{"id":4461,"date":"2019-03-15T14:05:46","date_gmt":"2019-03-15T17:05:46","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=4461"},"modified":"2019-03-31T10:40:52","modified_gmt":"2019-03-31T13:40:52","slug":"banalidade-do-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/banalidade-do-bem\/","title":{"rendered":"A banalidade do bem <h6>Por Juliano Gomes<\/h6>"},"content":{"rendered":"<h3>A banalidade do bem<\/h3>\n<h4>Cr\u00edtica do espet\u00e1culo <strong><em>A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Por Juliano Gomes<\/p>\n<p><img width=\"800\" height=\"560\" class=\"size-400 wp-image-4462 aligncenter\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02.jpg\" alt=\"A Repeti\u00e7\u00e3o: Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri02.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>O teatro de Milo Rau se apoia no cruzamento entre a escolha de assuntos moralmente extremos (assassinatos b\u00e1rbaros, genoc\u00eddios) e uma meta-abordagem anal\u00edtica que almeja funcionar como for\u00e7a de contraponto \u00e0 possibilidade de explora\u00e7\u00e3o imoral dos acontecimentos abordados. Portanto, produz-se sempre um territ\u00f3rio movedi\u00e7o &#8211; onde uma sombra de explora\u00e7\u00e3o s\u00e1dica ou fetichista sempre se avizinha &#8211; cuja aposta repousa num dissecamento frio dos acontecimentos, onde o que ganha relevo \u00e9 justamente o esmero t\u00e9cnico destas t\u00e1ticas de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro ter\u00e7o de <em>A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I)<\/em> \u00e9 dedicado a coment\u00e1rios sobre o pacto teatral (\u201ccomo entrar num personagem?\u201d diz o ator, falando conosco diretamente) e a uma longa cena de uma audi\u00e7\u00e3o que se torna a base espacial e conceitual da explora\u00e7\u00e3o do assassinato real de um jovem homossexual na B\u00e9lgica. Ao final, retornamos aos coment\u00e1rios diretos sobre a representa\u00e7\u00e3o teatral &#8211; materializados no signo da fuma\u00e7a c\u00eanica &#8211; e a uma gag moral que \u00e9 abordada tamb\u00e9m no meio da montagem. Alude-se e encena-se o epis\u00f3dio de um ator que diante da plateia simula uma situa\u00e7\u00e3o de enforcamento, com uma corda pendurada no teto e uma cadeira. E essa configura\u00e7\u00e3o serve a imagem final do espet\u00e1culo: o ator vai se enforcar, o p\u00fablico ir\u00e1 assistir ou algu\u00e9m ir\u00e1 se levantar e salv\u00e1-lo? Uma pequena f\u00e1bula ret\u00f3rica sobre o velho dilema do \u201cespectador ativo\u201d e um suposto sadismo que essa posi\u00e7\u00e3o de imobilidade e contempla\u00e7\u00e3o engendraria.<\/p>\n<p>A moldura narrativa do espet\u00e1culo su\u00ed\u00e7o conduz a hip\u00f3tese de que o que realmente se deseja ali \u00e9 estudar as possibilidades de representa\u00e7\u00e3o. Conven\u00e7\u00f5es do cinema atravessam toda a pe\u00e7a, que conta com um h\u00e1bil cinegrafista no palco, e essas acentuam investimento nas camadas e formas de se mostrar um acontecimento, e do ru\u00eddo e altera\u00e7\u00e3o inerente a toda reencena\u00e7\u00e3o. Um carro id\u00eantico ao carro real do crime entra em cena. Elenco conversou com as pessoas reais ligadas ao acontecimento, foi ao julgamento e conheceu os parentes. Em um momento-chave, uma atriz explica ao outro ator como encenar tapas, socos e agress\u00f5es, como faz\u00ea-los parecerem reais. Isso fornece um h\u00e1bil \u00e1libi para que a pe\u00e7a explore graficamente a agress\u00e3o sofrida pelo personagem que \u00e9 espancado at\u00e9 morrer. Minutos depois do \u201cworkshop de agress\u00e3o c\u00eanica\u201d, vemos a agress\u00e3o c\u00eanica. O que se deseja \u00e9 trabalhar o contato da consci\u00eancia do artif\u00edcio pelo p\u00fablico com a encena\u00e7\u00e3o deliberada da viol\u00eancia \u2013 que, sem esse suplemento did\u00e1tico sobre a representa\u00e7\u00e3o, soaria somente perversa. A introdu\u00e7\u00e3o intelectual do procedimento produz um colch\u00e3o moral que ampara a presen\u00e7a da brutalidade gratuita no palco.<\/p>\n<p><img class=\"alignnone size-full wp-image-4463\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01-200x140.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01-300x210.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01-400x280.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01-600x420.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01-768x538.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/A-RepeticaoHistoriasTeatroFotoGutoMuniz_cri01.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Mas \u00e0 que essa combina\u00e7\u00e3o entre explora\u00e7\u00e3o sensacionalista e desconstru\u00e7\u00e3o semi\u00f3tica conduz? Qual \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o sens\u00edvel que se opera seja nas conven\u00e7\u00f5es teatrais e\/ou na arquitetura moral do acontecimento extremo?<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o nome da pe\u00e7a \u00e9 <em>A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I).<\/em> \u201cRepeti\u00e7\u00e3o\u201d significa, em v\u00e1rias l\u00ednguas, ensaio, no sentido teatral. Milo Rau est\u00e1 interessado em explorar as din\u00e2micas de duplica\u00e7\u00e3o e desdobramentos dos signos. Mas por que seria ent\u00e3o interessante um acontecimento extremo, um homic\u00eddio de motiva\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica, para servir de mat\u00e9ria a esse estudo?<\/p>\n<p>Na arte ocidental, pelo menos h\u00e1 50 anos, o humanismo (ou sua performance) \u00e9 uma mercadoria vital na liga\u00e7\u00e3o entre as artes e as institui\u00e7\u00f5es de fomento e financiamento. Na medida em que o capitalismo necropol\u00edtico avan\u00e7a, o vago tema da \u201cviol\u00eancia\u201d (que elegeu o atual presidente brasileiro) se torna um bem de cada vez mais valor. Supostamente abord\u00e1-la de uma maneira matizada \u00e9 o que as institui\u00e7\u00f5es, de uma maneira geral, mais desejam, no sentido de justificar sua miss\u00e3o de justi\u00e7a social. A\u00ed est\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o primordial da inser\u00e7\u00e3o das hashtags #homofobia #desemprego #imigra\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a. Uma esp\u00e9cie de adequa\u00e7\u00e3o a uma agenda institucional humanista que fornece o \u00e1libi perfeito para uma investiga\u00e7\u00e3o formal, que despida de sua superf\u00edcie de \u201crelev\u00e2ncia\u201d, desembocaria num exerc\u00edcio de desconstru\u00e7\u00e3o teatral possivelmente interessante, por\u00e9m amea\u00e7ado por uma impress\u00e3o de uma inutilidade perante a cren\u00e7a de utilidade imediata da arte, dessa f\u00e9 literal e ansiosa do \u201cmudar o mundo\u201d. Suponho que seria, no m\u00ednimo, mais dif\u00edcil conseguir financiamentos ou t\u00e3o ampla circula\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o. Portanto: que valor de fato se produz aqui?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A banalidade do bem Cr\u00edtica do espet\u00e1culo A Repeti\u00e7\u00e3o. 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