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		<title>Netuno é travestruz Por Dodi Leal</title>
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		<dc:creator><![CDATA[maducato_admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Mar 2019 17:12:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[MDXL]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Netuno é travestruz Crítica do espetáculo MDLSX Por Dodi Leal Quais os fundamentos de programação visual e sonora das monstruosidades em cena? Em MDLSX, Silvia Calderoni escancara-se ao público e compartilha conosco seu percurso investigativo a respeito de como os saberes médico-patológicos controlam as corporalidades por seu vocabulário de gênero. Em sua transpofagia à la [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Netuno é travestruz</h3>
<h4>Crítica do espetáculo <em>MDLSX</em></h4>
<p>Por Dodi Leal</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5015" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067.jpg" alt="MDLSX" width="886" height="620" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-768x537.jpg 768w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0067.jpg 886w" sizes="(max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<p>Quais os fundamentos de programação visual e sonora das monstruosidades em cena? Em <em>MDLSX</em>, Silvia Calderoni escancara-se ao público e compartilha conosco seu percurso investigativo a respeito de como os saberes médico-patológicos controlam as corporalidades por seu vocabulário de gênero. Em sua transpofagia à la italiana, a peça performativa da companhia Motus (fundada em 1991 na cidade de Rimini) instaura um espaço cênico deixando nítido que, enquanto o pensamento da medicina diagnóstica visa a tutela normalizadora de desvios dos padrões sociais, as desobediências de gênero são da ordem do fazer artístico.</p>
<p>Menstruada ou monstruada, a cena monstra que vemos em <em>MDLSX </em>é de um peixinho que cresceu e hoje, Netuno, nos convoca a insurgir contra a cisnormatividade. A dança do deus romano é muscular, a magreza das vértebras saltadas e a pesquisa de movimento se associa às sugestividades cênicas do sutiã teórico, do pós-pornô e da pelugem suvaquiana e virilar. Era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, jogador de futebol e dançarino do cotidiano. O enunciado discursivo cita Apola masculina e Dionísia feminina, mas é netuniana a força cênica que desenha o corpo de Silvia no espaço. O campo onírico dos mares vibrante nas águas da projeção de vídeo tira a performance de gênero do imaginário escultural das artes plásticas e o desloca para o mergulho e a natação, a dança no mar induz musculaturas e desbanca qualquer receituário hormonal. Um tapete laminado em forma de triângulo, apresentado simultaneamente à projeção, é logo rearranjado pelo Silvia para formar seu <em>traje de sereio</em>. Sublinhemos o enunciado estético da peça como se Silvia nos dissesse: <strong>SEREI O</strong>, não A. E você, o que será?</p>
<p>Os dispositivos de iluminação cênica de gênero da encenação combinam o DJ-set com bolas e lanternas de LED. A mesa com luminárias e o vídeo em <em>looping</em> de um círculo hipnótico são trilhas visuais que estimulam a dança da cena, bem como as reflexões práticas<em> in loco</em> sobre as dinâmicas de figurino e suas emperragens: zíper que não fecha, enchimento de sutiã, calcinha/tanguinha com pau de pelos. Luzvesti é um conceito que não se reduz ao oxímoro visual entre luz e sombra desenhando as desobediências de gênero no corpo. É também sobre rever os contratos sexuais que legitimam a penetração e o depósito de sêmen como normas de afeto. Pois bem, se na iluminação arquitetônica a <strong>luz zenital</strong> é a incidência solar em um ambiente por meio de pequenas ou grandes aberturas na cobertura (como claraboias, átrios e cúpulas), a iluminação cênica de gênero em <em>MDLSX</em> é uma <strong>luz genital</strong>: um raio de luz verde simula um sensor de movimento a laser; com o auxílio de um laquê, Silvia torna visível a luz que copula. Luz que penetra a vulva também pode produzir orgasmos em pixels? A interação ininterrupta entre efeitos de áudio a partir de gravação de voz em microfone com os efeitos de vídeo produzidos com gravações com câmera ao vivo e outras prévias (às vezes sobrepostas) nos fazem perceber que a digitalidade contrassexual na qual a luz se insere não apenas provoca a dialética corpo-tela mas nos faz perceber que, a genitalidade e a penetração deixaram de ser funções de órgãos genitais há muito tempo, se é que um dia foram. A arte tem sido mais genital que os genitais, a subjetividade e o embate de ideias têm sido mais penetrativas que a penetração.</p>
<p><img class="size-full wp-image-5016 aligncenter" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1.jpg" alt="MDLSX" width="591" height="915" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-194x300.jpg 194w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-200x310.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1-400x619.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-1.jpg 591w" sizes="(max-width: 591px) 100vw, 591px" /></p>
<p>Hormonização é também sobre reaprender a caminhar. O desengonçamento corporal que vemos em cena nos remete ao avestruz, maior ave do mundo (não é a ema!). Se os relatos de que a altura e a fineza do corpo de Silvia o aproximaram do apelido “tábua de passar roupas”, o termo correspondente que cunhamos nas transgeneridades brasileiras é <strong>travestruz (travesti + avestruz). </strong>O peixinho cênico é uma ave dos mares que dança ao desobedecer gênero. A figura de luzvestruz também cabe: quando ele quase enfia sua cabeça dentro de um refletor de luz instalado no palco sob um tripé não são mais os efeitos neon ou festa da iluminação que definem a visualidade cênica de gênero, mas sim a monstruosidade desengonçada da estrutura corporal formada no jogo entre luz e sobra.</p>
<p>Se a medicina trata a subjetividade como uma mala de viagem (como se houvesse um gênero no endereço de partida e outro no destino final), em <em>MDLSX </em>a mala não pode ser despachada. Ou foi <strong>extra<em>viada</em></strong>. A arte cênica nos ensina aqui que as transgeneridades não se tratam de um processo de disforia de gênero, mas sim de <em>euforia de gênero</em>. As grandezas de Paul Preciado e Alejandro Jodorowsky trazidas juntas à cena (o diálogo entre eles é interessante, mas já não exatamente atual), se conjugam com provocações interessantíssimas como o próprio título da peça que ironiza as siglas fracassadas LGBT, LGBTIA+ LGB… todas elas assentadas em processos cardapialistas, monossexuais e em escala. Estão todas à serviço da cisgeneridade, como se pessoas trans não tivéssemos práticas sexuais. Dissidências sexuais e desobediências de gênero não são processos excludentes e a CISciedade pouco tematiza o <em>gostar</em> e o <em>não gostar</em> como processos subjetivos e sociais. Não é, enfim, o frisson de meio-sexo ou meio-gênero que tem mais impacto no título <em>MDLSX</em>, mas sim o zoar com este pensamento em letrinhas (a maioria consoantes, pouquíssimas vogais), já bem defasado: sua naturalização não nos faz perceber que romper ou não com as normas de sexualidade e gênero é algo que diz sobre todas as corpas, sem exceção. O lema aqui é nítido: chega de acrescentar letrinhas, percebamos que as transgeneridades são um Direito Humano. E todas as tais letrinhas são formas trans.</p>
<p>Na mitologia romana, Netuno é criador de cavalos. Na mitologia italiana de <em>MDLSX</em>, Netuno é um travestruz que cavalga na mala criada pela medicina para nomear as nossas corpas. Os fundamentos de programação visual e sonora das monstruosidades que o público é convocado a fruir não são médico-patológicos e não estão apenas na corporalidade da cena, se indissociam da corporalidade da/o espectador/a e de seu cotidiano. Monstruar gênero, na cena e no cotidiano, é perceber que a lógica computacional de som e imagem está em constante <em>tensão</em> e constante<em> tesão</em> com a lógica estética das políticas de <em>chênero</em>, de <em>zênero</em>, de<em> fênero</em> ou qualquer outra letrinha insossa ou sonsa que se queira pôr na frente.</p>
<p>Aliás, um olhar <em>de trans pra frente</em> também depende de você, leitor/a da crítica, leitor/a da cena. Luzvestruzes da teatra.Netuno é travestruz &lt;h6&gt;Por Dodi Leal&lt;/h6&gt;</p>
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		<title>Mas o impossível virá e o impensável é inevitável Por Juliano Gomes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[maducato_admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Mar 2019 16:28:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Críticas]]></category>
		<category><![CDATA[MDXL]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<h3>Mas o impossível virá e o impensável é inevitável</h3>
<h4>Crítica do espetáculo <em>MDLSX</em></h4>
<p>Por Juliano Gomes</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5005" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086.jpg" alt="MDLSX" width="886" height="620" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-200x140.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-300x210.jpg 300w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-400x280.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-600x420.jpg 600w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-768x537.jpg 768w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086-800x560.jpg 800w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0086.jpg 886w" sizes="(max-width: 886px) 100vw, 886px" /></p>
<p>De cara, este trabalho da companhia Motus se diferencia, em pelo menos dois aspectos, de uma tendência do teatro documental ligado às questões íntimas e políticas. O primeiro é que apesar de tecer uma precisa análise das dimensões de vivências da desobediência de gênero, sem esquivar dos efeitos cruéis a que os corpos desobedientes são submetidos, <em>MDLSX</em> recusa frontalmente o tom denuncioso e a produção de um corpo-vítima na cena.</p>
<p>A opção da montagem é criar uma espécie de festa-ritual mediada principalmente pelo uso intenso de músicas pop e do círculo, no fundo do palco, onde são projetados vídeos. A peça opera por constantes fusões e sobreposições, transformando em procedimento conceitual as ideias relacionadas à política de gênero. Os signos masculinos e femininos do corpo da atriz são acompanhados pela projeção de imagens pré-gravadas combinadas e imagens filmadas ao vivo, músicas executadas pela atriz DJ, outras inseridas pela equipe técnica da peça e descrições realistas com declarações recitadas. Todo expediente aponta para ações que buscam a combinação efêmera, mutante, para constituir a urdidura do trabalho.</p>
<p>O segundo aspecto é a crucial zona de opacidade que o trabalho institui. Quebrando a lógica de um acordo transparente com a plateia, onde se acorda tacitamente dizer somente “verdades biográficas”, aqui, em dado momento, percebemos que as datas dos acontecimentos narrados no texto não batem com uma biografia possível da atriz Silvia Calderoni. O discurso é propositalmente impuro, assim como as demais estratégias de composição. Quebra-se assim uma relação confortável que vem sendo fortalecida entre peça e plateia, em especial com assuntos e corpos não cisbrancos, onde estes obrigatoriamente falarão “a verdade”, contarão sua história invisibilizada. Essa tendência reflete uma das principais características do <em>ethos</em> neoliberal, que é o “não há alternativas, não há outras formas”.</p>
<p>O inimigo aqui é a normatividade em todas as suas dimensões. Portanto, a peça se estrutura como uma espécie de festa, frenética e melancólica, que trabalha por fazer variar seus elementos cênicos, criando modos expressivos mutantes a cada novo momento. <em>MDLSX</em> inventa sua própria forma, ora com corpo frenético, ora parada, fundindo memórias, ficções, teoria, manifestos. Diversos elementos cênicos tem uma característica evanescente e uma espécie de função dupla: o spray de cabelo, que fixa a forma, e logo depois se desfaz, e que, permite ver, em combinação, a luz laser, quando a sala está escura.</p>
<p><img class="size-full wp-image-5006 aligncenter" src="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313.jpg" alt="MDLSX" width="591" height="915" srcset="https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-194x300.jpg 194w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-200x310.jpg 200w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313-400x619.jpg 400w, https://mitsp.org/2019/wp-content/uploads/2019/03/MDLSX_Motus_Foto-Guto-Muniz_0313.jpg 591w" sizes="(max-width: 591px) 100vw, 591px" /></p>
<p>A coerência do gesto de operar opacamente é a de conceber afinal histórias impossíveis. Como diz a frase do filósofo Paul Preciado no programa da peça: a mudança necessária é tão profunda que a chamamos de impossível / tão profundamente que a chamamos de impensável. Mas o impossível virá e o impensável é inevitável / (O feminismo não é um humanismo)”. Esse programa político pede nada menos do que desordenar os sistemas expressivos, os modos de sentir, falar, ver, ter prazer, encenar e tudo mais.</p>
<p>As músicas pops tocadas com a delicadeza e precisão de uma DJ ressaltam não só uma dimensão rítmica do trabalho que é seu traço essencial, mas como também essas canções são uma espécie de coro ao drama principal. A dramaturgia do espetáculo é a da variação de tons, intensidades, uma modulação fina do que eventualmente parece acessório, uma urdidura da diferença, como método. Muitas vezes a “narrativa” está em segundo plano (mas quem disse qual plano deve ser primeiro?) como na canção <em>Despair</em> do grupo Yeah Yeah Yeahs. Esta faixa parece conter o matiz emocional do trabalho – essa mistura de aceleração desesperada com um coração doce e melódico &#8211; e uma letra que narra uma linha poética que pode facilmente ser relacionada a este romance de desformação do desabrochar de uma jovem dissidente de gênero.  (Não se desespere, você está aí / do começo ao meio ao fim / Não se desespere, você está aí). Viver e encarar a indefinição constituinte é se aproximar a sensação de não existir, é viver o impossível, o inexistível, encarná-lo. É este o centro dramático de <em>MDLSX</em> esse manejo do existir e não existir, performado através de ações de combinação, fusão, composição. Isso, com a vitalidade de uma festa, e a mortalidade historicamente inerente de um corpo dissidente, desdobrado em potência, numa peça que, deliberadamente não acaba.</p>
<p>E quando nossas palmas ao final, disparam o dispositivo que muda a iluminação pelo nosso estímulo sonoro, o ciclo de interrelações alteradoras se confirma e se expande, revelando a alegria latente do “não humano” colocado em conexão direta conosco. Humanismo é xará da normatividade. O impossível e o impensável sempre estiveram por aqui, é questão de coragem, prazer, energia e exercício, desejá-los.</p>
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