u00ed\u00e7o elege enquadramentos e pontos de vista muito distintos daqueles observados nas not\u00edcias e document\u00e1rios sobre o epis\u00f3dio usualmente encontradas na internet.<\/p>\n<p>O primeiro desses enquadramentos diz respeito \u00e0 op\u00e7\u00e3o por trabalhar com um elenco formado por (pr\u00e9-)adolescentes de 11 a 14 anos (h\u00e1 apenas um adulto em cena e outros que aparecem em v\u00eddeos). Ao lado dos efeitos de autenticidade\/veracidade, empatia e simult\u00e2neo estranhamento que aquelas presen\u00e7as projetam \u00e0 obra, o que se destaca no trabalho \u00e9 o modo como atuam e o contexto dramat\u00fargico no qual s\u00e3o envolvidos. Logo na primeira cena \u2013 que refaz o momento de ensaios e sele\u00e7\u00e3o de elenco \u2013 respondem a perguntas filos\u00f3ficas como: \u201co que \u00e9 a liberdade?\u201d, \u201co que significa atuar?\u201d ou \u201cdo que voc\u00ea tem medo?\u201d. Nas entrelinhas desse procedimento, haveria o pressuposto de que os jovens integrantes do elenco possuem autonomia para refletir sobre temas usualmente vetados a essa faixa et\u00e1ria, cuja emancipa\u00e7\u00e3o intelectual e emocional tem sido hist\u00f3rica e socialmente subestimada pelos adultos.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m esse pressuposto o que parece legitimar Milo Rau a trabalhar com adolescentes para recriar em cena uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia sexual. Divididas por t\u00edtulos que fazem lembrar os recursos \u00e9picos brechtianos, as ironicamente batizadas \u201cpe\u00e7as f\u00e1ceis\u201d abordam depoimentos de pessoas envolvidas nessa hist\u00f3ria, como o pai do assassino, uma das v\u00edtimas, os pais de outra e um policial. A qualidade cotidiana da atua\u00e7\u00e3o \u2013 viabilizada por dispositivos tecnol\u00f3gicos de reprodu\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o como v\u00eddeo e microfone \u2013 ajuda a construir essa dist\u00e2ncia sobre o fato, o que \u00e9 ressaltado pelo jogo no qual crian\u00e7as no palco refazem as a\u00e7\u00f5es dos adultos no v\u00eddeo. N\u00e3o h\u00e1 lugar para os tratamentos sentimentais e moralistas usualmente explorados pela m\u00eddia em torno de um caso como esse.<\/p>\n<p>O fato de que s\u00e3o crian\u00e7as reencenando um crime que teve como v\u00edtimas pessoas da mesma idade ajuda a projetar a ideia\/pergunta (presente em uma mesa do eixo Olhares Cr\u00edticos) de que a \u201cmanuten\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia\u201d estaria relacionada a uma \u201ccultura facilitadora da viol\u00eancia na inf\u00e2ncia\u201d. Provavelmente a cena mais impactante da pe\u00e7a \u00e9 aquela em uma das atrizes refaz o relato de uma v\u00edtima sobre o que ocorria no cativeiro de Dutroux. Ali, o que parece estar em jogo \u00e9 tamb\u00e9m a reflex\u00e3o sobre como recriar no palco uma cena de pedofilia com recursos que, aos olhos de uma sociedade moralista e ped\u00f3fila, corre o risco de ser visto como refor\u00e7o daquilo que se deseja denunciar. Ou ainda, a problematiza\u00e7\u00e3o sobre o grau de autonomia das crian\u00e7as\/adolescentes para lidar com fatos usualmente censurados para sua faixa et\u00e1ria \u2013 embora digam respeito a uma viol\u00eancia imputada a esse grupo. Nesse caso, o mecanismo da dist\u00e2ncia ganha extrema relev\u00e2ncia justamente porque tem o potencial de suscitar a reflex\u00e3o acerca do modo mesmo como olhamos. E a\u00ed estaria outra importante chave relacionada ao teatro como esse dispositivo para <em>mirar detidamente<\/em> hist\u00f3rias por vezes j\u00e1 bastante conhecidas e banalizadas.<\/p>\n<p><img class=\"size-full wp-image-4715 aligncenter\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307.jpg\" alt=\"Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis\" width=\"591\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Cinco-Pecas-Faceis-Milo-Rau-Foto-Guto-Muniz-0307.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><\/p>\n<p>Por outro lado, <em>Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis<\/em> busca tamb\u00e9m propor rela\u00e7\u00f5es entre o caso Dutroux e a heran\u00e7a colonial belga. Rau j\u00e1 chegou a dizer que o epis\u00f3dio poderia ser visto como uma \u201calegoria do decl\u00ednio das pot\u00eancias coloniais e industriais ocidentais\u201d, o que se evidencia sobretudo pelo depoimento do pai do assassino, Victor Dutroux, representado com toda a revela\u00e7\u00e3o dos artif\u00edcios teatrais por um dos adolescentes do elenco. Nele, aparecem marcas do privil\u00e9gio e do vi\u00e9s opressor de quem viveu na antiga col\u00f4nia belga do Congo at\u00e9 sua independ\u00eancia em 1960. Ao mesmo tempo, o pai declara que atualmente gostaria de ter o sobrenome substitu\u00eddo pelo de Patrice Lumumba, her\u00f3i da independ\u00eancia congolesa fuzilado com apoio log\u00edstico da B\u00e9lgica. Nas entrelinhas dessa afirma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um v\u00ednculo entre o trauma coletivo projetado pelo crime de Dutroux e a constata\u00e7\u00e3o de certa decad\u00eancia moral de um pa\u00eds em aspectos muito mais amplos.<\/p>\n<p>No entanto, esse \u00faltimo enquadramento mais pol\u00edtico da hist\u00f3ria n\u00e3o parece ser, de fato, aquilo que se destaca na obra. Sobretudo quando apresentado no Brasil, onde uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es contextuais s\u00e3o por n\u00f3s desconhecidas, o que ocorre \u00e9 certo esvaziamento de alguns sentidos da obra. Soma-se a isso o fato de que a pr\u00f3pria proje\u00e7\u00e3o social do psicopata se enquadra (embora de modo mais problematizado) naquilo que Maria Rita Kehl chamou, em debate ap\u00f3s espet\u00e1culo, de \u201cpersonagem sem dial\u00e9tica\u201d, que \u201cencarna o que nos conforta\u201d justamente porque facilita proje\u00e7\u00f5es sobre uma ideia de mal absoluto que estaria sempre fora de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Embora os dois enquadramentos aqui analisados ofere\u00e7am ao conhecido epis\u00f3dio traum\u00e1tico outras leituras \u2013 e o jogo com a representa\u00e7\u00e3o e a reflex\u00e3o metateatral construa a necess\u00e1ria chave do distanciamento \u2013 ainda assim se trata de uma hist\u00f3ria que, ao contr\u00e1rio daquela retratada em <em>A repeti\u00e7\u00e3o<\/em> (outro espet\u00e1culo de Rau presente na MITsp), parece ser menos emblem\u00e1tica para se pensar as contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do nosso tempo, justamente porque remete a um crime que tem um forte componente associado a uma patologia e n\u00e3o tanto aos aspectos da pedofilia e da viol\u00eancia que se conectam \u00e0s heran\u00e7as do colonialismo patriarcal \u2013 eixo vinculado ao capitalismo desde a sua forma\u00e7\u00e3o. E \u00e9 nesse sentido que parece mais dif\u00edcil criar pontes de fato justas entre a hist\u00f3ria contada e os contextos pol\u00edticos, \u00e9ticos e morais que se deseja abordar.<\/p>\n<p>Numa compara\u00e7\u00e3o com <em>A Repeti\u00e7\u00e3o<\/em>, surgem desdobramentos distintos de uma mesma pesquisa &#8211; que envolve tanto aspectos como a revela\u00e7\u00e3o de um processo de cria\u00e7\u00e3o, da vida dos atores, passando pela pergunta sobre como levar epis\u00f3dios violentos e traum\u00e1ticos para a cena, at\u00e9 a tentativa de relacion\u00e1-los a uma dimens\u00e3o pol\u00edtica\/contextual. No entanto, em <em>A repeti\u00e7\u00e3o<\/em>, tanto a provoca\u00e7\u00e3o sobre o ato de olhar \u2013 materializado sobretudo na cena de 20 minutos que encena o assassinato de um jovem homossexual na B\u00e9lgica \u2013 como tamb\u00e9m a explora\u00e7\u00e3o de um epis\u00f3dio chocante para tecer um retrato sociol\u00f3gico de uma cidade e de um pa\u00eds parecem ter mais efic\u00e1cia justamente porque a hist\u00f3ria talvez seja mais favor\u00e1vel para se construir tais conex\u00f5es.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que o fato de Milo Rau estar nesta MITsp com tr\u00eas espet\u00e1culos \u2013 \u00e9 o artista com maior repert\u00f3rio da hist\u00f3ria da mostra, numa acertada op\u00e7\u00e3o curatorial \u2013 colabora para uma compreens\u00e3o sobre o projeto do diretor. Ao lado dos aspectos analisados aqui, o que talvez tenha feito dele um nome a cada ano mais popular (e tamb\u00e9m controverso) na cena teatral contempor\u00e2nea \u00e9 que o diretor n\u00e3o deixa de situar a emo\u00e7\u00e3o como o ponto mais relevante de suas obras. Embora possa parecer um pressuposto question\u00e1vel, \u00e9 justamente essaa carga de afetividade, posta lado a lado ao distanciamento e \u00e0s quest\u00f5es contextuais, o que confere aos seus trabalhos alta relev\u00e2ncia tanto pol\u00edtica quanto est\u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por uma dial\u00e9tica do olhar Cr\u00edtica do espet\u00e1culo Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis Por Julia Guimar\u00e3es Na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4714,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[43],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4713"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4713"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4713\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4714"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4713"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}