{"id":4528,"date":"2019-03-16T12:15:50","date_gmt":"2019-03-16T15:15:50","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4528"},"modified":"2019-03-17T07:46:26","modified_gmt":"2019-03-17T10:46:26","slug":"o-peito-do-pai-por-paloma-franca-amorim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/o-peito-do-pai-por-paloma-franca-amorim\/","title":{"rendered":"O peito do pai <h6>Por Paloma Franca Amorim<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>O peito do pai<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>O Alicerce das Vertigens<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Paloma Franca Amorim<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4531\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1.jpg\" alt=\"O Alicerce das Vertigens Dieudonne-Niangouna Foto Guto Muniz\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz01-1.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Muito pouco se conhece no Brasil sobre a coloniza\u00e7\u00e3o dos povos africanos, esses que em contus\u00e3o diasp\u00f3rica s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o, ao lado dos povos ind\u00edgenas, da maior parte de nosso quadro racial e do imagin\u00e1rio social e pol\u00edtico que, em uma din\u00e2mica viva e de oscila\u00e7\u00e3o, ora \u00e9 esmagado pelo poder dominante, pautado pela voz hist\u00f3rica do colonizador, ora torna-se subst\u00e2ncia primeira de luta e resist\u00eancia.<\/p>\n<p><em>O Alicerce das Vertigens<\/em>, escrito e dirigido por Dieudounn\u00e9 Niangouna, parece reivindicar a palavra hist\u00f3rica \u00e0 luz dos vencidos &#8211; termo injusto para definir o processo de disputa ideol\u00f3gica encampado pelos povos do mundo subalternizados por conta do agenciamento branco\/europeu do territ\u00f3rio e, portanto, do capital. No espet\u00e1culo que se desdobra ao longo de quase duas horas em movimentos justapostos, rasgados \u00e0 navalha e colados como um quebra-cabe\u00e7a de atrocidades de ordem p\u00fablica e privada em Brazzaville, capital da Rep\u00fablica do Congo, manifesta-se a aferrada busca da narrativa poss\u00edvel a respeito de um passado \u00edntimo que traduz em signos violentos a experi\u00eancia da realidade citadina, do entorno social para al\u00e9m da resid\u00eancia familiar.<\/p>\n<p>O enredo conta a trajet\u00f3ria de Roger e Fido, dois irm\u00e3os que se percebem em face de uma crise social, estruturante de seu processo familiar, quando da morte do pai, Joachim. Esse conflito emocional expande-se em universo pol\u00edtico e se configura como express\u00e3o de uma dolorida an\u00e1lise sobre os temas da (neo)coloniza\u00e7\u00e3o, da territorialidade e da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Valendo-se de uma s\u00e9rie de imagens e a\u00e7\u00f5es c\u00eanicas em contiguidade, como num emaranhado-estopim de fagulhas hist\u00f3ricas apagadas sistematicamente pela vers\u00e3o do colonizador europeu, Niangouna dialoga com algumas teses contempor\u00e2neas a prop\u00f3sito do desenvolvimento da historiografia como um campo aberto, espa\u00e7o da intersec\u00e7\u00e3o entre o acontecimento factual, objeto do passado, findo, e o tempo presente, espa\u00e7o da aprendizagem, atrav\u00e9s da qual esse mesmo passado pode ser elaborado.<\/p>\n<p>Segundo o antrop\u00f3logo franc\u00eas Marc Aug\u00e9, no ensaio <em>O Passado, A Mem\u00f3ria, O Ex\u00edlio<\/em>:<\/p>\n<p>&#8220;<em>Na \u00c1frica, especialmente, a coloniza\u00e7\u00e3o foi um fen\u00f4meno repentino e r\u00e1pido, e gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as e de jovens foram convidadas a admitir, de um dia para o outro, que o mundo no qual eles haviam sido criados e educados n\u00e3o tinha sentido. <\/em>(&#8230;)&#8221;<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4529\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02.jpg\" alt=\"O Alicerce das Vertigens Dieudonne-Niangouna Foto Guto Muniz\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/O-Alicerce-das-Vertigens_Dieudonne-Niangouna_Foto-Guto-Muniz02.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Em <em>O Alicerce das Vertigens <\/em>o lugar dos significados da origem e do pertencimento e seu compuls\u00f3rio esvaziamento \u00e9 campo de batalha, entretanto, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de cis\u00e3o formal\/pol\u00edtica na abordagem est\u00e9tica do assunto uma vez que o espet\u00e1culo \u00e9 organizado e, por assim dizer, resolvido atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de excessiva ret\u00f3rica, t\u00e9cnica da palavra ocidental contornada por um princ\u00edpio de racionaliza\u00e7\u00e3o que acaba reproduzindo o valor lingu\u00edstico da domina\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e cultural europeia, a mesma que se procura criticar.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que para a organiza\u00e7\u00e3o do discurso c\u00eanico, sobretudo quando comentada a produ\u00e7\u00e3o africana ou amer\u00edndia, n\u00e3o existem apenas as vias duais, estereotipias tamb\u00e9m fruto da coloniza\u00e7\u00e3o, associadas a uma l\u00f3gica de oposi\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o e instinto, mas a grande quantidade de prosa narrativa no espet\u00e1culo acaba solapando a pot\u00eancia das imagens efusivamente dial\u00e9ticas apresentadas em cena como, por exemplo, a matan\u00e7a de vacas e, posteriormente, a degola de um homem &#8211; o que, por efeito, evidencia e condena uma indigna\u00e7\u00e3o seletiva do p\u00fablico brasileiro, majoritariamente branco na noite de ontem, quanto \u00e0 morte de centenas e milhares de pessoas negras no globo.<\/p>\n<p>Em determinado momento do espet\u00e1culo, um dos filhos de Joachin, morto por rajadas de tiros no peito desferidos pelo pr\u00f3prio irm\u00e3o, diz:<\/p>\n<p><em>A gente podia olhar o horizonte atrav\u00e9s dele.<\/em><\/p>\n<p>Niangouna conforma nessa frase um modo de enxergar as trag\u00e9dias de um pa\u00eds espoliado pelo mercantilismo colonial e neocolonial e seus efeitos de desumaniza\u00e7\u00e3o pelas retinas do afeto familiar, as alian\u00e7as contradit\u00f3rias do profundo de dentro. \u00a0O homem v\u00ea o horizonte atrav\u00e9s do pai, porque seu peito est\u00e1 aberto pelas balas e tamb\u00e9m porque, sim, atrav\u00e9s dos la\u00e7os ancestrais, num processo de ida e vinda no tempo, \u00e9 poss\u00edvel perspectivar algum horizonte, ainda que t\u00e3o longe, ainda que inexistente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O peito do pai Cr\u00edtica do espet\u00e1culo O Alicerce das Vertigens Por Paloma Franca Amorim [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4531,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[64],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4528"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4528"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4528\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4528"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=4528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}