{"id":4582,"date":"2019-03-17T15:40:25","date_gmt":"2019-03-17T18:40:25","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4582"},"modified":"2019-03-31T10:22:28","modified_gmt":"2019-03-31T13:22:28","slug":"sobre-ringues-e-dialogos-ou-cena-como-campo-de-batalha-por-soraya-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/sobre-ringues-e-dialogos-ou-cena-como-campo-de-batalha-por-soraya-martins\/","title":{"rendered":"Sobre ringues e di\u00e1logos ou a cena como campo de batalha <h6>Por Soraya Martins<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Sobre ringues e di\u00e1logos ou a cena como campo de batalha<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>O Alicerce das Vertigens<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Soraya Martins<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4584\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06.jpg\" alt=\"O Alicerce das Vertigens Dieudonne-Niangouna Foto Guto Muniz\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz06.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>A pe\u00e7a <em>O Alicerce das Vertigens<\/em> coloca em cena o drama do teatro africano, traz o que o ator de \u00c1frica quer colocar dele no mundo. E o que ele tem a dizer a partir do seu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o, como diz Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria para ninar os da Casa Grande-Colonizadores. Aqui se fala sobre e a partir de um pensamento cr\u00edtico e reflexivo, sobre modos outros de interpretar os processos hist\u00f3ricos e de forjar outras condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia para os corpos da negrura. Enganam-se as pessoas (brancas) que pensam que aqueles que n\u00e3o falam (negros) n\u00e3o tem nada a dizer. Eles &#8211; os negros africanos, negros em di\u00e1spora &#8211; foram sempre <em>silenciados<\/em>. As m\u00e1scaras de flandres existem! Existem corpos autorizados para o abate. A necropol\u00edtica fazendo a pol\u00edtica do exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>\u201cPode o subalterno falar?\u201d, pergunta Spivak. Como criar espa\u00e7os nos quais os subalternizados (n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o inerente, como a palavra subalterno indica) possam se articular e, como consequ\u00eancia, possam ser ouvidos? A palavra-linguagem \u00e9 um mecanismo de poder que pode tanto ser utilizada para manter o poder quanto para compartilh\u00e1-lo. Quando se fala de direito \u00e0 exist\u00eancia, \u00e0 voz (e ao direito a ser escutado), se fala de lugares sociais, de como certos lugares s\u00e3o invisibilizados, de como as diferen\u00e7as s\u00e3o vistas na sua negatividade e significam desigualdade, de como s\u00f3 um grupo espec\u00edfico est\u00e1 autorizado a falar.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4585\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2.jpg\" alt=\"O Alicerce das Vertigens Dieudonne-Niangouna Foto Guto Muniz\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz2.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>O diretor Dieudonn\u00e9 Niangouna tece um espet\u00e1culo textoc\u00eantrico, que, para al\u00e9m do ato de emitir palavras, se d\u00e1 para que identidades historicamente silenciadas e desautorizadas possam existir. A palavra na sofistica\u00e7\u00e3o das met\u00e1foras e meton\u00edmias, na ironia cortante que faz com que o espectador sinta o cheiro f\u00e9tido do empreendimento colonial. O del\u00edrio. O fantasma. A vertigem.<\/p>\n<p><em>O Alicerce das Vertigens<\/em> encena os fragmentos-vertigens de vida de dois irm\u00e3os, Fido e Roger, que veem o seu cotidiano na cidade de Brazzaville, capital da Rep\u00fablica do Congo, sua dimens\u00e3o familiar-\u00edntima, serem confundidas com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Dessa mistura, fragmentos-vertigens que v\u00e3o do pessoal ao coletivo e volta de novo no pessoal, surgem hist\u00f3rias que os textos da Hist\u00f3ria, as narrativas dos vencedores sistematicamente camuflam. Dessa pr\u00e1tica emerge um significante novo que vai paulatinamente inscrevendo a pe\u00e7a\/a performance em novos saberes sociais, culturais e hist\u00f3ricos.<\/p>\n<div id=\"attachment_4586\" style=\"width: 896px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4586\" class=\"size-full wp-image-4586\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05.jpg\" alt=\"\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz05.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><p id=\"caption-attachment-4586\" class=\"wp-caption-text\">O Alicerce das Vertigens Dieudonne-Niangouna Foto Guto Muniz<\/p><\/div>\n<p>Cen\u00e1rio fragmentado. Fragmentos de imagens. Fragmentos de mem\u00f3rias mobilizados para dar conta das experi\u00eancias negras fragmentadas em si mesma. A possibilidade de existir a partir do fragmento (que n\u00e3o \u00e9 um <em>processo<\/em> de \u201cdesencanto\u201d ou de desagrega\u00e7\u00e3o social, de um mundo fragmentado e polarizado entre capitalistas e comunistas, da efervesc\u00eancia das vertentes p\u00f3s-estruturalistas e desconstrutivistas, como acontece com o teatro contempor\u00e2neo branco-hegem\u00f4nico), <em>condi\u00e7\u00e3o<\/em> &#8211; sem possibilidades de escolhas, para os sujeitos negros moventes pelo mundo, devido \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada pelo capitalismo &#8211; para plantar a realidade de maneira outra, fazer cem milh\u00f5es de revolu\u00e7\u00f5es, mostrar outras possibilidades de estar e ser negro em cena, de ser negro pensante no mundo, de revisitar o passado, n\u00e3o como uma simples enuncia\u00e7\u00e3o oca, mas como uma tentativa, sempre retomada, de uma fidelidade \u00e0quilo que nele (passado) pedia outro devir. A possibilidade mesma de tecer um devir negro no mundo, apresentada no fim do espet\u00e1culo: tem-se uma tela branca vazia oferecida ao espectador pronta para ser colorida com hist\u00f3rias, mem\u00f3rias cosmologias, tecnologias e corpos negros. Pronta, como diz Jota Momba\u00e7a, para redistribuir as viol\u00eancias.<\/p>\n<p>O teatro de Niangouna se apresenta como lugar privilegiado de produ\u00e7\u00e3o de pensamento cr\u00edtico sobre a hist\u00f3ria de \u00c1frica, do Brasil e do mundo, local de produ\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria p\u00fablica no sentido mais sofisticado e abrangente do termo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre ringues e di\u00e1logos ou a cena como campo de batalha Cr\u00edtica do espet\u00e1culo O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4584,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[64],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4582"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4582"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4582\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4582"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}