{"id":4993,"date":"2019-03-22T18:57:35","date_gmt":"2019-03-22T21:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/?page_id=4993"},"modified":"2019-03-22T18:59:25","modified_gmt":"2019-03-22T21:59:25","slug":"sim-nos-somos-assim","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mitsp.org\/2019\/sim-nos-somos-assim\/","title":{"rendered":"SIM, N\u00d3S SOMOS ASSIM"},"content":{"rendered":"<h3>SIM, N\u00d3S SOMOS ASSIM<\/h3>\n<p><em><br \/>\nA MITsp chega ao seu sexto ano. Se motivos n\u00e3o faltam para comemorar, rondam-nos tamb\u00e9m algumas preocupa\u00e7\u00f5es. Vivemos uma onda reacion\u00e1ria, na qual a arte tem sido frequentemente atacada e demonizada. Seria imposs\u00edvel imaginar, h\u00e1 seis anos, tal retrocesso. Ali, naquela primeira edi\u00e7\u00e3o, assistimos a dan\u00e7arinos nus, recobertos por tinta escura, que se movimentavam caoticamente pelo espa\u00e7o, provocando um contato f\u00edsico com os espectadores. A obra propunha uma experi\u00eancia de presen\u00e7a e deslocamento, de proximidade e contamina\u00e7\u00e3o, engajando todos os corpos que l\u00e1 estavam. Vimos ainda, numa alus\u00e3o ao m\u00edtico conflito entre homem e divindade, um grupo de crian\u00e7as lan\u00e7ando granadas em dire\u00e7\u00e3o a uma representa\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo, enquanto alguns atores, em outro espet\u00e1culo, realizavam um piquenique no G\u00f3lgota, como forma de criticar a mercantiliza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. Sim, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, isso ocorreu h\u00e1 seis anos, sem nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica contr\u00e1ria, nem de rep\u00fadio, nem de censura.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o sabemos o que nos espera nos pr\u00f3ximos seis anos. Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio que comecemos a enfrentar esses \u201cnovos\u201d moralismos, puritanos e regressivos, sob pena de ficarmos ref\u00e9ns de um discurso homogeneizador e de uma pr\u00e1tica de patrulhamento. Sabemos, sim, que neste ano a MITsp n\u00e3o retrocedeu em suas inquieta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas nem no seu posicionamento cr\u00edtico, reunindo espet\u00e1culos e a\u00e7\u00f5es que tratam das sequelas do colonialismo, do sexismo patriarcal, do preconceito de g\u00eanero, da nega\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e do corpo liberto. Tamb\u00e9m nos perguntamos: como representar o absurdo? Ou melhor, como reagir ao absurdo naturalizado? Pois n\u00e3o podemos ser coniventes com a mediocridade e o obscurantismo.<\/em><\/p>\n<p><em>Um teatro com \u201cbons modos\u201d \u00e9 a ant\u00edtese do teatro, seja por sua vincula\u00e7\u00e3o ao rito origin\u00e1rio dionis\u00edaco, seja por seu anseio de trazer \u00e0 tona aquilo que \u00e9 recalcado e escondido. O teatro exala, o teatro sua, impregna nossos poros tanto quanto o nosso imagin\u00e1rio. E, por isso mesmo, amea\u00e7a fortemente os que t\u00eam medo do corpo \u2013 do seu pr\u00f3prio e o do outro \u2013 e aqueles que querem normatiz\u00e1-lo e higieniz\u00e1-lo.<\/em><\/p>\n<p><em>Esse novo-velho moralismo ora se mascara de pretensa defesa de valores, ora reaparece sob a forma de censura. Enquanto censura, sua face mais evidente \u00e9 aquela da interdi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, articulada na calada da noite por governantes e religiosos de plant\u00e3o. Por\u00e9m, sua face mais perversa surge depois, no momento seguinte, quando passa gradualmente a ser internalizada at\u00e9 se transformar em autocensura \u2013 o que pode acometer tanto artistas quanto institui\u00e7\u00f5es culturais.<\/em><\/p>\n<p><em>Por isso, para que n\u00e3o se naturalize, precisamos revelar seus mecanismos e opera\u00e7\u00f5es. Por exemplo, nomear como pedofilia algo que n\u00e3o \u00e9 pedofilia s\u00f3 se justifica como um modo de manipular a opini\u00e3o p\u00fablica visando a um projeto de desqualifica\u00e7\u00e3o e desvaloriza\u00e7\u00e3o da atividade art\u00edstica. A demoniza\u00e7\u00e3o das leis de incentivo e de fomento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de arte tamb\u00e9m faz parte desse mesmo prop\u00f3sito. J\u00e1 sabemos a quem isso serve; portanto, \u00e9 hora de estacarmos essas estrat\u00e9gias de difama\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Por\u00e9m, \u00e0 revelia dos que querem alvej\u00e1-la covardemente, a arte tem mostrado uma for\u00e7a inequ\u00edvoca de gerar inc\u00f4modos e de provocar curtos-circuitos. Ao contr\u00e1rio do que gostariam os puritanos, a dan\u00e7a e o teatro continuam a nos desregrar e a dar vaz\u00e3o \u00e0s nossas puls\u00f5es. Sim, as artes da cena s\u00e3o inadequadas, barulhentas e espa\u00e7osas, n\u00e3o combinam com sal\u00f5es de ch\u00e1 nem com bailes de debutantes. Sim, s\u00e3o mal-educadas e, quando educam, o fazem por meio de des-aprendizagens. N\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o sentimos muito. Na verdade, n\u00f3s sentimos demais, sempre, com toda a for\u00e7a dos nossos pulm\u00f5es e nossas gargantas.<\/em><\/p>\n<p><em>Lutamos muito para chegarmos at\u00e9 aqui. N\u00e3o podemos permitir que esses novos censores \u2013 encarnados n\u00e3o mais por burocratas de algum regime ditatorial, mas pelo vizinho ao lado ou por um primo distante \u2013 transformem tudo em tabu. Sim, de repente tudo se tornou tabu. E ainda que as inten\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes, possam ser boas, as consequ\u00eancias s\u00e3o, via de regra, autorit\u00e1rias. Interditam o pr\u00f3prio corpo em sua pot\u00eancia de vida. Constrangem sua liberdade de existir e de se manifestar. Criminalizam o seu prazer. Como nos lembra Maria Galindo, \u201cn\u00e3o h\u00e1 liberdade pol\u00edtica se n\u00e3o houver liberdade sexual\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Portanto, deixemos os corpos dos artistas livres para que tamb\u00e9m os nossos corpos possam assumir as formas e os g\u00eaneros que quiserem. Descolonizemos nossos corpos e nossos pensamentos. Canibalizemos os novos mission\u00e1rios que querem catequizar o nosso desejo. N\u00e3o permitamos que nomeiem o livre uso do corpo como deprava\u00e7\u00e3o ou patologia. N\u00e3o aceitemos que uma suposta agress\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia seja usada como argumento de vilaniza\u00e7\u00e3o do artista, nem que a inf\u00e2ncia seja entendida como uma redoma de vidro impenetr\u00e1vel e ass\u00e9ptica, colocada fora da vida. N\u00e3o, n\u00e3o deixemos os artistas serem caluniados. N\u00e3o deixemos que pr\u00e9-julgamentos e senten\u00e7as anteriores ao contato direto com a obra substituam o exerc\u00edcio de frui\u00e7\u00e3o e de escuta da mesma. N\u00e3o deixemos que um meme, muitas vezes falso, substitua a experi\u00eancia in loco, do aqui e agora do teatro.<\/em><\/p>\n<p><em>A 6\u00aa MITsp busca hoje, mais do que nunca, defender os artistas da cena, seu voo arriscado, seu despudor, sua coragem em explorar territ\u00f3rios desconhecidos. Defendemos a liberdade de express\u00e3o. N\u00e3o aquela sem limites, que ignora as necessidades de repara\u00e7\u00e3o racial, de g\u00eanero ou de orienta\u00e7\u00e3o sexual. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceitamos a transforma\u00e7\u00e3o do medo de si em paradigma moral para os outros. Celebremos o corpo, o risco, a d\u00favida, o gozo. Riamos do absurdo de nossos tempos, confrontemo-nos com nossos h\u00e1bitos patriarcais, iluminemos as feridas do passado colonial nas cicatrizes mal curadas do presente, problematizemos nossas certezas de g\u00eanero. Mas, acima de tudo, n\u00e3o recuemos.<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, n\u00f3s somos assim.<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, n\u00f3s estamos aqui.<\/em><\/p>\n<p><em>Juntem-se a n\u00f3s!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><strong>Antonio Araujo<br \/>\n<\/strong><strong>Idealizador e diretor art\u00edstico da MITsp<\/strong><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIM, N\u00d3S SOMOS ASSIM A MITsp chega ao seu sexto ano. 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