{"id":4474,"date":"2019-03-15T15:31:42","date_gmt":"2019-03-15T18:31:42","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4474"},"modified":"2019-03-31T10:23:00","modified_gmt":"2019-03-31T13:23:00","slug":"ser-ou-nao-ser-esta-nao-deveria-ser-questao-mas-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/ser-ou-nao-ser-esta-nao-deveria-ser-questao-mas-e\/","title":{"rendered":"Ser ou n\u00e3o ser? Esta n\u00e3o deveria ser a quest\u00e3o. Mas \u00e9!<h6>Por Dodi Leal<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>Ser ou n\u00e3o ser? Esta n\u00e3o deveria ser a quest\u00e3o. Mas \u00e9!<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Dodi Leal<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4475\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b.jpg\" alt=\"A Repeti\u00e7\u00e3o: Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)\" width=\"886\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-768x537.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b-800x560.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02b.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/p>\n<p>Como pode um corpo violentado ter sua hist\u00f3ria documentada em cena? Em <em>A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)<\/em>, Milo Rau nos provoca a perceber que a dramaturgia cl\u00e1ssica da cena n\u00e3o d\u00e1 conta das explos\u00f5es e banalidades que levam que corpos n\u00e3o hegem\u00f4nicos tenham menos direito \u00e0 vida. Em cena acompanhamos as tentativas pr\u00e1ticas de recontar um caso de viol\u00eancia ocorrido em Li\u00e8ge (B\u00e9lgica) no ano de 2012, no qual um corpo \u00e9 torturado e morto cruelmente por ser quem \u00e9. Ihsane Jarfi, uma bixa de ascend\u00eancia \u00e1rabe, ganha na atua\u00e7\u00e3o de Tom Adjibi uma ossifica\u00e7\u00e3o que nos faz inevitavelmente lembrar que os corpos alvejados pelo \u00f3dio s\u00e3o doces. Em tempos de amea\u00e7as \u00e0 democracia, a apresenta\u00e7\u00e3o em nosso solo da obra encenada por Milo Rau nos faz perceber que o excesso de trag\u00e9dias que vivemos aqui nos d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de esgotamento provocado n\u00e3o apenas pela sobreposi\u00e7\u00e3o de atrocidades, mas pela perecibilidade da viol\u00eancia: mal processamos uma viol\u00eancia (vivida por n\u00f3s mesmo ou por outra\/s pessoas) e logo j\u00e1 se esfrega na nossa cara outra viol\u00eancia que cobra o estatuto de ser ainda pior. Precisamos ter estatura para sair desta l\u00f3gica. E o teatro, tem tido essa estatura?<\/p>\n<p>No Brasil de 2019, onde a expectativa de vida de pessoas trans continua em queda livre desde a m\u00e9dia de 36 anos registrada nos governos Lula e Dilma, nos perguntamos: as formas de se fazer teatro que conhecemos est\u00e3o realmente dando tratativa da posta do trauma em cena? Os corpos violentados est\u00e3o sendo mesmo documentados pela cena atual de modo a incidir e transformar a realidade? Ora, se a dramaturgia tradicionalmente privilegiou a trama como modo de conflito, parece que estamos diante de uma necessidade hist\u00f3rica n\u00e3o apenas de uma traumaturgia, mas de exercitar permanentemente o pensamento cr\u00edtico sobre quais os perigos e dobras de se configurar o trauma em cena. E sim, bixa \u00e9 uma forma trans.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia Shakespeariana de Hamlet inspirou Linn da Quebrada no texto de pref\u00e1cio do meu livro de poesias<em> De trans pra frente<\/em> (Editora Patu\u00e1: S\u00e3o Paulo, 2017) no qual ela diz \u2018Ser ou n\u00e3o ser? Esta n\u00e3o deveria ser a quest\u00e3o.\u2019 E hoje, infelizmente, temos de complementar: \u2018Mas \u00e9!\u2019. Em seu trabalho, a cantora travesti preta vem nos provocando a reconhecer os processos de desobedi\u00eancia de g\u00eanero inscritos em processos de dissid\u00eancia sexual: bixa travestchy e sapatrans. Lembremos: o \u00f3dio que levou a morte de Ihsane Jarfi diz sobre sua bixisse, sobre a maneira como a referencialidade imagin\u00e1ria feminina \u00e9 alvejada em um corpo cisgenerificado compulsoriamente como homem. O \u00f3dio que levou a morte de Jarfi n\u00e3o se trata, enfim, de uma viol\u00eancia sexual mas sim de uma viol\u00eancia de g\u00eanero. Mas n\u00e3o s\u00f3! A especula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria pela qual passou a personagem na repercuss\u00e3o do caso na justi\u00e7a e na m\u00eddia (e que somos induzidas a ter dimens\u00e3o por estalos do texto da pe\u00e7a), tem se concentrado em apenas um aspecto do \u00f3dio dentro deste quiproc\u00f3 sexualidade e g\u00eanero j\u00e1 mencionado. H\u00e1 uma outra camada pouco evidenciada do crime que se trata de uma discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial de um corpo com ascend\u00eancia \u00e1rabe. E como podemos nomear a opress\u00e3o a estes corpos?<\/p>\n<p><img class=\"size-full wp-image-4476 aligncenter\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02a.jpg\" alt=\"A Repeti\u00e7\u00e3o: Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)\" width=\"591\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02a-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02a-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02a-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02a.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><\/p>\n<p>Machado de Assis cunhou a express\u00e3o \u2018A Dem\u00eancia dos touros\u2019 em sua obra <em>O Alienista<\/em> no qual abordou n\u00e3o os modos da loucura, mas as determina\u00e7\u00f5es sociais dos crit\u00e9rios de quem \u00e9 louco\/a. Ao retomar esta provoca\u00e7\u00e3o em 2017, a Cia. Teatro do Perverto, que vem investigando os modos de tratamento da viol\u00eancia em cena, encenou a pe\u00e7a <em>A Dem\u00eancia dos touros <\/em>em S\u00e3o Paulo. Como dramaturgista dessa pe\u00e7a, procurei colaborar no processo no sentido de investigarmos o esvaziamento do termo <strong><em>fobia<\/em><\/strong>, subsidi\u00e1rio recorrente e com pretens\u00f5es naturalizantes, que vem sendo usado equivocadamente para se referir a opress\u00f5es a corpos sexualmente dissidentes (homofobia), corpos g\u00eanero-desobedientes (transfobia); al\u00e9m de outros como gordofobia, xenofobia, etc. Acontece que a no\u00e7\u00e3o de fobia indica mais uma poss\u00edvel dem\u00eancia do opressor do que exatamente a viol\u00eancia auferida por uma desigualdade de ordem social, com requintes de \u00f3dio pol\u00edtico. Ao lutar pela despatologiza\u00e7\u00e3o das transgeneridades, constatamos que precisamos tamb\u00e9m repensar como nomeamos as opress\u00f5es que vivemos para n\u00e3o cair no recurso simplista de patologizar o opressor sem nomear suas normas. E sim, \u00e9 preciso nomear as normas.<\/p>\n<p>A ironiza\u00e7\u00e3o da forma teatral e a pesquisa da trag\u00e9dia em cena trazida em <em>A Repeti\u00e7\u00e3o <\/em>nos instiga caminhos est\u00e9ticos extremamente provocativos que p\u00f5em em xeque os modos convencionais de se fazer teatro. Nas produ\u00e7\u00f5es teatrais recentes vemos o realce da a\u00e7\u00e3o enquanto artesania da cena a partir de seus riscos e labor presencial. Esse fen\u00f4meno que convencionamos nomear de performatividade \u00e9 trazido por Milo Rau com sutilezas de visualidades da cena que nos fazem perguntar durante a obra: onde est\u00e1 a a\u00e7\u00e3o nesse teatro? E s\u00e3o os jogos de c\u00e2mera que mediam a impress\u00e3o de real que temos: a proje\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea alternada com grava\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias nos faz duvidar da presen\u00e7a e da realidade. Outro artif\u00edcio sofisticado que nos exemplifica o v\u00eddeo como interventor do real \u00e9 seu cruzamento com a ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica em um dos momentos no qual j\u00e1 se sabe do artif\u00edcio de grava\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, o carro em movimento, \u00e9 acompanhado de uma lanterna no vidro dianteiro que com seus fachos epicizantes nos fazem perceber a performatividade da luz dos postes da estrada. A ironiza\u00e7\u00e3o do fazer teatral nos acompanha enquanto p\u00fablico da obra, desde a insidiosa necessidade de saber por onde come\u00e7ar as coisas, at\u00e9 a arrebatadora reflex\u00e3o: quando sabemos que h\u00e1 o fim? A finitude na pe\u00e7a \u00e9 trazida como uma provoca\u00e7\u00e3o ao posicionamento. Aqui o f\u00f3rum de Boal \u00e9 levado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias: se a\/o espectador n\u00e3o invadir a cena, as mortes ocorrer\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada ficou mais compreens\u00edvel no espet\u00e1culo do que o gromel\u00f4\/blabla\u00e7\u00e3o em benin\u00eas sobre nossa atual conjuntura pol\u00edtica. A trag\u00e9dia est\u00e1 anunciada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser ou n\u00e3o ser? Esta n\u00e3o deveria ser a quest\u00e3o. Mas \u00e9! 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