PIXO SEM LUPA

--PIXO SEM LUPA

Crítica escrita a partir do espetáculo País Clandestino, por Laís Machado (Plataforma
Araká/BA

Desde a oficialização do Golpe no Brasil, que retirou da presidência uma mulher legitimamente eleita, a política
tornou-se o centro das atenções. Seja esta discussão profunda, embasada ou não. Se você é um reacionário, faz questão de deixar claro: “sou reaça”. Têm-se orgulho disso atualmente. Se você tem o mínimo de engajamento com a democracia, deixa marcado isso também. Mas o legal mesmo é não ser alienado. Se sentir pertencente a algum grupo. Por isso determinados estratos sociais abusam do #Foratemer, na tentativa de deixar marcada na história a premissa do engajamento. País Clandestino deu-me a impressão de estar conversando com essas últimas pessoas descritas.

Enquanto os espectadores procuram seus assentos, os atores da peça se confundem com eles. Estão no meio das
fileiras, cumprimentam conhecidos, apresentam-se a novas pessoas. Então a mudança de voz para o tom e o volume
característicos da enunciação identifica os performers e suas posições. Apresentam-se por meio de vários idiomas,
simultaneamente, brincando com a legenda, com as traduções e com a ideia do internacional. A brincadeira provoca risos e identificação, principalmente com aqueles que estão acompanhando a MITsp, levando em consideração que estamos no fim da mostra e passamos bastante tempo nos últimos dias lidando com espetáculos de idiomas diversos. Cria-se intimidade que se torna um recurso para geração de disponibilidade da audiência com o que está por vir.

Nos primeiros minutos da peça, previamente ao áudio institucional, contam sobre a residência artística que originou
o projeto. Em seguida, jogam com os imaginários estereotipados sobre o Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha e França, que parecem ter surgido de conversas travadas entre eles ao se conhecerem. Podemos até dizer que tais provocações e achismos estão no nível da normalidade entre curiosos, embora já deixe evidentes as relações coloniais entre Europa e América do Sul.

Apresentam, num cruzamento de histórias, onde estavam durante movimentações políticas recentes em seus
respectivos países. Nesse momento os performers penduram rolos de papel pardo em cabos que cruzam o palco. Um para cada performer, onde pixam jargões relacionados aos momentos políticos que foram anunciados, inclusive o #ForaTemer. Essa imagem permanece até o final do espetáculo, entretanto, as narrativas disparam para outro lugar que parece desconectado do que vinha sendo proposto até este momento. De uma relação com a coletividade, característica das movimentações políticas, da dimensão de rede que aproxima criadores de diferentes países, deslizam para narrativas de experiências individuais e normativas.

Questões políticas são lançadas sem aprofundamento ou conexão, como se esse primeiro momento servisse apenas
para marcar em que lado da história os performers gostariam de se colocar, e não necessariamente ideologias que tivessem se tornado corpo e os mobilizassem. Há um momento em que ao falarem sobre o #JeSuisCharlieHebdo, um dos atores lança a problematização, que aconteceu na época do atentado, comparando as vidas francesas perdidas e as vidas nigerianas massacradas pelo grupo terrorista Boko Haram em quantidade muito mais expressiva. Lembrando que a primeira causou comoção internacional e a segunda malmente uns compartilhamentos na rede. Mas depois de lançar tal questão, o espetáculo segue como se nada tivesse acontecido. Como se aqueles corpos que estavam em cena não fossem capazes de reconhecer em si próprios os corpos que causariam comoção internacional.

O texto comete também alguns escorregões coloniais-gramaticais, por exemplo na fala de Pedro (o brasileiro) que
se refere à sua ancestralidade como sendo composta por “indígenas, negros, italianos, alemães etc”. Indígenas e negros são “massas” desterritorializadas e brancos são diversos e divididos por categorias geográficas, como países. Um trabalho no qual as etnias ocupam esses espaços não está conectado, em sua ética, com o momento político atual, pelo modo como apresenta seu discurso. Os pixos continuam dispostos no palco, mas nada mais parece relacionar-se com eles. São fantasmas do que poderia ter sido.

Depois de compartilhar momentos de suas vidas com poucos pontos de conexão entre as histórias, áudios em off
apresentam cartas dos atores para futuros filhos, enquanto se retiram e desenrolam o resto do papel pardo em direção à plateia. A história está sendo escrita, e parece um convite à sua audiência para escrevê-la.

Embora o espetáculo relacione fatos acontecidos no passado (geração de seus avós, pais e outros), presente (a
geração dos atores) e futuro (a geração dos futuros filhos), por tratarem-se de corpos que pertencem a estratos mais
privilegiados econômica e socialmente, se percebe pouquíssimas mudanças entre essas esferas temporais. Então eu me pergunto: quem era convidado por aquele papel pardo para escrever?

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2018-03-10T23:43:32+00:0010 de março de 2018|Críticas|