{"id":5345,"date":"2019-11-19T19:22:56","date_gmt":"2019-11-19T22:22:56","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?page_id=5345"},"modified":"2019-11-20T10:58:33","modified_gmt":"2019-11-20T13:58:33","slug":"para-mastigar-o-teatro-notas-sobre-o-fringe-2019","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/para-mastigar-o-teatro-notas-sobre-o-fringe-2019\/","title":{"rendered":"PARA MASTIGAR O TEATRO"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: center;\">Para mastigar o teatro: Notas sobre o Fringe e o Edinburgh Showcase British Council 2019<\/h3>\n<h6><strong>Por Daniele Avila Small \u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<p>Em agosto de 2019, passei uma semana em Edimburgo, assistindo \u00e0s pe\u00e7as do Fringe, festival que viabiliza um imenso mercado de artes c\u00eanicas que \u00e9 refer\u00eancia no mundo inteiro. Representando a MITsp \u2013 Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo,\u00a0 acompanhei a programa\u00e7\u00e3o do Edinburgh Showcase do British Council (que inclui obras que fazem parte do Edinburgh Festival Fringe e do Edinburgh International Festival). Foram mais de trinta espet\u00e1culos em seis dias \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 nada em compara\u00e7\u00e3o aos quase 4.000 que fizeram parte da edi\u00e7\u00e3o deste ano. Neste artigo, escrevo sobre uma parte dessa programa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pretendo fazer uma cr\u00edtica de cada trabalho, mas apresentar algumas ideias que se formaram no ac\u00famulo e nos atravessamentos.<\/p>\n<p>Observo os n\u00fameros do festival, ciente da relev\u00e2ncia que esse evento tem para a economia da cidade e do pa\u00eds em que acontece. O Fringe movimenta cerca de 140 milh\u00f5es de libras e gera quase 3.000 empregos na cidade. Enquanto o atual governo brasileiro p\u00f5e em pr\u00e1tica o projeto de destruir a nossa produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, me pergunto se tais l\u00edderes pol\u00edticos t\u00eam ideia da diferen\u00e7a que a cultura faz na economia de um pa\u00eds. O que eles querem destruir afinal?<\/p>\n<p>Olhando retrospectivamente, depois de voltar para o Rio de Janeiro, o que ficou mais firme na minha mem\u00f3ria foi a mirada cr\u00edtica sobre a masculinidade, sua rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia e com o desejo de aniquila\u00e7\u00e3o do outro, mas principalmente no seu modo de lidar com o poder \u2013 tanto na atualidade da vida cotidiana quanto em uma perspectiva hist\u00f3rica. Assim, nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas, fa\u00e7o uma reflex\u00e3o sobre as pe\u00e7as a partir dessa ideia de masculinidade, seus impactos concretos e as proposi\u00e7\u00f5es que se colocam na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a essa vis\u00e3o de mundo, confrontando o colonialismo e a xenofobia, a misoginia, a transfobia e o racismo, por exemplo. Mas falo tamb\u00e9m sobre outros espet\u00e1culos, que n\u00e3o necessariamente abordam esses temas e que marcaram positivamente a minha experi\u00eancia do festival.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>HOMENS, INTERNET E POL\u00cdTICA<\/strong><\/h4>\n<p>Alguns temas caros \u00e0s discuss\u00f5es sobre identidade e pol\u00edtica no Reino Unido s\u00e3o explorados nos solos de Chris Thorpe e Javaad Alipoor que, apesar de bastante diferentes, formaram uma dupla interessante no conjunto do showcase. Ambos trabalham com uma no\u00e7\u00e3o de dramaturgia que n\u00e3o separa texto, encena\u00e7\u00e3o, atua\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o cr\u00edtica. Expondo suas experi\u00eancias, pesquisas, ideias e insights, eles n\u00e3o pretendem revelar verdades ocultas ou transmitir informa\u00e7\u00f5es para os espectadores, mas compartilhar suas ideias sobre o mundo em que vivemos, chamando aten\u00e7\u00e3o para as estruturas que constroem os afetos, as vis\u00f5es de mundo e, acima de tudo, as no\u00e7\u00f5es de &#8220;n\u00f3s e eles&#8221;.<\/p>\n<p><em>The Believers Are But Brothers<\/em>, palestra-performance de Javaad Alipoor, com dire\u00e7\u00e3o dele e de Kristy Housley, e que conta com a colabora\u00e7\u00e3o de Chris Thorpe como dramaturgista, coloca em jogo ideias cruciais sobre masculinidade, identidade, e o modo como a tecnologia est\u00e1 atuando sobre essas no\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante observar que \u00e9 um artista mu\u00e7ulmano que, ao tomar a palavra, se posiciona como um agente epistemol\u00f3gico na lida com um assunto sobre o qual, no Reino Unido, ele seria tomado como objeto, como alteridade.<\/p>\n<p>Antes do in\u00edcio da apresenta\u00e7\u00e3o realizada no Studio Two do Assembly, somos convidados a entrar em um grupo de WhatsApp, pois a dramaturgia se d\u00e1 tamb\u00e9m na intera\u00e7\u00e3o proporcionada por esse dispositivo. Algumas cita\u00e7\u00f5es do texto fazem mais sentido se recebidas na moldura do aplicativo, na tela do telefone de cada espectador, pois o modo como as intera\u00e7\u00f5es acontecem na internet \u00e9 t\u00e3o relevante quanto os conte\u00fados que nela circulam. H\u00e1 diversas interven\u00e7\u00f5es que acontecem apenas pelo aplicativo, como um recurso realista que invade o ambiente supostamente seguro de uma pe\u00e7a de teatro e provoca atravessamentos desconcertantes.<\/p>\n<p>Expondo sua investiga\u00e7\u00e3o sobre o extremismo isl\u00e2mico em rela\u00e7\u00e3o aos modos de aliciamento nas redes sociais e a uma s\u00e9rie de campanhas de \u00f3dio na Internet (o Gamergate, o movimento Red Pill e os discursos de \u00f3dio fomentados em sites como o 4chan), Alipoor situa a viol\u00eancia de jovens que aderem a movimentos extremistas em um contexto mais amplo. Ele explora o terror iminente do ajuntamento de homens frustrados de qualquer religi\u00e3o, etnia ou nacionalidade, trazendo \u00e0 tona o debate sobre a onda de viol\u00eancia dos incels, por exemplo. Na verticalidade da sua pesquisa, Alipoor est\u00e1 falando sobre um problema que diz respeito ao mundo inteiro, afinal, a vit\u00f3ria de pautas de extrema direita est\u00e1 relacionada com a capilaridade e o poder de mobiliza\u00e7\u00e3o desses grupos rancorosos.<\/p>\n<p><em>Status<\/em>, solo de Chris Thorpe dirigido por Rachel Chavkin, apresentado no Blue Room do Assembly, traz uma fantasiosa narrativa de viagem entremeada por can\u00e7\u00f5es. Thorpe se dirige ao p\u00fablico, narrando a hist\u00f3ria de um cidad\u00e3o ingl\u00eas, que por acaso tem dois passaportes, e empreende uma jornada para questionar sua no\u00e7\u00e3o de pertencimento a uma nacionalidade, encontrando personagens aleg\u00f3ricos e passando por situa\u00e7\u00f5es desafiadoras. Por um lado, o tema pode parecer restrito ao contexto local, mas as quest\u00f5es s\u00e3o relevantes para al\u00e9m dos problemas do Reino Unido, pois as ideias mais distorcidas sobre nacionalidade fazem parte do surto coletivo resultante das manipula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no mundo atual. Pode-se observar que o discurso subjacente \u00e0 propaganda nacionalista est\u00e1 diretamente ligado aos valores patriarcais que t\u00eam aparecido nas mais assustadoras campanhas pol\u00edticas. Sabendo dos riscos de fazer o papel do &#8220;branco bacana&#8221; na lida com seus privil\u00e9gios e de cair na armadilha de &#8220;pregar para convertidos&#8221;, Thorpe aborda uma quest\u00e3o atual de pol\u00edtica internacional pelo ponto de vista das implica\u00e7\u00f5es mais individuais e subjetivas.<\/p>\n<div id=\"attachment_5347\" style=\"width: 2010px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5347\" class=\"wp-image-5347 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard.jpg\" alt=\"Javaad Alipoor ph the Other Richard\" width=\"2000\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-200x113.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-300x169.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-400x225.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-600x338.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-768x432.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-800x450.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard-1200x675.jpg 1200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/javaad-alipoor-ph-the-other-richard.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><p id=\"caption-attachment-5347\" class=\"wp-caption-text\">The Believers Are But Brothers. Foto: The Other Richard.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>ALTERIDADE E LINGUAGEM <\/strong><\/h4>\n<p>O racismo e a xenofobia s\u00e3o abordados em <em>The Claim<\/em>, espet\u00e1culo dirigido por Mark Maughan, apresentado na arena do Roundabout, no Summerhall. Um imigrante congol\u00eas pede asilo ao Reino Unido e \u00e9 recebido por uma entrevistadora que o tem sob suspeita <em>a priori <\/em>e um int\u00e9rprete cuja presun\u00e7\u00e3o \u00e9 maior que sua capacidade de falar a l\u00edngua do imigrante. O tradutor \u00e9 uma caricatura da vaidade paternalista do homem branco que v\u00ea a si mesmo como um grande salvador; a tradu\u00e7\u00e3o aparece como uma media\u00e7\u00e3o perversa, uma outra forma de opress\u00e3o. A dramaturgia de Tim Cowbury, habilidosa na elabora\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos, \u00e9 praticamente um thriller. Um pouco mais de viol\u00eancia e ter\u00edamos uma pe\u00e7a de terror \u2013 o que n\u00e3o seria um exagero, afinal, a experi\u00eancia do racismo e da xenofobia, para quem tem a vida amea\u00e7ada nas situa\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas do preconceito, \u00e9 bastante an\u00e1loga ao g\u00eanero.<\/p>\n<p>Questiono, no entanto, que a l\u00edngua estrangeira da trama seja falada em ingl\u00eas. O posicionamento cr\u00edtico da obra ficaria mais contundente se a dramaturgia arriscasse articular o ingl\u00eas com uma l\u00edngua estrangeira e suas respectivas legendas. Para quem tem o ingl\u00eas como l\u00edngua materna, imagino que seja confort\u00e1vel ter qualquer l\u00edngua ficcionalmente transposta para a sua, como tanto se v\u00ea no cinema e nas s\u00e9ries de TV, mas para falantes de outros idiomas esse recurso soa estranhamente artificial, como uma dublagem. A presen\u00e7a de legendas refor\u00e7aria o convite ao pensamento cr\u00edtico, pois daria aos espectadores a escolha de simplesmente confiar no presun\u00e7oso tradutor ou conferir o testemunho real do imigrante. Para uma espectadora estrangeira, que n\u00e3o tem o ingl\u00eas como l\u00edngua materna, mesmo diante dos seus m\u00e9ritos e da sua relev\u00e2ncia social e pol\u00edtica, a obra trope\u00e7a na mesma quest\u00e3o que critica: a vis\u00e3o de mundo ensimesmada do homem branco europeu enquanto ser hist\u00f3rico, que toma os seus par\u00e2metros de linguagem como marco regulat\u00f3rio para todas as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia das migra\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas aparece mais uma vez em <em>How not to drown<\/em>, a que assisti no Traverse Theater. Autor e ator da pe\u00e7a, Dritan Kastrati (que assina o texto junto com Nicola MacCarthy), conta a hist\u00f3ria que viveu na inf\u00e2ncia quando migrou do Kosovo para a Inglaterra, passando por todos os riscos da travessia clandestina e pelas viol\u00eancias de um sistema de ado\u00e7\u00e3o cheio de falhas. Embora o espet\u00e1culo conte com a for\u00e7a de uma hist\u00f3ria real, narrada de corpo presente por um rapaz que viveu na pele todos os abusos desse processo, o excesso de acabamento e o comprometimento com um certo padr\u00e3o de qualidade comercial proporcionam uma experi\u00eancia contradit\u00f3ria de entretenimento. \u00c9 como se o p\u00fablico burgu\u00eas de classe m\u00e9dia pudesse se redimir sentindo compaix\u00e3o por aquela hist\u00f3ria e compensar seus privil\u00e9gios aplaudindo um imigrante que conseguiu se encaixar no seu sistema excludente. A efici\u00eancia e o virtuosismo nesse caso, assim como o tratamento dado \u00e0 trama, que transforma um processo social terrivelmente cruel em uma aventura cinematogr\u00e1fica de um her\u00f3i adolescente, parecem romantizar demais a realidade. Mesmo que o rapaz que viveu na pele tudo aquilo esteja em cena e que aquelas sejam as suas palavras \u2013 enfim, que ele seja &#8220;the real deal&#8221;, como diz \u2013, o olhar organizador da encena\u00e7\u00e3o de Neil Bettles e o registro de atua\u00e7\u00e3o proposto para o elenco envolvem essa experi\u00eancia do real em uma embalagem excessivamente colorida.<\/p>\n<p>A transfobia e o racismo s\u00e3o os temas do debate pol\u00edtico que se apresenta em <em>Burguerz<\/em>, solo de Travis Alabanza, que tamb\u00e9m assina o texto e se define como &#8220;they&#8221;, eles\/elas em ingl\u00eas, que aqui traduzo como iles, numa tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o com as op\u00e7\u00f5es n\u00e3o bin\u00e1rias da l\u00edngua portuguesa. <em>Burguerz <\/em>enfatiza que interseccionalidade \u00e9 uma quest\u00e3o a se discutir e que a reflex\u00e3o sobre os processos colonizat\u00f3rios n\u00e3o pode deixar para tr\u00e1s o debate sobre g\u00eanero: &#8220;Pensar que as pessoas trans s\u00e3o as \u00fanicas que t\u00eam seu g\u00eanero confundido pelos outros \u00e9 o jeito mais branco de pensar sobre corpos. Os corpos negros sabem o que significa ter seu g\u00eanero subtra\u00eddo, exagerado ou confundido desde o come\u00e7o da sua escravid\u00e3o.&#8221; (To think it is only trans people that are misgendered is the whitest way to think about bodies. Black bodies have known what it means to be de-gendered, hyper-gendered, misgendered since the beginning of your slavery.)<\/p>\n<p>A pe\u00e7a foi criada a partir de uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia: um dia, um homem jogou um hamb\u00farguer em Travis, gritando uma express\u00e3o transf\u00f3bica. Como se isso n\u00e3o fosse violento o suficiente, o acontecimento ganhou uma nova camada de agress\u00e3o: o sil\u00eancio e a indiferen\u00e7a de todos que estavam em volta. Para recapitular o momento em que foram agredides, iles convidam um volunt\u00e1rio na plateia para ajud\u00e1-les a fazer um hamb\u00farguer enquanto conversam. Com tato, humor e intelig\u00eancia, escolhem uma pessoa que sintetiza a fonte hist\u00f3rica de viol\u00eancia e opress\u00e3o, um homem branco cisg\u00eanero. O hamb\u00farguer \u00e9 uma refer\u00eancia direta \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, bem como uma met\u00e1fora para os pap\u00e9is sociais preestabelecidos e a ilus\u00e3o de liberdade de escolha nos detalhes dentro desses padr\u00f5es t\u00e3o restritos. Por meio do preparo do hamb\u00farguer, o trauma pessoal de Travis \u00e9 trabalhado a cada sess\u00e3o, como nas Tranz Talkz, conversas que a equipe empreendeu durante o processo de cria\u00e7\u00e3o, com pessoas que passaram por experi\u00eancias similares. Al\u00e9m disso, o espet\u00e1culo opera sobre a passividade de quem n\u00e3o toma partido no cotidiano. Mas o que me parece mais importante \u00e9 que o preparo de uma refei\u00e7\u00e3o a quatro m\u00e3os, por uma pessoa que representa o agressor e outra que representa as minorias agredidas, prop\u00f5e um processo de cura para quem est\u00e1 realmente doente: aquele que deseja a aniquila\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>SOLU\u00c7\u00d5ES MESSI\u00c2NICAS <\/strong><\/h4>\n<p>Da programa\u00e7\u00e3o do Edinburgh International Festival, embora com linguagens absolutamente distintas, dois trabalhos chamam aten\u00e7\u00e3o para o efeito t\u00f3xico da masculinidade em seus del\u00edrios messi\u00e2nicos. O <em>Oedipus<\/em> adaptado por Robert Icke com a International Theater Amsterdam traz uma vers\u00e3o contempor\u00e2nea da trag\u00e9dia de S\u00f3focles, colocando o personagem t\u00edtulo na condi\u00e7\u00e3o de um poderoso candidato \u00e0 presid\u00eancia de um pa\u00eds em crise. A cenografia (que faz com que a pe\u00e7a se pare\u00e7a demais com as encena\u00e7\u00f5es de Ivo Van Hove) mostra em destaque um rel\u00f3gio digital que marca a contagem regressiva no cen\u00e1rio do escrit\u00f3rio de campanha. Na medida em que o tempo avan\u00e7a para a vit\u00f3ria das elei\u00e7\u00f5es, a investiga\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria retornam ao passado, at\u00e9 que o protagonista, tomado como a grande esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, se revela a verdadeira fonte do caos. Apesar da pouca diferen\u00e7a de idade entre o ator e a atriz que fazem \u00c9dipo e Jocasta, e dos momentos finais do espet\u00e1culo serem excessivamente ilustrativos, a encena\u00e7\u00e3o mant\u00e9m os espectadores que lotaram o King&#8217;s Theatre em profundo estado de aten\u00e7\u00e3o. A pesada carga de legendas n\u00e3o pareceu ser um problema. \u00c9 surpreendente como a conhecida hist\u00f3ria se mant\u00e9m atual. E \u00e9 especialmente curioso que as narrativas centralizadas em grandes personagens masculinos, incapazes de enxergar a si mesmos e aos males que causam, sejam um tema t\u00e3o recorrente do teatro ocidental, desde os gregos. Seria essa uma prova de que o teatro n\u00e3o \u00e9 capaz de mudar a sociedade?<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de Tim Crouch com o National Theatre of Scotland, <em>Total Immediate Collective Imminent Terrestrial Salvation<\/em>, nos convoca a olhar com desconfian\u00e7a para uma forma declaradamente patriarcal de resolver as coisas: a vis\u00e3o megal\u00f4mana de um homem que v\u00ea a si mesmo como o escolhido para proporcionar salva\u00e7\u00e3o total e imediata para todos aqueles que se dediquem a segui-lo \u2013 embora n\u00e3o passe de um homem comum, incapaz de lidar com uma perda severa. Em cadeiras dispostas em c\u00edrculo na ampla sala do The Studio, os espectadores acompanham a a\u00e7\u00e3o a partir de um livro. Nas primeiras p\u00e1ginas, conhecemos pelos quadrinhos de Rachana Jadhav a situa\u00e7\u00e3o que aconteceu 15 anos antes da a\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a: um menino de cinco anos cai e se afoga em um lago, depois que se quebra a superf\u00edcie de gelo sobre a qual ele andava de m\u00e3os dadas com o pai. A m\u00e3e e a irm\u00e3 de tr\u00eas anos assistem a tudo mas permanecem seguras. O pai fica em coma, mas sobrevive e, quando retorna, passa a liderar uma seita que espera por um eclipse que vai proporcionar, para esse grupo seleto, a salva\u00e7\u00e3o imediata referida no t\u00edtulo.<\/p>\n<p>S\u00e3o as personagens femininas que determinam o tempo de virar cada uma das p\u00e1ginas do livro, a\u00e7\u00e3o que devemos realizar todos juntos. \u00c9 como se o livro nas nossas m\u00e3os conferisse uma materialidade mais concreta ao espa\u00e7o convivial do teatro. Esse recurso faz com que estejamos todos atentos ao momento presente, mesmo que a narrativa crie expectativas com rela\u00e7\u00e3o ao futuro da trama. Parece simples, mas \u00e9 sensivelmente sofisticado.<\/p>\n<p>Durante a maior parte do espet\u00e1culo, lemos e assistimos \u00e0 cena de reencontro entre a m\u00e3e e a filha. A m\u00e3e havia se posicionado contra as proposi\u00e7\u00f5es insanas do marido e havia sido punida por isso, anos atr\u00e1s. Ela traz outra proposta para a continuidade da vida da menina: um <em>modus operandi <\/em>mais pr\u00f3ximo do feminino, que enfrenta e cuida (inclusive de si mesma), na contram\u00e3o do que \u00e9 feito sob a vigil\u00e2ncia do pai, que empurra todos os problemas para uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica c\u00f3smica. O eclipse previsto \u00e9 como o Ju\u00edzo Final, que divide a humanidade entre os que se salvam e os que s\u00e3o condenados. \u00c9 como a constru\u00e7\u00e3o de um muro, ou o isolamento pol\u00edtico de um pa\u00eds, solu\u00e7\u00f5es pueris para um problema inventado: a perversa constru\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o entre &#8220;n\u00f3s&#8221; e &#8220;eles&#8221;, mais uma vez.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do adjetivo \u201cimmediate\u201d (imediata) no t\u00edtulo \u00e9 crucial e esclarece aspectos de outros trabalhos sobre a ideia de masculinidade que est\u00e1 em discuss\u00e3o aqui. Em <em>The Believers Are But Brothers<\/em>, Alipoor destaca a \u00e2nsia da imediaticidade como uma caracter\u00edstica do comportamento dos homens que se sentem amea\u00e7ados na sua masculinidade. Diante das possibilidades que surgem na tela do celular ou do computador, eles t\u00eam a ilus\u00e3o de que as coisas podem se resolver com um <em>click<\/em>, com uma p\u00edlula que se pode engolir sem mastigar, ou seja, sem enfrentar os problemas passo a passo, sem se deter sobre as causas, os contextos e os desdobramentos, sem trabalhar sobre si mesmo, sem nenhum tipo de media\u00e7\u00e3o. O gesto de preparar uma refei\u00e7\u00e3o, por exemplo, como Travis Alabanza prop\u00f5e em <em>Burguerz<\/em>, em que \u00e9 preciso cumprir uma etapa de cada vez, vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria das solu\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas. De maneira an\u00e1loga, a m\u00e3e, em <em>Total Immediate&#8230;<\/em> traz algo para a filha mastigar.<\/p>\n<p>O vi\u00e9s participativo da encena\u00e7\u00e3o alude ao poder de sedu\u00e7\u00e3o\/coa\u00e7\u00e3o que agrega pessoas comuns em sandices coletivas. Nos momentos finais, a prazerosa frui\u00e7\u00e3o nos faz dizer sim v\u00e1rias vezes para um messias delirante. Mas n\u00e3o se trata de uma manipula\u00e7\u00e3o ardilosa. A dire\u00e7\u00e3o de Andy Smith e Karl James constr\u00f3i a desconfian\u00e7a cr\u00edtica nos espectadores aos poucos, o longo da condu\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, principalmente pela atitude da m\u00e3e, o pilar simb\u00f3lico de coer\u00eancia na narrativa, delicadamente elaborada por Susan Vidler.<\/p>\n<div id=\"attachment_5346\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5346\" class=\"wp-image-5346 size-full\" src=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey.jpg\" alt=\"Production photos by Eoin Carey\" width=\"1024\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-200x138.jpg 200w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-300x208.jpg 300w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-400x277.jpg 400w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-600x415.jpg 600w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-768x532.jpg 768w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey-800x554.jpg 800w, https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Production-photos-by-Eoin-Carey.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-5346\" class=\"wp-caption-text\">Total Immediate Collective Imminent Terrestrial Salvation. Foto: Eoin Carey.<\/p><\/div>\n<h4><strong>SA\u00daDE MENTAL E ENFRENTAMENTO<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 ir\u00f4nico que a imagem da justi\u00e7a seja representada na cultura ocidental por figuras femininas, quando, historicamente, vivemos em um mundo em que os homens dominam os lugares de poder e s\u00e3o capazes de qualquer coisa para n\u00e3o perder esse privil\u00e9gio. As pe\u00e7as de tribunal n\u00e3o s\u00e3o comuns no Brasil, mas n\u00f3s brasileiros conhecemos bem a teatralidade, a espetacularidade e a pot\u00eancia de um julgamento como encena\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o perversa que interfere na realidade. O julgamento do Presidente Lula e a mete\u00f3rica ascens\u00e3o pol\u00edtica do juiz que o condenou \u00e9 um \u00f3timo exemplo disso.<\/p>\n<p>Apresentada no Underbelly, <em>It&#8217;s true, it&#8217;s true, it&#8217;s true <\/em>re\u00fane materiais de diversas fontes (em portugu\u00eas, n\u00e3o temos uma tradu\u00e7\u00e3o para a categoria &#8220;devised theatre&#8221;), mas que se baseia nos registros hist\u00f3ricos do julgamento de um professor de arte que estuprou uma aluna. O julgamento do estuprador mais parece o julgamento da v\u00edtima que, enquanto era torturada para que se comprovasse a veracidade do seu depoimento, gritava repetidamente que o seu relato era a verdade \u2013 da\u00ed a reitera\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo. Concebida em meados de 2018, quando a campanha #MeToo nas redes sociais causou uma conscientiza\u00e7\u00e3o massiva da amplitude da cultura do estupro, a obra retoma um caso do s\u00e9culo XVII. Em 1612, a jovem artista Artem\u00edsia Gentileschi foi estuprada dentro da pr\u00f3pria casa pelo seu tutor, Agostino Tassi. Ao process\u00e1-lo, foi novamente v\u00edtima de viol\u00eancia: todas as testemunhas e o pr\u00f3prio sistema judicial fizeram de tudo para descredibilizar a sua palavra.<\/p>\n<p>Para encobrir e naturalizar as pr\u00e1ticas mis\u00f3ginas do mundo dos homens, as institui\u00e7\u00f5es culpavam (e ainda culpam) as mulheres, associando a sexualidade feminina a uma pr\u00e1tica demon\u00edaca. Na constru\u00e7\u00e3o desse imagin\u00e1rio, o patriarcado se une \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 medicina para criar o mito da loucura feminina e para comprov\u00e1-lo criando fic\u00e7\u00f5es sociais t\u00e3o cru\u00e9is como o julgamento de Artem\u00edsia, que podem realmente enlouquecer qualquer pessoa. A semelhan\u00e7a com a realidade atual de mulheres v\u00edtimas de todo o tipo de abuso \u00e9 exasperante. Diante de narrativas como essa, vemos como o homem branco cisg\u00eanero tem agido como um predador ao longo da hist\u00f3ria. Como em <em>The Claim<\/em>, o material usado para <em>It&#8217;s True, It&#8217;s True, It&#8217;s True <\/em>tamb\u00e9m poderia resultar em uma pe\u00e7a de terror.<\/p>\n<p>Apesar de o tema ser muito relevante e a dramaturgia ser altamente elaborada pelas atrizes, que assinam o texto, a linguagem do trabalho me apareceu um tanto escolar. A encena\u00e7\u00e3o de Billy Barrett aposta todas as fichas na exacerba\u00e7\u00e3o da teatralidade, como se sublinhasse v\u00e1rias vezes o que j\u00e1 est\u00e1 em evid\u00eancia. A sofistica\u00e7\u00e3o do material fica sufocada pela prolifera\u00e7\u00e3o de elementos visuais e cenogr\u00e1ficos que fazem mais atrapalhar do que dar suporte \u00e0s atua\u00e7\u00f5es. Assim, a pe\u00e7a n\u00e3o deixa nada para o espectador concluir por si.<\/p>\n<p>Em <em>I&#8217;m a Phoenix, Bitch<\/em>, apresentado no Pleasance Courtyard, Bryony Kimmings faz um relato arrebatador sobre o pior ano de sua vida, quando precisou enfrentar o grave adoecimento do seu filho rec\u00e9m-nascido, um per\u00edodo de muita fragilidade de sua sa\u00fade mental, uma separa\u00e7\u00e3o e a perda da sua casa. Aqui a narra\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios reais se assume como parte de um processo de cura, como um passo adiante nos exerc\u00edcios ps\u00edquicos necess\u00e1rios para que ela supere seus traumas. A artista os coloca em pr\u00e1tica na cena, rebobinando e reperformando momentos chave da sua vida. Nesse processo, ela faz uma an\u00e1lise cr\u00edtica dos elementos envolvidos, investigando os h\u00e1bitos pessoais e culturais que moldam determinados comportamentos. Na medida em que olha para tr\u00e1s e examina o seu modo de lidar com homens, ela v\u00ea a influ\u00eancia de arqu\u00e9tipos femininos criados pela ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica. Com uma c\u00e2mera e proje\u00e7\u00e3o ao vivo, apresenta caricaturas de si mesma, com perucas e adere\u00e7os que sublinham a artificialidade da constru\u00e7\u00e3o dessas imagens. A cenografia materializa esta\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria, como n\u00facleos de n\u00f3s a serem desatados, sendo a principal dessas esta\u00e7\u00f5es a casa, um rom\u00e2ntico chal\u00e9 no campo, onde sua sanidade mental escapou do seu alcance.<\/p>\n<p>A sa\u00fade mental p\u00f3s-parto \u00e9 um ponto nuclear da obra, mas a sa\u00fade mental de modo geral parece ser um tema caro \u00e0 sua pesquisa recente. Ela se dedicou ao assunto em um trabalho anterior, mas do ponto de vista dos homens com depress\u00e3o cr\u00f4nica. A omiss\u00e3o da sociedade quanto \u00e0 abordagem desse assunto, que \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 mais uma caracter\u00edstica daquela ideia de masculinidade que n\u00e3o consegue se deter sobre coisas complexas e enfrent\u00e1-las, fingindo que est\u00e1 tudo sob controle enquanto busca solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e indolores. Mas ela n\u00e3o faz acusa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m ao contar a sua hist\u00f3ria. Aqui, o homem branco cisg\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um personagem de carne e osso, mas uma figura que est\u00e1 na sua mente, como um dispositivo de cr\u00edtica internalizada que faz julgamentos severos sobre as suas a\u00e7\u00f5es o tempo todo. Na medida em que o processo de cura avan\u00e7a, esse personagem vai perdendo poder e ela consegue negociar, consigo mesma, a despedida dessa voz repressora.<\/p>\n<p>No entanto, assim como em <em>It&#8217;s True, It&#8217;s True, It&#8217;s True<\/em>, a linguagem da encena\u00e7\u00e3o \u00e9 bem distante do teatro que estou acostumada a ver. Nos momentos em que Bryony dramatiza o passado, o registro de atua\u00e7\u00e3o e os recursos c\u00eanicos que usa s\u00e3o carregados de uma no\u00e7\u00e3o de teatralidade t\u00e3o histri\u00f4nica, que tudo se torna excessivamente explicativo. Mas talvez essa seja a energia que ela precisa para dar conta desse imenso desafio.<\/p>\n<p>Em <em>Man on the Moon<\/em>, Keisha Thompson aborda o problema da sa\u00fade mental no contexto da experi\u00eancia da negritude no Reino Unido, considerando que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o branca \u00e9 maioria entre os pacientes, mas minoria entre aqueles que, do ponto de vista institucional, det\u00eam os saberes sobre a quest\u00e3o. A pe\u00e7a \u00e9 sobre seu pai e a jornada que ela empreendeu para tentar conhec\u00ea-lo melhor. Desde a inf\u00e2ncia, a comunica\u00e7\u00e3o entre os dois se dava por livros que ele deixava para ela na caixa de correspond\u00eancia. Mais tarde, na vida adulta e com ajuda dos seus estudos, ela passou a querer entender melhor a reclus\u00e3o do seu pai, os diferentes nomes que ele adotou em momentos da vida, seus posicionamentos pol\u00edticos e a forma como a sua condi\u00e7\u00e3o era colocada na din\u00e2mica familiar.<\/p>\n<p>Com dire\u00e7\u00e3o de Benji Reid, a narrativa na primeira pessoa do singular \u00e9 colocada em cena com o tom de uma conversa \u00edntima. As dimens\u00f5es do Red Lecture Theatre do Summerhall deram condi\u00e7\u00f5es para a proximidade necess\u00e1ria, para que n\u00f3s na plateia pud\u00e9ssemos olhar a atriz nos olhos e sermos olhados por ela. Tanto a narrativa quanto a elabora\u00e7\u00e3o visual dialogam com o afrofuturismo e contam com uma abordagem inventiva para lidar com o que n\u00e3o podemos conhecer: a mente de uma pessoa que n\u00e3o funciona em um determinado padr\u00e3o de normalidade. No seu processo de investiga\u00e7\u00e3o, Keisha Thompson olha para tr\u00e1s e tenta reconstituir determinadas situa\u00e7\u00f5es, mas sempre ciente da sua capacidade inventiva de construir um imagin\u00e1rio propositivo a partir de ru\u00ednas e lacunas.<\/p>\n<p>Pesquisando sobre a artista, que al\u00e9m do teatro, da literatura e da m\u00fasica, se dedica \u00e0 matem\u00e1tica e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o criativa, encontrei um breve artigo em que ela fala sobre a m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o do conceito de binariedade. Ela diz que, originalmente, o bin\u00e1rio diz respeito \u00e0 dualidade, n\u00e3o \u00e0 m\u00fatua exclus\u00e3o de opostos, e que essa m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de lavagem cerebral que causa desentendimentos sobre uma s\u00e9rie de processos de aprendizado na divis\u00e3o bin\u00e1ria de g\u00eaneros, como o mito de que meninos levam jeito para matem\u00e1tica e meninas n\u00e3o. Se tentarmos pensar a ideia de sa\u00fade mental fora do padr\u00e3o bin\u00e1rio de exclus\u00e3o m\u00fatua, a discuss\u00e3o pode ser mais consequente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>SOBRE OUTRAS HABILIDADES<\/strong><\/h4>\n<p>O debate sobre a ideia de normalidade \u00e9 levado adiante em dois espet\u00e1culos sobre &#8220;defici\u00eancias&#8221;: <em>Purposeless Movements<\/em> da Birds of Paradise Theatre Company, que se dedica \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica de pessoas com defici\u00eancia; e <em>Louder is Not Always Clearer<\/em>, solo do artista visual e professor Jonny Cotzen dirigido por Gareth Clark.<\/p>\n<p>A fala na primeira pessoa do singular, com narrativas autobiogr\u00e1ficas e posicionamentos cr\u00edticos \u00e9 um dispositivo criativo de <em>Purposeless Movements<\/em>, apresentado no The Studio. Quatro personagens masculinos com paralisia cerebral em diferentes graus dan\u00e7am e se dirigem \u00e0 plateia para contar hist\u00f3rias, compartilhando narrativas sobre a vida profissional, p\u00fablica, familiar, amorosa e sexual de cada um. A trilha sonora \u00e9 tocada ao vivo para que os m\u00fasicos possam dialogar com o andamento pr\u00f3prio de cada apresenta\u00e7\u00e3o, tendo em vista a varia\u00e7\u00e3o de ritmos e a imprevisibilidade da dura\u00e7\u00e3o dos deslocamentos por parte de cada ator. Uma tradutora de linguagem de sinais est\u00e1 presente em cena de maneira completamente integrada, dan\u00e7ando e se movimentando com os atores. As legendas em ingl\u00eas s\u00e3o uma constante, afinal, a fala dos atores pode ser bem dif\u00edcil de entender. O humor e a franqueza pontuam toda a pe\u00e7a, de modo que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para vitimiza\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o de Robert Softley Gale, que tamb\u00e9m tem paralisia cerebral, n\u00e3o \u00e9 um olhar de fora paternalista. O fato de que o grupo trabalha com atores profissionais \u00e9 um dado a ser considerado e que faz parte da pr\u00f3pria estrutura dramat\u00fargica da obra. Os relatos biogr\u00e1ficos s\u00e3o atravessados por quest\u00f5es acerca da arte e da representa\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, o pacto de f\u00e9 que est\u00e1 impl\u00edcito no relato autobiogr\u00e1fico dado de corpo presente, um dispositivo t\u00e3o comum nos repert\u00f3rios de teatro contempor\u00e2neo de mostras e festivais. Esse \u00e9 provavelmente o ponto mais sens\u00edvel da dramaturgia, que pode desestabilizar a experi\u00eancia da frui\u00e7\u00e3o. Para falar mais sobre isso, eu precisaria dar spoilers demais, ent\u00e3o deixo aqui apenas a sugest\u00e3o de reflex\u00e3o para quem puder assistir.<\/p>\n<p>O modo como pessoas n\u00e3o surdas lidam com a surdez no cotidiano \u00e9 um dos aspectos centrais de <em>Louder is Not Always Clearer<\/em>, pe\u00e7a criada a partir de workshops realizados com v\u00e1rias pessoas surdas. Assim, embora Jonny Cotzen se refira a fatos da sua hist\u00f3ria pessoal, o relato autobiogr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 a sua quest\u00e3o principal. A dramaturgia se debru\u00e7a sobre o tr\u00e2nsito entre o mundo de quem escuta e o mundo das pessoas surdas. H\u00e1 momentos em que Cotzen se dirige apenas \u00e0s pessoas surdas na plateia e h\u00e1 partes em que o p\u00fablico \u00e9 convidado a interagir a partir da linguagem de sinais. A cr\u00edtica feita \u00e0 presun\u00e7\u00e3o das pessoas que escutam, presente desde o t\u00edtulo at\u00e9 um cartaz em que o artista escreve em letras garrafais &#8220;DEAF IS NOT STUPID&#8221; (ser surdo n\u00e3o \u00e9 ser burro), funciona como um convite para que n\u00f3s, que n\u00e3o somos surdos \u2013 ou que n\u00e3o somos surdos ainda \u2013 fa\u00e7amos o esfor\u00e7o de experimentar outra linguagem, pelo menos por alguns minutos. Afinal, a dist\u00e2ncia que separa os dois mundos n\u00e3o \u00e9 feita apenas da rela\u00e7\u00e3o entre som e sil\u00eancio, mas tamb\u00e9m da ignor\u00e2ncia e da indiferen\u00e7a. Fica vis\u00edvel que a presun\u00e7\u00e3o da normalidade pode ser a maior das defici\u00eancias. Cabe a cada espectador escolher se o seu caso \u00e9 irrevers\u00edvel ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>CORPOS E DISCURSOS<\/strong><\/h4>\n<p>Em <em>Post Popular<\/em>, outro trabalho que vi no Pleasance Courtyard, Lucy McCormick cria situa\u00e7\u00f5es bem humoradas para reperformar momentos hist\u00f3ricos protagonizados por mulheres que cravaram seu nome nas narrativas oficiais durante s\u00e9culos de protagonismo masculino. Seu humor agressivo mostra que talvez n\u00e3o tenhamos tantos motivos para rir, mas a insol\u00eancia n\u00e3o deixa de ser uma alternativa. Jogando coisas na cara da plateia (inclusive literalmente), acompanhada por dois homens que dan\u00e7am com ela com grande vigor sobre o ch\u00e3o melado de terra, l\u00edquidos e restos de comida, n\u00e3o h\u00e1 um momento em que a sua presen\u00e7a n\u00e3o esteja comprometida com a materialidade do seu corpo. Parece redundante, mas \u00e9 uma quest\u00e3o de \u00eanfase. Suas coloca\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o cerebrais. \u00c9 na lida com o corpo, inclusive na \u00eanfase sobre a materialidade dos seus orif\u00edcios, que aparece o seu discurso cr\u00edtico. <em>Post Popular<\/em> p\u00f5e os corpos dos artistas em jogo de maneira radical e contundente. Por contraste, chama aten\u00e7\u00e3o para a tend\u00eancia excessivamente cerebral do teatro e para o h\u00e1bito da separa\u00e7\u00e3o entre a elabora\u00e7\u00e3o intelectual e o engajamento da carne no pensamento e no discurso. A cren\u00e7a na separa\u00e7\u00e3o entre o corpo e a mente, bem como na suposta superioridade da mente, fazem parte da lavagem cerebral derivada da m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o da ideia de binariedade.<\/p>\n<p>Dentre os trabalhos de dan\u00e7a contempor\u00e2nea a que assisti no Dance Base, dois deles apresentaram quest\u00f5es relevantes sobre a ideia do feminino e seus estere\u00f3tipos redutores. Em <em>The Forecast<\/em>, Amy Bell fala sobre a invisibilidade da mulher queer na dan\u00e7a, trazendo para o debate perguntas sobre os corpos trans e n\u00e3o bin\u00e1rios nesse campo art\u00edstico. O desejo de abordar muitos desdobramentos ao mesmo tempo prejudica um pouco a primeira parte do espet\u00e1culo. Mas, nos momentos finais, quando a reivindica\u00e7\u00e3o mais discursiva d\u00e1 lugar \u00e0 materialidade da performance, a artista d\u00e1 conta de mostrar o que aquele corpo tem a oferecer por ele mesmo, para al\u00e9m da defesa de um posicionamento pol\u00edtico. Assim, aos poucos, a obra vai ganhando contund\u00eancia na defesa do argumento, mostrando o que a dan\u00e7a e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, os espectadores que se interessam pela dan\u00e7a, est\u00e3o perdendo com a monotonia da padroniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>Like Honey<\/em>, de Becky Namgauds, a no\u00e7\u00e3o de feminino est\u00e1 em disputa de outro modo, trabalhada por um corpo que se encaixa em um determinado padr\u00e3o de beleza. \u00c9 na energia do corpo e na rela\u00e7\u00e3o com o movimento que as artistas questionam a leveza como qualidade no corpo da mulher \u2013 um ponto que tamb\u00e9m est\u00e1 no trabalho de Amy Bell. A sensualidade da performance de Amanda Pefkou carrega uma agressividade latente. Como o ciclo menstrual e a ideia do sagrado feminino foram motes de inspira\u00e7\u00e3o, seu corpo emana uma intensa energia sexual, pautada pelo contraste da paisagem sonora criada e performada ao vivo por Claire Shahmoon. A sonoridade colabora para a cria\u00e7\u00e3o de uma atmosfera densa, quase hier\u00e1tica, que emoldura a sexualidade do corpo e do movimento da performer em uma esfera pict\u00f3rica, ou seja, que faz uma media\u00e7\u00e3o desse corpo pela ideia mesma de arte, pela artificialidade da cria\u00e7\u00e3o. Essa media\u00e7\u00e3o amplia o olhar, nos faz ver criticamente o padr\u00e3o formado no ac\u00famulo de imagens que imp\u00f5em formas idealizadas sobre o feminino. A hist\u00f3ria da arte, como instrumento eficiente do patriarcado, exerce sobre nossos corpos a sua cota de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Com linguagens diversas e corpos afirmativos, cada uma a seu modo, elas n\u00e3o apenas comentam a artificialidade da constru\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos femininos e os lugares pr\u00e9-definidos que a sociedade patriarcal estabelece como aprisionamentos, mas afirmam, celebram e materializam o vigor dos seus avessos.<\/p>\n<p>Por falar em celebra\u00e7\u00e3o, foi interessante ver uma obra cuja estrutura dramat\u00fargica eu j\u00e1 conhecia pela vers\u00e3o brasileira. Apresentada no Zoo Southside, <em>Looping Scotland Overdub<\/em> \u00e9 a vers\u00e3o do Scottish Dance Theatre para <em>Looping Bahia Overdub<\/em>, um espet\u00e1culo brasileiro de dan\u00e7a contempor\u00e2nea dirigido por Felipe de Assis, Leonardo Fran\u00e7a e Rita Aquino, que vi em diferentes ocasi\u00f5es: em Buenos Aires com um p\u00fablico reduzido (como aconteceu na apresenta\u00e7\u00e3o em Edimburgo), mas com verdadeiras multid\u00f5es no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. <em>Looping <\/em>afirma o poder de insurrei\u00e7\u00e3o da festa, tomando-a como linguagem de protesto, de afirma\u00e7\u00e3o da vida, dos corpos, da liberdade. As observa\u00e7\u00f5es discursivas se d\u00e3o de maneira integrada \u00e0 ades\u00e3o dos corpos ao movimento, com formula\u00e7\u00f5es verbais mescladas \u00e0 m\u00fasica. Na vers\u00e3o escocesa, a dimens\u00e3o discursiva se sobrep\u00f4s \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o da festa. Os pr\u00f3prios bailarinos se encarregaram de apresentar seu discurso cr\u00edtico, com falas mais demoradas e literais sobre os problemas sociais que questionam. Ainda assim, o convite feito para que os espectadores participem com os seus corpos, implicando-se diretamente no acontecimento c\u00eanico, fez desse espet\u00e1culo um ponto fora da curva na minha experi\u00eancia do festival.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong>SOBRE O TEMPO NO ESPA\u00c7O<\/strong><\/h4>\n<p>Mesmo num per\u00edodo t\u00e3o curto, foi f\u00e1cil perceber o quanto cada espa\u00e7o apresenta um recorte curatorial espec\u00edfico. Mesmo que haja espa\u00e7o para alguma varia\u00e7\u00e3o entre linguagens, \u00e9 poss\u00edvel ver as coer\u00eancias internas de cada programa\u00e7\u00e3o. Em um festival da dimens\u00e3o do Fringe, que n\u00e3o tem uma curadoria geral, mas que \u00e9 bastante pautado pelo acesso a privil\u00e9gios econ\u00f4micos (cada produ\u00e7\u00e3o assume os riscos de fazer um investimento pr\u00f3prio para participar do festival), \u00e9 importante que as produ\u00e7\u00f5es saibam quais espa\u00e7os poderiam receber suas propostas. S\u00e3o mais de 300, eu n\u00e3o conheci nem um d\u00e9cimo do total. A programa\u00e7\u00e3o do Summerhall, por exemplo, e consequentemente o p\u00fablico que o frequenta, me pareceu bastante aberta \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o e a uma ideia de teatro que se fundamenta especialmente na rela\u00e7\u00e3o com os espectadores, no conv\u00edvio, no tempo que se passa junto. Al\u00e9m de ter diversos espa\u00e7os que funcionam ao mesmo tempo, algumas salas s\u00e3o ambientes livres das molduras dos palcos convencionais, como salas de ensaio ou teatros anat\u00f4micos. A aproxima\u00e7\u00e3o entre os imagin\u00e1rios do teatro e do laborat\u00f3rio cient\u00edfico pode ser bem instigante.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de assistir a <em>Extremely Pedestrian Chorales<\/em> provavelmente n\u00e3o teria sido t\u00e3o divertida se acontecesse em um teatro convencional e sem a abordagem direta dos criadores. Quando cheguei \u00e0 sala, o core\u00f3grafo Karl Jay-Lewin veio pessoalmente conversar comigo e outras pessoas \u00e0 minha volta, contextualizando a proposta, fazendo uma media\u00e7\u00e3o corpo a corpo. A dimens\u00e3o de experimenta\u00e7\u00e3o, o jogo entre corpo e matem\u00e1tica, bem como sua sofisticada despretens\u00e3o me pareceram perfeitamente adequadas \u00e0 sala Rose Bruford at Upper Church do Summerhall.<\/p>\n<p>No mesmo espa\u00e7o, vi os trabalhos mais recentes de Bertrand Lesca e Nasi Voutsas. Assim como as demais cria\u00e7\u00f5es da dupla, <em>One <\/em>e <em>The End<\/em> contam com a intimidade com o p\u00fablico para que o seu jogo funcione. Suas pe\u00e7as s\u00e3o fundamentadas nas rela\u00e7\u00f5es entre opressor e oprimido, um tema cl\u00e1ssico do drama e do teatro de modo geral. \u00c9 nos t\u00edtulos e nas breves sugest\u00f5es narrativas da dramaturgia que est\u00e3o as chaves para as elabora\u00e7\u00f5es que cada espectador vai fazer a respeito das din\u00e2micas que os dois encenam. No contexto do festival, as din\u00e2micas de opress\u00e3o que apareceram em outras obras funcionaram como molduras para a minha recep\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que os dispositivos dramat\u00fargicos e o carisma da dupla criam condi\u00e7\u00f5es para a disponibilidade criativa do p\u00fablico e para a abertura ao humor. Mas a energia do lugar n\u00e3o deixa de ser um ingrediente determinante.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi no Summerhall, no Main Hall, que assisti a <em>Before the Revolution<\/em>, de Ahmed El Attar, uma pe\u00e7a forte e delicada sobre a opress\u00e3o e a viol\u00eancia no Egito antes da revolu\u00e7\u00e3o. E, no Techcube 0, vi um trabalho escrito e dirigido por Tim Etchells, <em>To Move in Time<\/em>, solo criado para o excelente Tyrone Huggins, que nos conduz por uma oscila\u00e7\u00e3o vertiginosa entre as banalidades da vida cotidiana e os acachapantes processos hist\u00f3ricos, entre a chamada de responsabilidade sobre o que estamos fazendo pelo mundo no presente e o reconhecimento da imprevisibilidade das consequ\u00eancias de nossas escolhas individuais.<\/p>\n<p>As perguntas feitas por este espet\u00e1culo me pareceram especialmente pertinentes no contexto de um festival. As horas e os dias nos festivais de teatro t\u00eam uma dura\u00e7\u00e3o e uma perman\u00eancia na mem\u00f3ria t\u00e3o peculiares, que tornam o tempo cronol\u00f3gico uma fic\u00e7\u00e3o pouco criativa. E o exerc\u00edcio cr\u00edtico de relembrar e escrever sobre o que nos move n\u00e3o deixa de ser uma tentativa de viajar no tempo, um modo de mastigar a mem\u00f3ria e o pensamento, um gesto que demanda tempo e que geralmente n\u00e3o se adequa muito \u00e0s estrelas estampadas nos in\u00fameros cartazes espalhados por toda Edimburgo. As estrelas fazem parte do jogo e t\u00eam a sua gra\u00e7a, mas n\u00e3o h\u00e1 \u2605\u2605\u2605\u2605\u2605 que proporcionem salva\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p><em>Daniele Avila Small (Rio de Janeiro, 1976) \u00e9 Doutora em Artes C\u00eanicas, cr\u00edtica e curadora de teatro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para mastigar o teatro: Notas sobre o Fringe e o Edinburgh Showcase British Council 2019 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":2,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"yst_prominent_words":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5345"}],"collection":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/5345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"yst_prominent_words","embeddable":true,"href":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/yst_prominent_words?post=5345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}