{"id":2731,"date":"2019-02-10T20:42:38","date_gmt":"2019-02-10T22:42:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?p=2731"},"modified":"2019-03-28T16:07:27","modified_gmt":"2019-03-28T19:07:27","slug":"entrevista-milo-rau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/entrevista-milo-rau\/","title":{"rendered":"Entrevista com Milo Rau &#8211;  Artista em Foco MITsp"},"content":{"rendered":"<h3>Entrevista com Milo Rau &#8211; Artista em Foco MITsp<\/h3>\n<div><em><strong>Por Daniele Avila Small, Julia Guimar\u00e3es, Luciana Romagnolli e S\u00edlvia Fernandes<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Patr\u00edcia Lopes<\/div>\n<p><strong>O primeiro ponto do NTGent Manifesto, lan\u00e7ado por voc\u00ea em maio de 2018, diz que o teatro n\u00e3o \u00e9 mais sobre mostrar o mundo e sim sobre mud\u00e1-lo. E que o objetivo n\u00e3o \u00e9 descrever o real, mas tornar a representa\u00e7\u00e3o em si real. De que modo essas duas premissas s\u00e3o trabalhadas nos espet\u00e1culos que voc\u00ea trar\u00e1 ao Brasil na MITsp?<\/strong><\/p>\n<p><img class=\" wp-image-4599 alignleft\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeticao-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2923-400x619.jpg\" alt=\"Milo Rau Jr Imagens\" width=\"340\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeticao-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2923-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeticao-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2923-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeticao-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2923-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeticao-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2923.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/>Eu trabalho com uma dial\u00e9tica entre o ativismo e a subst\u00e2ncia mais tr\u00e1gica do mundo. A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I) e Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora, por exemplo, pertencem ao lado mais tr\u00e1gico do meu teatro. Mas algumas de suas caracter\u00edsticas podem levar a mudan\u00e7as. Uma redefini\u00e7\u00e3o do olhar da plateia sobre a homossexualidade e o direito do outro, por exemplo, seria poss\u00edvel a partir de A Repeti\u00e7\u00e3o. Fora isso, a agressividade das personagens da pe\u00e7a \u2014 jovens de Li\u00e8ge, cidade belga, assassinos de um homossexual \u2014 pode ser vista como uma consequ\u00eancia da desindustrializa\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia causada pelo neoliberalismo na Europa Ocidental. Mas n\u00e3o est\u00e1 em cena uma efetiva mudan\u00e7a das quest\u00f5es abordadas, o que de fato acontece nas pe\u00e7as que realizei na General Assembly \u2014 The Congo Tribunal, The Moscow Trials e The Zurich Trials. Nessas, recriamos institui\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 mesmo inventamos organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o existiam. J\u00e1 Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis descreve o mundo, mais do que tenta transform\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Gosto sempre de citar o fil\u00f3sofo italiano Antonio Gramsci, que afirma que existe o pessimismo da raz\u00e3o e o otimismo da vontade. A Repeti\u00e7\u00e3o e Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis n\u00e3o s\u00e3o espet\u00e1culos otimistas, s\u00e3o bastante sombrios, at\u00e9 mesmo um pouco deprimentes. Mas apresentam um certo otimismo melanc\u00f3lico no quinto ato, no seu desfecho. \u00c9 importante dizer que minhas pe\u00e7as, mesmo as mais sombrias, t\u00eam uma caracter\u00edstica pela qual tenho muito apre\u00e7o: a solidariedade dos atores com o p\u00fablico. Por exemplo, crian\u00e7as interpretando o sombrio caso Dutroux. Para a minha gera\u00e7\u00e3o, uma hist\u00f3ria extremamente grave. Para elas, algo superado. A maneira como elas interpretam esse caso, como se fosse uma f\u00e1bula, \u00e9 muito interessante. E \u00e9 esse aspecto que gera um certo otimismo. O que tamb\u00e9m acontece em A Repeti\u00e7\u00e3o. Hist\u00f3ria(s) do Teatro (I), quando presenciamos pessoas sem camisa no palco, interpretando uma trag\u00e9dia. \u00c9 como se fosse uma vingan\u00e7a da arte contra a vida. Mas n\u00e3o configura de fato um ativismo, como o que se faz presente em The Congo Tribunal, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Outro ponto do manifesto prop\u00f5e a participa\u00e7\u00e3o de pelo menos dois atores n\u00e3o profissionais em cena. Quais quest\u00f5es eles trazem para o chamado \u201crealismo global\u201d que voc\u00ea tem buscado construir?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, essa \u00e9 uma das regras. Mas acredito ser necess\u00e1rio observar as regras como um todo. \u00c9 dif\u00edcil pin\u00e7ar apenas uma delas, como a primeira, que \u00e9 sobre a transforma\u00e7\u00e3o da realidade. Ambas s\u00e3o importantes para o \u201crealismo global\u201d, assim como as diferentes l\u00ednguas importam. Para mim, \u00e9 tamb\u00e9m relevante que o teatro n\u00e3o seja realizado apenas por profissionais, por especialistas. Eu sou um diretor, por que s\u00f3 poderia dirigir pe\u00e7as previamente escritas ou interpretadas por profissionais, que, assim que aprendem as falas, apresentam-se num palco? Realmente me interessa entrela\u00e7ar essas fun\u00e7\u00f5es. Por isso, pe\u00e7o aos atores para contarem sobre suas vidas ou escreverem as pr\u00f3prias falas. Os atores se tornam dramaturgos. Meu desejo de reunir profissionais com pessoas de um contexto diverso ao do teatro se origina tamb\u00e9m nesse ponto. Por exemplo, em Hate Radio, pe\u00e7a sobre o genoc\u00eddio em Ruanda, trabalhar com ruandeses era de uma import\u00e2ncia extrema. Eles conheciam o assunto e, de certa forma, tornavam-se moderadores, enquanto eu tentava dar forma a uma experi\u00eancia que n\u00e3o era a minha. De alguma maneira, preciso deles. O fato de n\u00e3o serem profissionais n\u00e3o \u00e9 o que importa, inclusive porque o que geralmente acontece \u2013 ocorreu ap\u00f3s minha pe\u00e7a mais recente, Lam Gods, ou com A Repeti\u00e7\u00e3o, e mesmo com as crian\u00e7as que atuam em Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis \u2013, \u00e9 que eles estreiam nas minhas pe\u00e7as e logo participam de outros espet\u00e1culos, filmes ou passam a fazer parte do Ghent Ensemble.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse em uma entrevista que \u201crealismo\u201d, para voc\u00ea, significa \u201ccriar uma situa\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel\u201d. Por que o risco real te parece t\u00e3o potente em termos art\u00edsticos, pol\u00edticos, morais e existenciais?<\/strong><\/p>\n<p>Dentre os formatos art\u00edsticos, o teatro, especialmente, n\u00e3o se resume a um produto, j\u00e1 que abrange um ininterrupto processo de produ\u00e7\u00e3o c\u00eanica, do qual nunca se sabe qual ser\u00e1 o desfecho. Por exemplo, a pe\u00e7a que ensaio neste exato momento [janeiro de 2019], intitulada Orestes in Mosul, trata-se de uma coprodu\u00e7\u00e3o com Mossul, a cidade iraquiana. N\u00e3o sabemos como ser\u00e1 o resultado. E o mesmo ocorreu com A Repeti\u00e7\u00e3o, n\u00f3s fomos at\u00e9 a cidade de Li\u00e8ge para iniciar o processo de sele\u00e7\u00e3o de elenco, e a pe\u00e7a aborda o processo como um todo. Fazer teatro \u00e9 abrir um processo, iniciar uma discuss\u00e3o, criar uma esp\u00e9cie de novo coletivo, de nova solidariedade. E qual ser\u00e1 o resultado? N\u00e3o sei. Por isso, na maioria das vezes, n\u00e3o enceno cl\u00e1ssicos. Para tentar escrever [as pe\u00e7as] no momento exato da cria\u00e7\u00e3o. Portanto, o risco est\u00e1 no processo como um todo. N\u00e3o se trata de ser perigoso. Eu n\u00e3o consigo ver nenhum sentido em simplesmente colocar pessoas em risco. \u00c9 arriscado no sentido de que vivenciamos um processo que nunca saberemos se dar\u00e1 certo. O teatro, assim como a arte em geral, \u00e9 uma esp\u00e9cie de desafio. Imposs\u00edvel saber se seremos bem-sucedidos. Para dar outro exemplo, quando montamos Hate Radio, a pe\u00e7a sobre o genoc\u00eddio em Ruanda, antes de iniciar a turn\u00ea europ\u00e9ia nos apresentamos na cidade africana; quer\u00edamos ter certeza de que hav\u00edamos conseguido realizar a pe\u00e7a, de que tivemos \u00eaxito em alcan\u00e7ar uma esp\u00e9cie de dureza presente na popula\u00e7\u00e3o de Ruanda. N\u00f3s est\u00e1vamos muito nervosos, especialmente, \u00e9 claro, os atores ruandeses. Eles n\u00e3o haviam retornado \u00e0 cidade desde o genoc\u00eddio e estavam muito apreensivos se seriam compreendidos. E foi necess\u00e1rio [para o processo] que eles vivenciassem essa situa\u00e7\u00e3o. Fora isso, s\u00f3 fico motivado a trabalhar quando n\u00e3o tenho ideia do que ir\u00e1 acontecer no pr\u00f3ximo ensaio. Diversas vezes, fiz a besteira de criar vers\u00f5es para as minhas pe\u00e7as. Sempre foi um erro. As reedi\u00e7\u00f5es foram extremamente tediosas. N\u00e3o \u00e9 o jeito que gosto de trabalhar. Gosto simplesmente de improvisar, do in\u00edcio ao fim.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 em alguns de seus trabalhos a cria\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es em que problemas sociais de outros pa\u00edses possam ser elaborados criticamente, por exemplo, o genoc\u00eddio em Ruanda. Enquanto homem branco, europeu, nascido em um continente que foi respons\u00e1vel pela coloniza\u00e7\u00e3o de outros, quais reflex\u00f5es cr\u00edticas lhe parecem importantes para n\u00e3o repetir o gesto colonizador no teatro? E como isso pode ser visto em estrat\u00e9gias dramat\u00fargicas em suas pe\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de uma quest\u00e3o de imposs\u00edvel supera\u00e7\u00e3o. O \u00fanico caminho seria n\u00e3o montar pe\u00e7as sobre outros pa\u00edses, sobretudo para quem, como eu, nasceu em um continente \u201ccolonizador\u201d. Eu acho que o problema \u00e9 que o homem branco, especialmente o europeu, est\u00e1, de qualquer forma, presente na \u00c1frica. Por isso, uma presen\u00e7a solid\u00e1ria, um interc\u00e2mbio, um contra-ataque, uma resposta \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do continente europeu na economia, configuram um rumo poss\u00edvel. Eu decidi, ou talvez n\u00e3o tenha sido uma decis\u00e3o, seguir esse caminho, porque vivemos em um \u00fanico mundo. Infelizmente, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas n\u00e3o cessam com as fronteiras, que, por sua vez, n\u00e3o paralisam a economia. N\u00e3o h\u00e1 uma arte realista global, embora haja uma economia global. Eu aposto em uma abordagem global das quest\u00f5es universais, a partir da busca por uma metodologia com um enfoque horizontal. Talvez as cr\u00edticas sejam dirigidas \u00e0s abordagens verticais. Mas n\u00e3o tenho todas as respostas. Eu estabele\u00e7o pr\u00e1ticas [para alcan\u00e7ar a abordagem horizontal] e as questiono a cada projeto. A pe\u00e7a Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora, por exemplo, aborda o genoc\u00eddio em Ruanda e a Guerra Civil no Congo. Mas apresenta tamb\u00e9m uma vigorosa cr\u00edtica \u00e0 \u201cind\u00fastria assistencialista ocidental\u201d e \u00e0 \u201cmiserabilidade na arte\u201d, uma consequ\u00eancia do processo de globaliza\u00e7\u00e3o. Portanto, de certa forma, fa\u00e7o uma autocr\u00edtica sobre o meu gesto de falar a respeito da R\u00fassia, de Ruanda e do Congo, e n\u00e3o apenas sobre Li\u00e8ge, Su\u00ed\u00e7a e Alemanha.<\/p>\n<p><strong>Em entrevista recente, voc\u00ea afirma que h\u00e1 duas vias poss\u00edveis para o teatro contempor\u00e2neo, a trag\u00e9dia e o ativismo. Como o ativismo se d\u00e1 na pr\u00e1tica de seu trabalho, dentro e fora da cena? Que aspectos do tr\u00e1gico identifica em suas pe\u00e7as que est\u00e3o na MITsp 2019 e que estrat\u00e9gias utiliza para materializar a tragicidade no di\u00e1logo com dispositivos da cena documental?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 sempre um equil\u00edbrio entre esses dois caminhos. O in\u00edcio da nossa conversa abordou a est\u00e9tica e a arte descritiva. Eu acredito na arte realista. E a realidade \u00e9 um processo tr\u00e1gico. Mas h\u00e1 outra faceta da minha obra, que tem uma abordagem mais ativista. Por exemplo, apresentei Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora e Hate Radio, enquanto encenava The Congo Tribunal, para a qual criamos uma inexistente e simb\u00f3lica organiza\u00e7\u00e3o sindical econ\u00f4mica global, visando a compreender e, quem sabe, a transformar a situa\u00e7\u00e3o do Congo. De fato, para que eu n\u00e3o me torne um c\u00ednico, buscamos um equil\u00edbrio entre os projetos realistas\/documentais e os ut\u00f3picos\/ativistas. Quanto mais envelhe\u00e7o, mais compreendo o quanto o otimismo e o pessimismo, a trag\u00e9dia e o ativismo, est\u00e3o vinculados. Sem a subst\u00e2ncia tr\u00e1gica do mundo, o ativismo torna-se apenas uma ingenuidade. Por outro lado, s\u00f3 o tr\u00e1gico, sem um tra\u00e7o de utopia, faria de mim, e de todos n\u00f3s, c\u00ednicos. De fato, h\u00e1 uma dial\u00e9tica. Um precisa do outro.<\/p>\n<p><strong>Em Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis, quais cuidados voc\u00ea tomou na sele\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o de atores crian\u00e7as no sentido de criar um ambiente seguro para elas, considerando tanto quest\u00f5es como a impossibilidade de a crian\u00e7a dar consentimento em raz\u00e3o de sua imaturidade, mas tamb\u00e9m a import\u00e2ncia de participarem das discuss\u00f5es sobre quest\u00f5es que lhes dizem respeito, para o pr\u00f3prio amadurecimento delas? E, especificamente, como foi a negocia\u00e7\u00e3o e a prepara\u00e7\u00e3o da cena com a Rachel, que representa uma das v\u00edtimas?<\/strong><\/p>\n<p><img class=\" wp-image-4600 alignright\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeti\u00e7\u00e3o-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2939-400x619.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeti\u00e7\u00e3o-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2939-194x300.jpg 194w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeti\u00e7\u00e3o-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2939-200x310.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeti\u00e7\u00e3o-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2939-400x619.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/PP_A-Repeti\u00e7\u00e3o-Hist\u00f3rias-do-Teatro_Milo-Rau_Foto_Nereu-Jr_2939.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/>N\u00f3s trabalhamos muito tempo em Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis. Ao longo de um ano, ensaiamos e, desde ent\u00e3o \u2014 a pe\u00e7a completou tr\u00eas anos \u2014, seguimos com as apresenta\u00e7\u00f5es em diversos lugares do mundo. Para as crian\u00e7as, a experi\u00eancia pode ser comparada a uma escola de teatro. Na equipe, h\u00e1 dois preparadores, dois psic\u00f3logos. Portanto, antes e depois dos ensaios, sempre convers\u00e1vamos muito. \u00c9 muito importante, quando voc\u00ea trabalha com crian\u00e7as, ou com adolescentes, que fique claro para elas que o comportamento fora de cena difere daquele estabelecido para o palco, onde elas se tornam artistas, devem ter profissionalismo, concentra\u00e7\u00e3o e foco para executar as falas e as a\u00e7\u00f5es com significado c\u00eanico. J\u00e1 fora do palco, s\u00e3o apenas crian\u00e7as. Foi nessa quest\u00e3o que trabalhamos durante muito tempo. Eu fiquei bastante impressionado, at\u00e9 um pouco chocado \u2014 porque sou um tanto mais velho do que essa gera\u00e7\u00e3o \u2014, com a abrang\u00eancia do conhecimento dessas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nos primeiros ensaios, perguntei o que elas sabiam sobre o Caso Dutroux. Elas sabiam de tudo, at\u00e9 que v\u00edtimas de estupro precisam fazer um teste de DNA. Quando eu tinha a idade delas, meu entendimento era muito mais restrito. Mas \u00e9 claro que se trata, sobretudo, de um conhecimento te\u00f3rico. Para elas, Dutroux \u00e9 uma fantasia. Elas interpretam monstros, mas a maneira como atuam as blinda de ficarem traumatizadas. Eu acredito que o grande obst\u00e1culo, para elas, parte da press\u00e3o social de estar em cena, participando de uma turn\u00ea. Elas inspiram cuidados n\u00e3o apenas ao longo dos ensaios, por conta do tema e do argumento da pe\u00e7a, mas tamb\u00e9m pela maneira como interagem com o grupo. Eu preciso dizer, e aprendi tudo isso com os psic\u00f3logos que nos acompanham, que as crian\u00e7as t\u00eam sempre infinitas possibilidades de refletir sobre tudo. Por outro lado, adoraria ter tido, quando crian\u00e7a, a oportunidade que elas t\u00eam de viajar pelo mundo, de conhecer o teatro e de visitar diversos pa\u00edses. Elas est\u00e3o muito mais fortes do que quando as conheci, eram criancinhas e tornaram-se jovens atores. \u00c9 impressionante como o teatro tem o poder de ajudar no processo de amadurecimento.<\/p>\n<p>Sobre a Rachel, \u00e9 claro que conversamos com ela e seus pais diversas vezes. Na realidade, escalar uma crian\u00e7a \u00e9 elencar a fam\u00edlia dela. E fico muito feliz que a maioria dos pais [dos atores da pe\u00e7a] tenha uma rela\u00e7\u00e3o de amizade comigo. Ao longo de todos esses anos, trabalhamos juntos. Eles aprenderam todo o texto da pe\u00e7a, especialmente os pais da Rachel. A m\u00e3e dela \u00e9 pediatra e o pai \u00e9 luthier. Eles s\u00e3o muito art\u00edsticos. Na minha opini\u00e3o, sabem cuidar muito bem da filha, distinguem o que \u00e9 bom ou n\u00e3o para ela. Daqui a alguns anos, a Rachel estar\u00e1 mais velha e talvez tenhamos que mudar a concep\u00e7\u00e3o da cena. N\u00f3s conversamos a cada nova apresenta\u00e7\u00e3o. Sempre me impressiona a quantidade de viol\u00eancia e de pornografia presentes na nossa m\u00eddia e, ao mesmo tempo, o choque causado por essa cena t\u00e3o delicada com crian\u00e7as. Houve uma escandaliza\u00e7\u00e3o desse espet\u00e1culo, repetidas vezes, e muita estupidez foi escrita. Mas todos que de fato assistiram \u00e0 pe\u00e7a concordam que [a cena com Rachel] n\u00e3o passa de um singelo e po\u00e9tico momento.<\/p>\n<p><strong>Nas tr\u00eas pe\u00e7as, voc\u00ea utiliza a duplica\u00e7\u00e3o da imagem dos atores e atrizes em v\u00eddeo. O que esse dispositivo faz, como ele opera na rela\u00e7\u00e3o com o espectador?<\/strong><\/p>\n<p>Eu utilizo a c\u00e2mera de diferentes formas, de acordo com a necessidade de cada pe\u00e7a. Em Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis, as imagens dos atores adultos s\u00e3o projetadas e as crian\u00e7as no palco interpretam as mesmas cenas, simultaneamente \u2014 como se fosse uma esp\u00e9cie de reencena\u00e7\u00e3o, ou reflexo. A c\u00e2mera tamb\u00e9m serve para me aproximar dos rostos dos atores, gerando close-ups, possibilitando uma melhor visualiza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es nas faces dos atores, o que cria uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com o p\u00fablico. \u00c0s vezes, a c\u00e2mera realiza apenas a duplica\u00e7\u00e3o de uma cena real, o que causa um distanciamento. Por exemplo, em Compaix\u00e3o. A Hist\u00f3ria da Metralhadora, h\u00e1 um momento em que a atriz \u201csai\u201d da proje\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria imagem e o v\u00eddeo segue. O p\u00fablico ent\u00e3o entende que a cena durante todo o tempo era \u201cfalsa\u201d. Esse recurso gera um questionamento sobre o limite entre a atua\u00e7\u00e3o e a realidade. Outras vezes, apenas fa\u00e7o um registro, como nos filmes que realizei para o cinema, que, muitas vezes, partiram da filmagem de uma pe\u00e7a. E h\u00e1 tamb\u00e9m as performances, gravadas porque eram apresenta\u00e7\u00f5es \u00fanicas. Nesse caso, \u00e9 um arquivo.<\/p>\n<p><strong>Tendo em vista que as pe\u00e7as abordam traumas individuais e coletivos, que concernem \u00e0 dor do outro e eventualmente ao lugar de fala do outro, quais foram os dilemas \u00e9ticos mais significativos nos processos de cria\u00e7\u00e3o desses espet\u00e1culos? E que consequ\u00eancias esses dilemas trouxeram para a cena?<\/strong><\/p>\n<p>A Repeti\u00e7\u00e3o aborda o assassinato de Ihsane Jarfi, ocorrido h\u00e1 seis anos, e Cinco Pe\u00e7as F\u00e1ceis, o Caso Dutroux, que aconteceu h\u00e1 20 anos. Ambos s\u00e3o traumas coletivos na B\u00e9lgica. Algumas das v\u00edtimas, os criminosos, e seus parentes est\u00e3o vivos. Por isso, antes de iniciarmos o processo, por uma quest\u00e3o \u00e9tica, entramos em contato com todos os envolvidos e os convidamos para participar dos ensaios. Algumas vezes \u2014 o que ocorreu com o pai, o ex-namorado e um dos assassinos de Jarfi, por exemplo \u2014, trabalhamos em uma colabora\u00e7\u00e3o muito estreita. Se n\u00e3o me engano, o pai e o ex-namorado at\u00e9 cogitaram estar em cena. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pr\u00f3xima. Al\u00e9m disso, temos a necessidade de nos apresentarmos onde os casos ocorreram. Por exemplo, a estr\u00e9ia de A Repeti\u00e7\u00e3o foi em Li\u00e8ge, local do assassinato de Jarfi. N\u00f3s realmente tentamos estar o mais pr\u00f3ximos poss\u00edvel deles, tamb\u00e9m por uma quest\u00e3o est\u00e9tica, por ser necess\u00e1rio para a cria\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. Por\u00e9m, ao fim do processo, abordamos os casos de uma forma universal, embora sempre seja imprescind\u00edvel um certo artif\u00edcio, porque, na minha opini\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel realizar um teatro documental. O teatro opera, inevitavelmente, uma total transforma\u00e7\u00e3o no caso em quest\u00e3o. Portanto, cada acontecimento se transforma em uma hist\u00f3ria relacionada a todos n\u00f3s, a partir de uma perspectiva mais universal. Os envolvidos nos crimes precisam ter essa consci\u00eancia. Por isso, n\u00f3s conversarmos com eles n\u00e3o s\u00f3 para apreender o que aconteceu, como tamb\u00e9m para que haja a compreens\u00e3o de que uma pe\u00e7a de teatro n\u00e3o \u00e9 uma reportagem.<\/p>\n<p><strong>Em seus trabalhos h\u00e1 uma abordagem explosiva da \u201cquest\u00e3o do mal\u201d, relacionada ao conceito de banalidade do mal de Hannah Arendt, e \u00e0s v\u00edtimas da espolia\u00e7\u00e3o colonial, do racismo, das guerras e dos desastres econ\u00f4micos e clim\u00e1ticos decorrentes do neoliberalismo financeiro. Como as pe\u00e7as apresentadas na MITsp dialogam com essas quest\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>O teatro, da maneira como o concebemos, \u00e9 um espa\u00e7o simb\u00f3lico que possibilita certa forma de solidariedade. Por exemplo, eu classifico The Congo Tribunal como institui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. No Congo, n\u00e3o h\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o sindical que se ocupe de crimes econ\u00f4micos. Portanto, criamos uma. E l\u00e1 nos apresentamos junto a advogados de sindicatos internacionais. Assim, n\u00f3s concebemos o \u00fanico espa\u00e7o onde a justi\u00e7a p\u00f4de ser feita. Eu acredito que o teatro pode contribuir, de forma simb\u00f3lica, ao estabelecer uma esp\u00e9cie de revanche. \u00c9 um espa\u00e7o ut\u00f3pico para a a\u00e7\u00e3o, onde um crime pode transcender, alcan\u00e7ar a todos, em algum outro lugar, onde h\u00e1 justi\u00e7a, imputa\u00e7\u00e3o e etc. Sinceramente, n\u00e3o estou sendo nada ir\u00f4nico ou c\u00ednico. Eu realmente acredito que a arte tem a for\u00e7a necess\u00e1ria para conseguir reunir pessoas em torno de uma realiza\u00e7\u00e3o, de uma mudan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o da realidade, ou at\u00e9 de uma efetiva mudan\u00e7a na estrutura, ou na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Uma das consequ\u00eancias do The Congo Tribunal foi a demiss\u00e3o de ministros\u2026 A arte \u00e9 capaz de transformar gestos simb\u00f3licos em justi\u00e7a concreta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Milo Rau &#8211; Artista em Foco MITsp Por Daniele Avila Small, Julia Guimar\u00e3es, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2734,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[40],"tags":[65],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2731"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2731"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2731\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2731"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2731"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2731"},{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=2731"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}